Opinião: “O Toque de Mídias”, por Marcelo Molnar

Marcelo Molnar | 15/03/2019 13:00
Crédito:Pixabay


Sim estou parafraseando a história mitológica do rei Midas pelo momento que vivemos com as nossas mídias. O que está acontecendo atualmente com o poder das redes sociais, dos celulares, e dos aplicativos multiplataforma de mensagens instantâneas e chamadas de voz, é algo parecido como o “complexo de Midas”. Caracterizado de forma simbólica e metafórica na sociedade contemporânea, facilmente identificado na cultura do desejo da abundância, e da instantaneidade sem limites. Lembrando: Midas foi um personagem da mitologia grega. O principal mito atribuído a ele foi o de transformar em ouro tudo o que tocava. Segundo a lenda, numa noite, um homem vestido de branco apareceu diante do rei Midas e concedeu-lhe um desejo. O rei imediatamente desejou ter o toque de ouro. Incialmente sua alegria não conheceu limite e, logo que chegou à casa, ordenou aos criados que servissem um magnífico repasto. Então verificou, horrorizado, que, quando tocava o pão, este enrijecia em suas mãos virando ouro. Tomou um cálice de vinho, mas a bebida tornou-se ouro derretido, sua filha o encostou e se transformou em uma estátua de ouro. Logo percebeu que o poder da sua ambição era na verdade um castigo, uma condenação.


Falar sobre as vantagens e maravilhas do desenvolvimento tecnológico é desnecessário, irrefutável e óbvio ululante. Não precisamos de muito esforço para enumerar uma vasta lista de argumentos, para convencer alguém, sobre todos os benefícios e avanços que o universo digital trouxe para as nossas vidas, principalmente na forma como facilitou nossa comunicação e transformou nossos relacionamentos. A ubiquidade da internet alterou profundamente nosso comportamento e a forma de pensar da nossa sociedade. Porém, nem tudo na vida corre como a gente quer ou imagina. Existem efeitos colaterais. Toda evolução traz desafios e problemas, apesar de inicialmente poderem ser invisíveis ou discretos. Com o passar do tempo, vamos sofrendo seus efeitos e consequências, mesmo que as causas ainda não estejam claras e evidentes.


Com o passar do tempo, especialistas e generalistas procuram argumentos, provas e explicações sobre esses efeitos colaterais, identificando sua natureza, na tentativa de equacionar, minimizar ou resolver as adversidades. Os otimistas ou insensíveis, ignoram ou menosprezam as evidências. Preferem seguir a manada, adaptando a conduta e reafirmando os novos hábitos. Mas o que está acontecendo com nossas vidas e boa parte dos nossos negócios é algo muito parecido com o personagem da mitologia grega, o rei da Frígia. 


Na antiguidade o ouro, metal escasso, era o desejo de todos. Ter acesso as informações, apesar da profusão nos dias de hoje, é a cobiça e obsessão da maioria. Nos apaixonamos pela vigilância. Ao mesmo tempo que somos cada vez mais incentivados a compartilhar acontecimentos. Estamos treinados para saber o que está acontecendo em todos os lugares. Temas e assuntos diversos, podem estar ligados. Temos o poder de transformar todas as notícias em dados. Acompanhamos os acontecimentos e desdobramentos em tempo real. Nossas expectativas não têm limites. Mas a pergunta que fica é: Para que tudo isso mesmo?


Precisamos fazer uma diferenciação entre o uso e o abuso. O que realmente fazemos com as informações que recebemos? Temos capacidade de interagir ou reagir a elas? Estamos preparados para absorver todo o volume disponível? Digerimos corretamente o que recebemos? Quais informações realmente são úteis? O simples fato de saber o que está acontecendo, ou o que as pessoas estão falando, altera o cenário? Modifica o futuro? A reposta e conclusão a estas questões é um sonoro não! O único resultado efetivo são prejuízos no trabalho e na vida pessoal. O consumo de ansiolíticos cresceu na mesma proporção que a facilidade de acesso à tecnologia. Estamos infectados pelo estresse “hightech”. Alguns transtornos como Síndrome do Pânico, Fobia Específica, Fobia Social, Estresse Pós-Traumático, Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Distúrbio de Ansiedade Generalizada, são pandemias mundiais.


Não quero parecer nostálgico, pois sou extremamente contemporâneo. Apenas proponho uma reflexão. Ao passo que as transações sociais e comerciais se tornam cada vez mais difusas, teremos que rever os costumes. Alinhar as expectativas. Não estou falando de apenas de tecnologia, mas de comportamento. Caminhamos (se já não estamos) em direção a um ponto insuportável e insustentável. O resultado de tudo isso é um grande esforço e consumo de energia para resultados pífios. Não conseguiremos enganar os outros e a nós mesmos por muito tempo. Assim como o rei Midas, precisamos parar de desejar coisas erradas, pois algumas vezes, somos atendidos. Não precisamos saber de tudo, precisamos receber as informações corretas. Não precisamos de tudo imediatamente, precisamos no momento certo. Como resume muito bem o escritor Normann Kestenbaum, em seu livro: “Obrigado Pela Informação Que Você Não Me Deu!”, o excesso de informação, a falta de tempo e a dispersão típica da atual geração multitarefa está destruindo valores, empresas e relacionamentos.


Crédito:Arquivo pessoal
Sobre o autor: Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, pela Faculdade Oswaldo Cruz, com pós graduação em Marketing e Publicidade, pela ESPM. Experiência de  18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação da BrasilConsult, Viscoplan, HAC, SDGroup e Nexial. Trabalhou como analista de Pesquisas de Mercado com institutos como Meta Group, Gartner Group, IDG e CVA, desenvolvendo projetos para o Bradesco, Itaú, Telefônica, Banco Santander, Banco Toyota, UOL, Pão de Açúcar, Editora Abril, Janssen entre outros. Ex-Vice-Presidente da Sart Dreamaker. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em pesquisa e monitoramento de redes sociais. Sócio Diretor do grupo Boxnet (Maxpress, Boxnet e Todo Ouvidos).

Leia também

"Não se cura tuberculose com Viagra", por Marcelo Molnar

“Tela Dobrável”, por Heródoto Barbeiro

"Como sobreviver num mundo onde todos são editorialistas", por Edson Aran