Opinião: “O Poder dos Astros”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 06/03/2019 15:41
Crédito:Pixabay



O astrólogo é mesmo poderoso. Graças as suas previsões e conselhos, finalmente o grupo chegou ao poder. Ninguém fazia nada sem consultá-lo, ainda que muitas vezes estivesse distante dos acontecimentos políticos do país. Os que o ouviam eram mais do que consultores de alguém capaz de apontar os caminhos mais curtos para monopolizar o poder. Eram seus discípulos e acreditavam nele cegamente. Várias vitórias rumo ao poder foram atestadas por aqueles que o seguiam e isso reforçava ainda mais sua influência para quando chegasse o grande embate de se apropriar do poder central. Os seus opositores bem que se esforçaram para denunciar suas manobras macabras e não faltaram adjetivos para qualificar sua personalidade e atitudes. Mas era muito pouco para os que o seguiam como um deus, um abençoado do céu, um ser capaz de ler nas estrelas e outras manifestações da natureza quais os caminhos melhores e mais curtos em direção à conquista do poder e à monopolização do Estado.

 

O maior ensinamento do astrólogo é que os bons tempos voltariam. A Idade de Ouro, perdida no passado, seria restaurada graças aos seus ensinamentos e orações. O grupo de crentes se uniam a cada uma de suas indicações e se tornavam cada vez mais fortes, com críticas aos rumos que o país estava tomando e o abandono das tradições que jamais poderiam ser esquecidas. Para tanto era preciso reunir os conservadores de toda ordem, os refratários às novidades pagãs do novo século e pôr um freio naqueles que insistiam em jogar na lama os símbolos nacionais. Bandeira, brasão e selo eram para serem adorados como a personificação da pátria e dos valores invioláveis da nação. As famílias precisavam ser preservadas, não importa a que classe social pertenciam. A política externa deveria estar voltada a alianças com nações que tinham os mesmos ideais. Todas as outras deveriam ser rechaçadas, uma vez que podiam interferir no rumo correto do mundo e da humanidade. Deveriam ser satanizadas e, se possível, esmagadas na primeira oportunidade de união entre os que estavam ao lado do Bem para a luta titânica contra o Mal. Zoroastro já previra, há uns 5 séculos antes de Cristo, que um dia essa batalha se daria e se os homens se aliassem ao lado de Bem certamente ele derrotaria a sua antítese. A doutrina do astrólogo não tinha fronteiras, juntava todos os ensinamentos que podiam ser úteis para consolidar a crença dos seus seguidores em sua crença.

 

Havia os que avaliavam como um risco para o país, uma influência tão decisiva de alguém que não vivia o dia a dia das pessoas, e questionavam como o Estado poderia sobreviver diante das rápidas transformações trazidas pelo novo século. Ainda assim, não tinham força suficiente para afastá-lo do centro do poder político da nação. Ideologicamente era um ativista da direita radical e liderava grupos políticos influentes. Estava perigosamente próximo da presidente. Era conhecido por seus livros Astrologia Esotérica, o Sábio Hindu e Alpha e Omega. El Brujo, como era conhecido, reservou para si mesmo um ministério. Sua influência maior se deu no governo de Isabel Perón. Foi o idealizador da AAA, Aliança Anticomunista Argentina, que praticou atentados e assassinatos seletivos para combater os grupos de esquerdas muito fortes no país. Não foi o único que usou e abusou de crenças esotéricas para influenciar governos. Outros personagens se misturaram com a política como Rasputin, na Rússia czarista, e Choi Soon-sil, na Coreia do Sul.

 

Crédito:Edu Moraes
*Heródoto Barbeiro é editor-chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.


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