Opinião: "Caso Marielle, dia 14 e o papel do jornalismo", por Luiz Claudio Ferreira

Luiz Claudio Ferreira | 06/03/2019 11:29
Crédito:Reprodução PSOL



O próximo 14 de março, passado o Carnaval e a série de tragédias desse começo de 2019, está agendado para a imprensa voltar a uma história ainda sem respostas. Na madrugada daquele dia de 2018, a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (que pautou o mandato pela defesa dos direitos humanos), e o motorista Anderson Gomes foram assassinados na região central da cidade. Um ano depois, há muito mais dúvidas do que certezas sobre o crime que ganhou repercussão internacional. Um problema é que a grande mídia pode ter ficado, de forma preponderante, à espera das investigações oficiais e os materiais, em geral, apresentaram viés declaratório e dependentes de declarações assemelhadas a enigmas.


Como amostragem, separamos aqui alguns períodos para observação. O primeiro compreende as publicações do dia 22 de junho, quando o crime completou 100 dias. O tom das coberturas do Extra, da Agência Brasil e do Huffpost apontam apenas para retrospectivas do andamento da investigação policial.


Pouco antes, em 13 de maio, uma revelação do Fantástico trouxe que o vereador Marcello Siciliano (apontado por testemunha como um dos responsáveis pelo assassinato da vereadora) tinha conversas com milicianos. O vereador nega qualquer envolvimento no crime. A notícia pautou outros veículos sobre o tema, mas a investigação jornalística não andou.


No dia 31 de agosto, o El Pais apontava que a demora por uma solução era maior do que de outros crimes semelhantes.


No dia 18 de dezembro, o miliciano “Renatinho Problema” foi preso acusado de atuar com o chefe Orlando Curicica. Ainda não foram apresentadas provas das relações entre os suspeitos e a morte da vereadora e do motorista. G1, UOL e outros portais trouxeram a novidade, mas também não há novas informações por esses portais nos dias que se seguiram.


Vez por outra, os jornalistas receberam migalhas de informação: o crime, segundo a polícia, teria relação com milicianos incomodados com a atuação da parlamentar contra a grilagem de terras. Uma reportagem da Folha de S.Paulo em dezembro trouxe o deputado federal Marcelo Freixo considerando improvável essa versão.


Outro informe é que teria havido obstrução nas investigações por parte de policiais. Em fevereiro deste ano, a Polícia Federal entrou na história e buscou provas sobre isso, conforme a imprensa relatou. Mas a falta de respostas sobre a autoria ainda está sobre os ombros da Polícia Civil. 


Como o caso corre em segredo de justiça, o tom da cobertura tem sido o de espanto diante da falta de conclusão. Os jornalistas ficam na expectativa de um próximo anúncio, uma próxima coletiva e de uma data redonda que faça com que os responsáveis pelas investigações apareçam para falar.


No entanto, é necessário recordar que o jornalismo brasileiro, mesmo em meio à crise econômica, recessão e quebradeira de veículos, tem tradição no gênero investigativo. Estar refém dos anúncios policiais há um ano demonstra um desconhecimento em relação ao modus operandi das milícias e também sobre a atuação da parlamentar morta. Há exceções, como em uma tentativa da BBC em explicar como agem as milícias, mas essa não tem sido a regra.


É sabido que a investigação jornalística não substitui a ação policial. E, claro, que o campo das especulações pode muito mais atrapalhar do que ajudar. Pior ainda seria ligar, por ânsia de furos, de cliques ou de audiência, o crime a pessoas que podem ser inocentes. O que o jornalismo pode fazer diferente é mergulhar em todas as pistas que os policiais trazem com as câmeras ligadas ou em off. O público brasileiro pouco sabe sobre milicianos envolvidos em grilagem de terra e também não foi apresentado a como Marielle pode ter incomodado os assassinos. As instituições policiais vigoram como as fontes-rainhas dessa história. Nesse contexto, a imprensa não pode só esperar passiva por novidades a cada dia 14, por especulações ou entrevistas agendadas.


Crédito:Arquivo pessoal
*Luiz Claudio Ferreira - Professor de jornalismo do UniCEUB, em Brasília, há 14 anos. Mestre em Comunicação e doutorando em Literatura. Tem passagens por redações de jornais, TV, revista e agência de notícias. Atualmente trabalha também na Empresa Brasil de Comunicação

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