Opinião: "Como sobreviver num mundo onde todos são editorialistas", por Edson Aran

Edson Aran | 22/02/2019 17:05
Crédito:Pixabay


Assim falou Andy Warhol: “No futuro, todos serão famosos por quinze minutos”. Esta frase foi tão vulgarizada e parodiada que nem percebemos que o futuro chegou. Todos ficamos famosos no Twitter, YouTube, Facebook, Instagram, blogs, vlogs ou podcasts. E, mais do que subcelebridades, somos todos colunistas de opinião. Cada um de nós virou um editorialista de si mesmo e, nesse caos, a mídia tradicional perdeu relevância, leitores, anunciantes e empregos.


Nós, jornalistas, passamos pelas cinco etapas do luto: negação, raiva, negociação, depressão e, finalmente, aceitação. Já aprendemos que a internet favorece as vozes mais estridentes e irresponsáveis, com consequências perigosas para a própria democracia. Também compreendemos que a mídia tradicional precisa disputar espaço com canais amadores ou semiamadores que, no entanto, são percebidos como “iguais” pelo consumidor. E é por isso que ideias esdrúxulas como “terra plana” e “marxismo cultural” são agora aceitas como “fatos”. 


Em artigo recente na revista “Wired”, Antonio Garcia Martínez, que trabalhou no Facebook e hoje é um autor best-seller (“Chaos Monkeys: Obscene fortune and random failure in Silicon Valley”), prevê uma nova “era de ouro” para o jornalismo. Ele evoca a figura de Benjamin Franklin que, além de estampar a nota de 100 dólares, foi cientista, “founding father” e editor. No século 18, ele publicava o “Poor Richard’s Almanack”, que trazia dicas e curiosidades, mas também ativismo político. Franklin não tinha pudor algum em lançar mão de fakenews para empurrar suas ideias. Durante a guerra da independência, por exemplo, ele publicou a notícia de que os hessianos, mercenários alemães que lutavam pela Inglaterra, eram deixados para morrer quando feridos, evitando assim que a coroa pagasse soldo para inativos. Isso levou à deserção de muitos hessianos, favorecendo a causa dos rebeldes. Conto essa história em “O Livro das Conspirações”.


Martínez argumenta que, se estivesse vivo, Benjamin Franklin estaria trollando inimigos políticos no Twitter ou infernizando a vida de desafetos no YouTube. O articulista investe contra a “imparcialidade” da imprensa – uma invenção do século 20, diz ele – e defende um jornalismo autoral e opinativo como receita para driblar a crise. Até certo ponto, Martínez tem razão. O jornalismo “imparcial” é mesmo um mito, mas um canal de informação precisa ser “justo” e balizado pela realidade ou vira apenas outra voz estridente na bagunça. A autoralidade é de fato a única maneira de fazer diferença na cacofonia digital, mas ela pressupõe engajamento e há o risco de que o jornalista se enclausure numa bolha ficcional para não ser incomodado pelos fatos. Entre uma ficção cômoda e uma realidade incômoda, Benjamin Franklin escolheria a primeira. Será que isso é jornalismo?


Crédito:Arquivo pessoal
*Edson Aran é redator-chefe da IstoéDINHEIRO. Jornalista, escritor e roteirista com grande experiência no mercado de revistas, Aran atuou não apenas como editor, mas também em planejamento estratégico, orientação em áreas de marketing/distribuição e controle de budget. É criador do República dos Bananas (www.republicadosbananas.com.br) e do Marcha da História, e autor de livros de ficção e não-ficção.


Leia também

"Todo populista tem aversão à mídia", por Edson Aran

“Coletiva e sabatinas de imprensa, momento para informar, não para lacrar”, por Wagner de Alcântara Aragão

“Do que vale o engajamento para o jornalismo?”, por Marcio Gonçalves