Opinião: “Coletiva e sabatinas de imprensa, momento para informar, não para lacrar”, por Wagner de Alcântara Aragão

Wagner de Alcântara Aragão | 22/02/2019 11:18

Crédito:Pixabay
Dia desses, assistindo ao Boleiragem – ótimo programa de bate-papo sobre futebol que estreou em janeiro no GloboEsporte.com e no SporTV (aliás, vale, mais para frente, um artigo para refletir sobre os programas de jornalismo esportivo) –, ouvi do ex-técnico Muricy Ramalho ele se queixar das coletivas de imprensa, principalmente aquelas depois de treinos.

Muricy lembrava do que considerava uma chatice: encarar os repórteres setoristas (especializados na cobertura de um determinado clube). Hoje do outro lado do balcão – Muricy é comentarista no mesmo SporTV –,  o supercampeão treinador criticou não só a falta de criatividade dos profissionais, como também um certo comodismo de alguns jornalistas.


“Uns só perguntavam do Ganso”, recordou-se, de quando era técnico do Santos e tinha o talentoso meia sob seu comando na Vila Belmiro. “Outro, certa vez, sem prestar atenção no treino, depois me perguntou que time eu iria escalar”, citou ainda.


O ponto de vista de Muricy Ramalho reacendeu uma reflexão que há algum tempo venho fazendo sobre sabatinas e coletivas de imprensa. Sobretudo durante as últimas eleições, em cada sabatina e coletiva pairava no ar uma disputa por quem ia “lacrar”.


Um jogo de perseguição à pergunta desconcertante, àquela que vai repercutir nas redes sociais, que vai virar meme. O pior é que esse jogo parece contaminar a postura de certos entrevistados, os quais, percebendo a tentativa de serem emparedados, igualmente mais se preocupam com a réplica definitiva, a deixar interlocutores sem reação, do que propriamente em responder aos questionamentos, às dúvidas.


Da luta nessa arena discursiva o maior perdedor é o público. Sabatinas e coletivas servem para extrair informação, e não como espetáculo de diversão. Perde muito também o jornalismo, ao abrir mão de cumprir sua função e funcionar como entretenimento.


Nota-se ainda outra recorrência: com determinadas pessoas, ou em determinados ambientes, as sabatinas e coletivas repetem os assuntos, o resgate de velhas polêmicas, o mais do mesmo. É o “uns só perguntavam do Ganso” a que se referiu Muricy Ramalho.


No período eleitoral isso ficou explícito – a candidato “x” só se perguntava sobre tal tema; a candidato “y” sobre as declarações de sempre. Em coletivas e sabatinas em outras searas, como no futebol de Muricy, na música, na literatura, na economia, também há uma insistência em levar a conversa para o mesmo rumo.


Será esgotamento do modelo? Dificilmente. E pelo contrário: sabatinas e coletivas de imprensa têm tudo para serem interessantes, reveladoras, ricas fontes informação, conhecimento; cobrança, quando for o caso; conflitos, vez e outra. Mas nunca uma peleja, uma relação dissimulada entre as partes. É a credibilidade do jornalismo que está, aí sim, em jogo.


Crédito:Arquivo pessoal
*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.


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