Opinião: “Telhado desabando”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 20/02/2019 11:13

Crédito:Edu Moraes
Mexeu com um, mexeu com todos. Este foi o slogan que ganhou o concurso promovido pela corporação. O presidente lembrava sempre a todos os seus integrantes que deveriam se comportar como uma colmeia de abelhas. Quando alguém ousasse tocar na casa do grupo, todos deveriam sair e picar quem estivesse pela frente. Não importa o motivo. Acusar ou agredir moralmente um membro da corporação não pode ficar impune e não importa a razão pela qual ele praticou esse ato inominável. Só agindo em defesa constante dos seus membros é possível preservar os privilégios arduamente acumulados depois de tanto tempo de luta. Um esforço como esse não poderia ser destruído por ninguém, ainda mais se tratando de um neófito que julga que a lei é igual para todos. Que todos podem ser investigados igualmente, ou processados, caso tenham cometido algum ilícito civil ou criminal. Por definição o membro do conclave é inocente mesmo que tenha sido apanhado no guarda roupa de uma recatada senhora do lar.

 

O espírito corporativo remonta à Idade Média ocidental. Sua origem se deu nos burgos da Europa e se organizavam de acordo com as profissões que exerciam. Assim a corporação dos sapateiros reunia todos os que sabiam ou queriam aprender a fazer sapatos. Reunia-se em torno de um chefe, o mestre, tinha santo padroeiro e bandeira. O mestre era o todo poderoso e podia decidir se um novo artesão seria ou não admitido na organização que, no Norte, era chamada de guilda. Ditava também o formato, o estilo, a qualidade do produto e o preço final. Ninguém poderia desobedecer a suas ordens sob a ameaça de ser posto para fora da guilda e não poder mais fabricar e vender calçados. Na prática era uma ditadura apoiada nos mestres mais velhos e que dominavam o mercado das pequenas cidades, que vendiam para as caravanas de comércio. Geralmente eram os pais que escolhiam em que corporação o filho iria se filiar. Começava como um verdadeiro escravo e passava muito tempo até que pudesse deixar a condição de aprendiz e se tornar um oficial. Todos tinham que ficar abrigados em uma oficina, uma vez que não se permitia o empreendedorismo. Abrir uma nova, nem pensar, a corporação vetava. A característica maior desse sistema era o imobilismo, não se cogitava enriquecer, afinal o capitalismo ainda não havia se estruturado, mas garantia o poder para um grupo organizado.

 

As corporações ganharam amplo espaço a partir do Estado Novo, durante a ditadura de Getúlio Vargas. O sistema foi inspirado no modelo implantado na Itália por Benito Mussolini, o líder da ditadura fascista. Na Itália era necessário ser filiado a um sindicato para exercer uma profissão. Tinha que ter carteirinha emitida pela corporação. Através dos sindicatos era possível controlar todos, vigiar os opositores e, se necessário, retirar-lhe a carteirinha e impedi-lo de trabalhar. No Brasil os operários e industriais foram confinados nos sindicatos e os conflitos mediados por Vargas. Era um plano para impedir a luta de classes, o motor da história e da revolução, segundo Marx. Os fascistas venceram os comunistas. Sem conflito não haveria o perigo. Nessa conjuntura fortaleceram-se as corporações com os nomes mais diversos: sindicatos, associações, ordens, conselhos, todos pendurados em duas argolas: de um lado as verbas públicas e de outro as mensalidades pagas pelos corporados. Era um preço justo, uma vez que a sigla corporativa garantia determinados privilégios que o povo comum não tinha acesso. Até pronomes de tratamentos foram registrados na forma da lei. Não se sabe até onde esses ajuntamentos vão resistir com o novo mundo que se estrutura no século 21 e, graças às mídias sociais, estão desabando.

 

*Heródoto Barbeiro é editor  chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.


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