“2018: os reflexos da desinformação para o jornalismo”, por Ana Laura Sé Silva

Artigo vencedor do Foca na IMPRENSA (janeiro 2019)

Ana Laura Sé Silva | 15/02/2019 10:39
Tema: O que pautou a mídia em 2018?
Autora: Ana Laura Sé Silva, graduada em jornalismo pela Faculdades Maringá (PR)
Crédito:Pixabay

Na era da pós-verdade, todo dia é de potencial crise para o jornalismo. Alguns períodos, no entanto, se destacam pela relevância social. Em 2018, o pleito eleitoral com a enxurrada de notícias falsas, memes ofensivos, áudios e correntes com apelo de "repassem ao máximo", transformaram os assíduos leitores de timeline e usuários fiéis de aplicativos de mensagem em fontes "seguras" de informação. O problema se inseriu no cenário jornalístico brasileiro, mesmo se tratando de uma prática antagônica à profissão. 

A desinformação refletiu ao público novos significados sobre a prática jornalística. Com a proliferação de conteúdo informativo (falso ou não), houve queda proporcional da credibilidade de profissionais experientes. O uso da internet para produção de conteúdo transformou qualquer pessoa em âncora de jornal. Inversamente, profissionais com anos de experiência foram tachados de fakes.
 
O jornalismo também se inseriu neste fenômeno a partir do trabalho das agências verificadoras de fato, como a Lupa e Aos Fatos. A urgência do tema também surtiu em projetos como o "Fato ou Fake", do Grupo Globo, para verificação de conteúdos que circularam durante o pleito eleitoral. As ações foram válidas para expor a má-fé de determinados materiais, no entanto, deveriam ter feito maior sucesso em grupos de família e feeds de mídias sociais para desenfrear os efeitos negativos da desinformação. 

O cenário sinaliza uma grave crise de leitura crítica da mídia e impulsos provocados pela paixão política. Mas é irresponsável não pensar o papel do próprio jornalismo num cenário em que o "primo do vizinho que conhece alguém do governo" tem mais credibilidade que o profissional ético e isento. Esta autocrítica é necessária e primária para reverter a figura de descrença atribuída à imprensa no ano que passou.
 
Afinal: por que não acreditam mais em nós? Na posição de millennial e profissional recém-inserida no mercado, alguns pontos são passíveis de análise. A produção de conteúdo webjornalístico pode ser mais acessível e atraente para quem se informa. É claro, sem abandonar premissas básicas do código deontológico e técnicas fundamentais de produção, como a apuração dos fatos e verificação da notícia.

Se a figura imponente do jornalista no meio tradicional repercutiu, com seu merecido sucesso, por décadas, é inegável que a internet destacou novos comportamentos de produção e consumo. Por isso, alguns chamam os públicos da web de interagentes. E estão corretos. 

Passado o turbilhão de 2018, a análise de dados e os estudos sobre os conteúdos pautados na desinformação são válidos para entender seu sucesso. Não se trata de esquecer o jornalismo de qualidade, mas buscar soluções para alcançar o lugar primário de fonte de informação e exercer a função social da nossa profissão.

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