Opinião: "O jornalismo e seu poder humanizador", por Patrícia Paixão

Patrícia Paixão | 30/01/2019 11:55
O jornalista registra, informa, denuncia. E, além de todas essas ações, tem o dom de contar histórias de vidas. Vidas que quando tratadas apenas como números não sensibilizam, não provocam empatia. Vistas como estatística, podem até impressionar num primeiro momento pela quantidade, mas tendem a ter suas trajetórias, sonhos, a sua “humanidade”, enfim, solapados.

No dia 27 de janeiro foram completados seis anos da tragédia na boate Kiss, em Santa Maria (RS). DUZENTAS E QUARENTA E DUAS PESSOAS que estavam na casa noturna tiveram sua vida brutalmente ceifada. 

Quem eram essas pessoas? Quem eram seus afetos? Como era seu jeito de ser? Como viam a vida? Como se relacionavam com os pais e amigos?

Confesso que (assim como deve ter ocorrido com muitos de vocês que leem esse texto) só pensei a respeito dessas perguntas nos dias que imediatamente se sucederam à data em que a boate pegou fogo. Depois, com as tribulações de uma vida corrida, o caso foi sendo esquecido, com lembranças esporádicas. Isso até eu tomar contato com o livro da brilhante Daniela Arbex, uma das repórteres que mais admiro nesse país. Reservei um momento especial para fazer a leitura de “Todo dia a mesma noite – A história não contada da boate Kiss”, pois sabia que Daniela voltaria a me emocionar.  No livro “Holocausto Brasileiro” ela já havia me sensibilizado profundamente, com a história de horror e descaso no hospital psiquiátrico Colônia, em Barbacena (MG). Agora não foi diferente.

Coincidentemente, li o livro no dia em que aconteceu a tragédia em Brumadinho (MG). Devorei a obra em poucas horas, entre lágrimas e uma vontade enorme de pegar o primeiro voo para Santa Maria, pra procurar os pais e amigos dessas vítimas e abraçá-los. 

Os mortos na Kiss eram jovens na casa dos 20 anos. Vários tinham acabado de se formar. Outros estavam fazendo faculdade. Alguns realizavam o sonho do primeiro emprego, do primeiro namoro e estavam plenamente felizes. Tinham uma vida inteira de experiências e conquistas pela frente.

E quem eram seus pais?

Eram pessoas que lutaram arduamente para ver o filho viver bem. Eram pais cuidadosos, amigos, parceiros. De repente, esses pais, que tanto zelavam pelos filhos, viram-se numa situação de nem mesmo poder dar um último abraço em sua cria, já que os corpos estavam com um grau alto de intoxicação por cianeto, por conta da reação química que aconteceu com os gases dentro da Kiss. Nesse momento, fazendo a leitura do livro como mãe, que sou, a dor foi dilacerante, pois foi impossível não me colocar no lugar dessas pessoas. 

Assim que se começa a ler “Todo dia a mesma noite” entende-se o título. Para quem perdeu um filho, irmão ou neto na Kiss o tempo parou em 27 de janeiro de 2013, data da tragédia. Enquanto os quatro responsáveis diretos pelo incêndio seguem livres, podendo tocar suas vidas normalmente, os familiares mantêm uma dor profunda no peito. Não só pela ausência do ente querido, que faz alguns deles manter a luz do quarto do filho acesa, para sentir algum tipo de presença, mas pela impunidade, pela falta de justiça. Alguns pais se ausentaram da vida, outros se separaram, por não saber lidar com o ocorrido. Outros desenvolveram problemas psicológicos e até hoje estão em tratamento.

Mas o livro de Daniela não fala só de coisas tristes. É um livro que volta a dar vida às vítimas, e esse é um dos seus aspectos mais lindos. Sinto-me privilegiada por ter conhecido melhor jovens como Andrielle Righi, tão faceira e com tanta personalidade. Na obra, é possível saber o que Andri gostava de fazer, qual era a sua canção preferida, como ela amava sua família, suas amigas, que vestido gostava de usar.  

Esse livro me fez acordar para a importância de, tal como os pais e familiares, pensar nas vítimas da Kiss todos os dias, cobrando justiça. Imediatamente passei a seguir a página “Kiss: Que não se repita”, no Facebook, e adicionei amigos e familiares das vítimas, para acompanhar sua luta e apoiá-la.

Ah, essa carreira de jornalista... Quantas coisas maravilhosas ela é capaz de proporcionar. Agradeço imensamente a Deus por poder exercê-la. Que pelas letras da querida mestre Daniela Arbex e de tantos outros colegas repórteres muitas e muitas vítimas, como as do rompimento da barragem em Brumadinho, possam voltar à vida, deixando de ser meros números. E que a justiça continue a ser cobrada. Essa é a melhor profissão do mundo sim! Tenho muito orgulho de dizer “SOU JORNALISTA”!

Crédito:Arquivo pessoal
*Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Universidade São Judas Tadeu. É organizadora do livro "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e da série de livros "Mestres da Reportagem". Também é responsável pelo blog Formando Focas.

Leia também