Revisão da literatura sobre fact-checking nas eleições 2018

Gisele Sotto, em colaboração | 30/01/2019 11:33
Ainda na universidade, João Henrique Motta se interessou pelo fact-checking, só que percebeu que a literatura acadêmica no Brasil pouco havia investigado sobre o assunto. Então, decidiu fazer uma revisão da literatura, especialmente a internacional, para o seu projeto de TCC. 

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, João Henrique fala sobre o processo de desenvolvimento de sua monografia. Ele se formou em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais no segundo semestre de 2018.
Crédito:Arquivo pessoal


Sobre o trabalho "A emergência do fact-checking como fenômeno midiático: uma revisão de literatura sobre o estado da arte do movimento"

O gênero jornalístico do fact-checking e sua organização enquanto cultura profissional me chamaram atenção. Nos EUA, grandes jornalistas e grandes corporações passaram a tecer um importante papel entre os leitores e liberais, exercendo uma função de informação e orientação, oferecendo questionamentos sobre a coerência e a factualidade do mundo institucional relatado. No Brasil e na América Latina, o modelo começa a tomar força nos últimos anos com o surgimento veloz de diferentes iniciativas para a conferência do discurso oficial, que é veiculado nos espaços da esfera pública. 

A fim de conhecer mais sobre um fenômeno tão urgente, decidi estudar o desenvolvimento desta cultura. Percebi, no entanto, que a literatura acadêmica brasileira pouco havia investigado sobre o assunto. Decidi então aproximar da experiência americana e como o contexto político global contribuiu para que a cultura dos checadores se espalhasse mundialmente. Fui para a literatura internacional e decidi organizar uma revisão da literatura sobre o tema, relacionando os contextos históricos, as práticas e os desafios deste novo gênero jornalístico, que representa as correntes analíticas e críticas do trabalho de produção de notícias. A monografia apoia-se principalmente no livro "Deciding What's True: The rise of political fact-checking in the American journalism", do professor de comunicação norte-americano Lucas Graves.

A monografia, portanto, reúne artigos, pensamentos e impressões de especialistas de diversas partes do globo sobre como o jornalismo analítico, o jornalismo investigativo, o jornalismo de checagem passaram a ser representados pelo termo "fact-checking" e como a imprensa, em geral, tem se comportado diante da constante deflagração da desinformação nos espaços da esfera pública.

Principais desafios ao longo da produção

Em tempos de desinformação e descredibilidade no jornalismo profissional, me interessei muito pela comunicação política que se desenhava nesses últimos anos e como os fluxos de informação haviam sofrido mudanças tão impressionantes e pouco compreensíveis para o pensamento contemporâneo - como tudo é na história.  

A escassez de publicações sobre o tema foi um desafio para a pesquisa. Entretanto, o que mais tornou-se desafiador na experiência com o meu TCC foi o próprio cenário que se desenhava no ano de 2018. A polarização das eleições, das pessoas, da esfera pública e o compartilhamento desenfreado de informações falsas foram tomando dimensões incompreensíveis e várias vezes surreais. 

Buscar compreender um fenômeno enquanto ele ocorre é quase sempre impossível, mas ao menos, referenciais teóricos e bases de conceitos podem ser acionadas para buscarmos este entendimento. No entanto, tudo foi colocado em xeque nos últimos anos: a credibilidade dos meios de comunicação, a funcionalidade das campanhas eleitorais na TV, o uso de robôs para promoção de conteúdo, a ideia das pessoas sobre termos como "ideologia" ou "comunismo", que contribuíram para a perpetuação de tantas teorias conspiratórias. 

A vitória do autoritarismo sobre a democracia desenhava-se a cada mês e a cada mentira. O jornalista, me parecia, passava a tornar-se cada vez mais protagonista deste processo de disputa pelos discursos e pela liberdade. Agora nossos desafios continuam a aumentar. E o que está sendo feito para superá-los?

Os aprendizados

Além de conhecer mais sobre a história mundial do jornalismo, suas formas e evolução, além das transformações culturais, tentei compreender o presente que nos acomete. Vi que a mentira já faz parte de nossa realidade. Vi que as pessoas estão cada vez menos propícias à argumentação e à racionalidade. Vi que a intolerância e o ódio viraram lugar comum na nossa sociedade e que a violência havia se banalizado tanto nos ataques físicos quanto nos assédios psicológicos. Vi que a comunicação humana enfraqueceu e agora está diante de imensos desafios para garantir a sobrevida dos regimes democráticos. Vi que todo exagero causa cegueira. 

Percebi que precisamos valorizar o diálogo, o debate. Mas vi também que precisamos nos tornar cada vez mais críticos da realidade e usar nossa insatisfação e nossa perplexidade de maneira objetiva para garantir que os danos não se espalhem.

Significado dessa experiência 

Pessoalmente, foi a maneira de eu me aproximar ao máximo da cobertura jornalística nacional e mundial sobre as eleições de 2018 no Brasil, uma das mais importantes dos últimos tempos. Fazer um relato do que se debatia foi a forma de reportar o próprio jornalismo e as lógicas de comunicação contemporânea. Também se tornou um dever pessoal a torcida e o trabalho pela vitória da democracia e da liberdade. Neste ponto, falhamos, mas o trabalho gerou questionamentos sobre a ordem que vivemos, por isso me sinto também satisfeito. 

Como estudante, vi a realização do TCC como um processo imprescindível para o aprofundamento da formação. É o trabalho de maior fôlego que temos que produzir no mundo acadêmico e por isso ele exige uma seriedade ímpar, é o grande parâmetro para o que vier pela frente.

Contribuições que o trabalho trouxe 

Além de esclarecimento e mais aceitação do caos, me fez interessar mais pelo assunto e pretendo desenvolver melhor certas ideias para a publicação do trabalho. Creio que o principal foi conseguir perceber que o mundo fragmentado em que vivemos está cheio de desafios para a comunicação. 

Conselhos para quem está fazendo o TCC

Escolha temas que te afetam pessoalmente. Escolha formatos que você ame. Entregue-se, mergulhe e deixe que isso se torne parte de você. Provavelmente, nosso melhor resultado só pode ser extraído por nós mesmos, do que a gente acha que é capaz.

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