Opinião: “Mar de Lama”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 28/01/2019 16:20
Crédito:Edu Moraes
O jornalista publicou que havia um mar de lama sob o palácio presidencial. Sofreu um atentado no qual foi ferido e seu segurança pessoal, um major da aeronáutica, morreu. A crise tomou uma tal dimensão que envolveu o próprio presidente. O final foi uma tragédia como todos sabem. Os desdobramentos dessa crise contribuíram para o golpe de 1964.  Diferentemente do mundo político, as crises que atingem o mundo corporativo, a maioria delas, poderiam ser evitadas. Não se trata aqui de premonição, quiromancia, chute ou tarô. Nem as recomendações das velhas carpideiras “Eu não avisei...”. Não faltam oportunidades para empresas utilizarem oportunidades para impedir que os desastres aconteçam com a lama, enlameando a reputação e a marca, ainda que ela seja uma gigantesca mineradora e não venda diretamente produtos para o público. Ainda assim a marca sofre arranhões que podem nunca mais desaparecer.
 
Os gestores são pressionados pelos acionistas. Querem mais resultado, um eufemismo para a palavra lucro. Eles ficam entre a cruz e a caldeirinha. Para melhorar a rentabilidade, renumerar melhor os acionistas, nacionais ou não, precisam abrir mão de ações que têm custos altos. Segurança estrutural, por exemplo. Uma coisa é exigir que todos os funcionários usem capacete na área de trabalho e por belas fotos nas redes sociais da corporação. Outra coisa é investir milhões de reais em uma barragem que funciona bem, ainda que vez por outra, seja suspeita de não conter os rejeitos da mineração. É preciso gastar esse dinheiro. Mas quem vai pôr o guiso no pescoço do gato, arriscar e perder o emprego, o bônus de final do ano, o jatinho da empresa para viagem de férias e outras regalias? O gestor profissional sabe que sua passagem por lá tem vida curta, assim por que arriscar uma bela aposentadoria investindo uma grana preta em uma barragem precária e que não acrescenta nada nos lucros da empresa??? Melhor não. Esta é a máxima dos chefes e não dos líderes. Estes põem o pescoço na guilhotina, os outros não.
 
Uma tragédia como o rompimento de uma barragem não pode ser contido dentro das  paredes de uma corporação. Hoje, graças às redes sociais, nem as pequenas. Nas crises o presidente da gigante é atirado à mídia como se joga carniça para os chacais. Nada tem a dizer além da meia dúzia de key messages que decorou na viagem de volta, durante longa noite e madrugada. De um lado os parentes dos desaparecidos no mar de lama, de outro os acionistas temerosos que há uma ameaça real ao negócio e ao futuro da empresa. E dos seus capitais investidos, muitas vezes, nas bolsas de valores. Nem a ameaça severa, alto nível de incerteza, nem urgente necessidade de ação comoveram o boarding. Na outra ponta um bando de cigarras e baratas tontas batem cabeça em declarações à nação. São os gestores públicos, que nada veem, não tem nenhum compromisso com os eleitores e contribuintes. O tempo é o senhor da verdade, dirão enquanto esperam que a tormenta passe. Depois virão com discursos e projetos infindáveis, mas nunca executáveis. Os advogados da corporação já rechaçam que houve um homicídio doloso por omissão, mas apenas um crime ambiental. Daqueles tantos que não dão em nada e enchem cemitérios.
 
*Heródoto Barbeiro é editor chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.
 
ET. Um jornalista de uma pequena emissora de tevê nos Estados Unidos fez uma reportagem e descobriu que as represas lá estavam há 35 anos sem fiscalização. Fez a reportagem sem sair da redação.

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