Opinião: “Lições de empreendedorismo para jornalistas”, por Marcio Gonçalves

Marcio Gonçalves | 23/01/2019 11:18
Crédito:Arquivo pessoal


De 14 a 18 de janeiro de 2019, no meio das férias escolares, o que eu, professor, resolvi fazer? Despretensiosamente juntei-me a 100 brasileiros para visitar o Vale do Silício, em São Francisco, na Califórnia. Se você ouvir falar em Bay Area, no lugar de Vale do Silício, eu aprendi isso lá: é porque as empresas de tecnologia se espalharam tanto que ocuparam uma área mais ampla pegando toda essa baía californiana.

Os conceitos que trago à reflexão são os que mais me chamaram a atenção nestes dias em que passei junto a empreendedores, investidores e curiosos: pensamento aberto, rebeldia, capital e conhecimento. O que tudo isso misturado tem a contribuir com o jornalismo brasileiro?

O pensamento aberto é uma premissa no Vale. Parte das ideias que geram as startups, que são as empresas que recebem apoio das aceleradoras para que o negócio amadureça, nascem dessa capacidade de ter um mindset para a novidade. Na cobertura em vídeo que fiz para o Portal IMPRENSA expliquei o significado dessa palavra tão repetida por lá: o mindset. Ter a capacidade para ouvir o novo, de ser integrado com outras culturas e de respeitar a diversidade complementam essa possibilidade de abrir sua mente. Considero que o jornalista seja um profissional de mente aberta, mas não acho o mesmo dos donos da indústria da comunicação no Brasil. Para mim, esses gestores precisam ouvir mais seus leitores. A comunicação precisa ser mais dialógica e menos monológica.

Rebeldia, capital e conhecimento compõem o tripé da inovação no Vale. Essa atitude carrega o espírito Californiano. No passado a rebeldia foi representada por estudantes e artistas locais. Stanford e Berkeley são universidades em destaque na região. Elas atraem alunos do mundo todo. É um celeiro de ideias. E ideia vale ouro. A criatividade é a moeda corrente do local. Os investidores querem é isso mesmo. Afinal, parte da tecnologia que usamos hoje é oriunda de empresas nascidas no Vale. Entenderam o porquê de uma pitada de rebeldia, aliada ao capital, junto com pesquisa e desenvolvimento, é tão representativa naquela região?

O jornalista, para mim, é rebelde por natureza, mas o jornalismo, não. Como um não se separa do outro, eu diria que o jornalista é que tem que ser rebelde e ousar para inovar. Se soltamos uma pauta na mão de um jornalista, ele vai correr atrás das fontes. Somos pesquisadores natos. O conhecimento é nossa força. Para sermos empreendedores, agora só falta o capital. Aqui eu estou falando das novas iniciativas que alguns jornalistas estão trazendo à profissão: projetos de jornalismo independente, inovações no formato da entrega do conteúdo e novas maneiras de narrar uma história. Que os investidores nos ouçam. 

O empreendedor não quer ter prejuízo. O jornalista também não quer. Ninguém quer. O investidor busca ideias inovadoras. O jornalista é criativo. Falta um encontro do jornalista com o empreendedor. Jornalistas precisam se aglomerar mais. Empresários talentosos ficam por perto de pessoas como eles em São Francisco. Eu me lembrei de uma velha discussão para incitar uma nova: antes não sabíamos se falávamos de jornalista-blogueiro ou de blogueiro-jornalista. Que tal agora pensarmos em empreendedor-jornalista ou jornalista-empreendedor? Está aberta a discussão.

*Marcio Gonçalves é doutor em Ciência da Informação e líder do projeto “Aula Sem Paredes” (www.aulasemparedes.com.br). É professor de Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação no Ensino Fundamental I e II e no Ensino Médio na Escola Eliezer Max e docente no Ibmec, na Facha e na Unesa. É autor de livros nas áreas da comunicação social. O livro mais recente foi lançado pela Editora Matrix sob o título Inteligência Digital.

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