Opinião: “No Posto Ipiranga”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 22/01/2019 15:02
Crédito:Edu Moraes
Os policiais estavam postados bem na curva. Dessa forma os motoristas e motociclistas não poderiam escapar da batida. Ou passavam ou eram parados pelos agentes de trânsito. Em uma boa parte das motos fiscalizadas, os condutores não usavam o capacete e por isso não poderiam prosseguir. Teriam que ir buscar um ou pedir para que outra pessoa levasse o veículo para a casa. Mas há um jeitinho para essa situação. O guarda de trânsito explicava que a multa por conduzir moto sem capacete era alta, mas se fosse premiado com uma caixinha tudo poderia se resolver pela metade do preço. A maioria esmagadora pagava e continuava o trajeto sem o equipamento considerado de segurança no trânsito. A prática de corromper o agente do estado é tão comum que geralmente o condutor nem espera pelo pedido, vai logo pondo umas notas no meio dos documentos que entrega à autoridade. Afinal é uma pequena corrupção que não se compara com as grandes negociatas flagradas pela justiça. Uma coisinha sem importância considerando-se o valor da propina.
 
A empresa estatal de petróleo resolveu participar de um movimento de combate a corrupção nacional. Bancou uma campanha publicitária em todo o país. Ocupou espaço nas mídias tradicionais e sociais com apelos para que todos se mobilizassem contra a corrupção. Até mesmo nos postos de combustível implantados em todas as autoestradas foram espalhadas faixas com as mensagens da campanha de combate à corrupção. Isso não incomodou os políticos suspeitos de acumularem propina às custas dos impostos pagos pela população. Chama a atenção da campanha anticorrupção ser bancada por uma empresa e não pelo governo. De certa de forma é uma demonstração que o Estado não tem força suficiente para o combate de uma praga nacional, uma verdadeira endemia que se estende das camadas mais altas aos mais miseráveis.
 
O advento das mídias sociais pôs pilha na cidadania e graças a facilidade de filmar, gravar, compartilhar, muitas ações viralizaram e passaram de mão em mão. Aumentou a indignação daqueles que não compactuam com essas práticas e sabem que elas corroem a cidadania e a democracia. Mas há uma esperança no ar. A denúncia dos policiais de trânsito corruptos foi mostrada na internet. Estavam bem na entrada da cidade de Bangalore, na Índia. A petroleira Barhat assumiu o financiamento da campanha anticorrupção alertando o público em geral contra os males dessa prática. Em um país com mais de um bilhão e 300 milhões de habitantes parece uma tarefa impossível e inglória. Mas a ética da cultura hindu está ao lado da cidadania. Os deuses não são corruptos e não perdoam os que a praticam. A raiz está na epopeia que conta o nascimento mítico da Índia, o Ramayana. O herói Rama vence o combate contra o diabo graças ao apoio do irmão, dos aliados macacos. A fidelidade de sua esposa Cita é um exemplo de dignidade e de respeito às tradições. Até mesmo o inimigo derrotado na batalha final, cai de pé, não usa subterfúgios nem golpes baixos para abater o herói. O exemplo do combate à corrupção da Índia pode servir de exemplo para outros países. Mas será que a Petrobrás bancaria uma campanha como a sua sósia Barhat?

*Heródoto Barbeiro é editor chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.

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