Opinião: "Todo populista tem aversão à mídia", por Edson Aran

Edson Aran | 17/01/2019 10:43
Crédito:Divulgação
Bolsonaristas e Lulistas são muito mais parecidos do que gostariam de admitir. Os dois grupos têm a mesma aversão à mídia. Veja a TV Globo, por exemplo. Hoje chamada de “comunista” pelos seguidores do Bolsonaro, era até ontem rotulada de “golpista” pelos adeptos do Lula. A Folha de S. Paulo, que Bolsonaro acusa de “parcial”, foi xingada da mesma coisa pelos lulistas. Numa das vezes, em textão mimizento de Fernando Haddad na revista Piauí. O lulismo inventou a sigla P.I.G. (Partido da Imprensa Golpista), divulgou lista de jornalistas “inimigos” e financiou blogs paraestatais. O bolsonarismo, antes mesmo de chegar ao poder, já tinha estabelecido uma rede paralela de comunicação e hoje investe em perfis “paródicos” no Twitter para intimidar colunistas. O termo “paródia” é, por sinal, inadequado. As arrobas se empenham apenas em produzir fake news para confundir a audiência. Não é paródia, é pilantragem. 

Populistas têm aversão ao debate e não importa um cazzo se eles estão à “esquerda” ou à “direita”. Na real, as duas denominações já não são suficientes para definir “Autocratas 2.0” como Recep Erdogan, Vladmir Putin ou Nicolás Maduro. Donald Trump é outro bicho: adestrado pelo sistema de “checks and balances”, ele é só um vilão caricato da Disney com ambições desmedidas.  

Os extremos ganham espaço na mesma proporção em que a mídia perde o dela. E, o que é pior, o discurso enviesado permeia até mesmo as discussões sobre jornalismo. A falência da Abril tem muitas e variadas causas, mas já vi colegas atribuindo os problemas da empresa à linha editorial da Veja no período lulista. Não é verdade. Goste-se ou não da revista naquele tempo, ela sustentou a editora enquanto a circulação de outros títulos despencava. Até concordo que muitas vezes a Veja exagerou. Numa matéria sobre Napoleão, chegou a desancar a revolução francesa e defender a França dos Luízes. Sei lá. Achei meio sem noção.

A verdade é a que a mídia é uma confusão organizada, que vai de fechamento em fechamento. Não sobra tempo para elaborar “conspirações” ou promover “agendas”. 

Vou contar uma história curiosa que aconteceu na Abril no tempo em que dirigia a PLAYBOY. Em outubro de 2007, a revista fez um ensaio com  a jornalista Mônica Veloso, amante do onipresente senador Renan Calheiros. A capa era cheia de “easter eggs”. A chamada do editorial de moda era “Já pro xadrez!”. Uma reportagem de investimento ensinava como transformar “100 reais em um milhão”. A matéria de turismo era na Transilvânia. E Mônica Veloso era titulada como “a mulher que abalou a república”. Para fechar o lote, tinha uma entrevista com Diogo Mainardi: “Políticos são todos meio vagabundos”, dizia a chamada.

A edição saiu e causou o rebuliço planejado – embora não refletido em vendas (falo sobre circulação em outra ocasião). E então fomos convidados, o publisher e eu, para um almoço com um alto executivo do setor jurídico da empresa. A conversa foi agradável, mas o tom foi mais ou menos assim: “Agora vocês também vão bater no governo? Já não basta a Veja? Nós temos negócios na área de educação. Aliás, acho que já passou da hora da Veja mudar...”

Saímos do almoço sem acreditar no que tínhamos escutado. Só para registro: em fevereiro daquele mesmo ano, Playboy tinha publicado uma entrevista com José Dirceu em que ele chamava Diogo Mainardi de “pistoleiro contratado por Roberto Civita para assassinar a honra das pessoas”. Naturalmente, o texto subiu antes para o doutor Roberto, que apenas agradeceu a gentileza da redação, sem fazer qualquer reparo à escolha do entrevistado ou ao que ele dizia. 

Essa história é só para mostrar que as engrenagens da mídia não se movem exatamente em sincronia. Elas são muito mais complicadas e complexas do que imagina a mente simplória do ativista político.  

Ah, sim. A revista continuou a publicar todas as entrevistas que julgava relevantes. Inclusive uma do Luís Fernando Veríssimo em que ele falava mal da Veja. 

*Edson Aran é redator-chefe da IstoéDINHEIRO. Jornalista, escritor e roteirista com grande experiência no mercado de revistas, Aran atuou não apenas como editor, mas também em planejamento estratégico, orientação em áreas de marketing/distribuição e controle de budget. É criador do República dos Bananas (www.republicadosbananas.com.br) e do Marcha da História, e autor de livros de ficção e não-ficção.

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