"Sunderland, uma aula de como fazer jornalismo de primeira", por Leandro Massoni

Leandro Massoni | 07/01/2019 10:51

Acredito que o futebol, a arte – e não somente esporte – chutada com os pés, criada na Terra da Rainha e difundida em todos os continentes tem papel primordial na formação de pessoas, sentimentos e desejos. O respirar de uma modalidade que atrai centenas de milhares para os estádios e a TV possui um legado maior do que aquilo que costumamos assistir nos dias de hoje. E esse legado se chama história.


A história nos move e nos faz observar que é possível crer em vitórias. Assim como no filme de boxe “Rocky - Um Lutador” no qual é dito que a América é a terra das oportunidades, o futebol serve como um universo de possibilidades para todos, sejam jogadores ou profissionais da imprensa esportiva em busca de noticiar o inédito.


Sobre a imprensa, o jornalismo e o noticiar aquilo que é novo, a série documental “Sunderland Até Morrer” (disponível na Netflix) tem conhecimento de causa nesses assuntos. O projeto da Fulwell 73, dividido em oito episódios que variam de 37 a 42 minutos foi lançado em 2018 e traz a luta e os percalços do Sunderland Association Football Club para voltar à elite do futebol inglês – a Premier League – após seu rebaixamento na temporada 2016-2017.


O que me impressionou nesta série foi como o contexto em que se encontrava “Os Gatos Pretos” (que hoje amargam um novo rebaixamento, desta vez para o terceiro escalão nacional) ficava estrategicamente posicionado à obrigação de mostrar onde está o time. Na verdade, o intuito é apresentar a importância do valor histórico da cidade, que outrora foi um importante centro portuário, da classe operária, bem como o dia a dia através das palavras de funcionários e pessoas que fazem parte, mesmo que indiretamente, das ações do Sunderland, e de forma explícita, o drama vivido pelo clube e por alguns jogadores, de querer sair ou permanecer para ajudar a melhorar a situação.


A série documentada do serviço de streaming superou minhas expectativas e apresenta como o jornalismo esportivo deve manter – e aumentar, quando possível – a “pegada” da humanização dos personagens de uma trama e como os acontecimentos podem gerar milhares de emoções e impactos no cotidiano de um povo que mais precisa do clube para viver do que o contrário. É como assistir a um “Show de Truman”, uma vez que todos que estão ao redor do protagonista (no caso, o clube inglês), anseiam expectativas e ficam à espera do que pode ocorrer e quais serão as consequências geradas a partir de cada fato.

Crédito:Arquivo pessoal

Enfim, são aspectos esses que listo para ressaltar o quanto o exercício do jornalismo necessita de constantes reciclagens para fazer o novo, atrair novos públicos e até descobrir novos nichos. Quando se tem um material em mãos, que pode ser relevante desde que trabalhado sob uma outra ótica, inédita ou pouco conhecida, o trabalho pode render ótimos frutos e até desdobramentos futuros acerca de assuntos paralelos ao que foi mostrado. Assim, a nossa área ganha novas perspectivas. “Sair da casinha” do óbvio, do arroz com feijão, adicionando e experimentando novos temperos, às vezes, pode fazer a diferença.


Sobre o autor: Leandro Massoni é jornalista formado pela Universidade Paulista (Unip) e pós graduado em Jornalismo Esportivo e Multimídias pela Anhembi Morumbi. É também radialista pela Radioficina Escola de Rádio e Televisão. Tem se aventurado a escrever sobre jornalismo esportivo por meio do site Jornalista em Campo. É também autor do vídeo documentário “O Futebol Nacional”, que conta a história do Nacional Atlético Clube através do ponto de vista de jornalistas e peritos no esporte bretão.


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