Opinião: “Mais João do Rio, a saída para o jornalismo impresso”, por Wagner de Alcântara Aragão

Wagner de Alcântara Aragão | 19/12/2018 16:32
Crédito:Arquivo pessoal
Dia destes me caiu às mãos uma edição da Leopoldianum - revista de estudos e comunicações da Universidade Católica de Santos (UniSantos) - especial sobre os 200 anos de imprensa no Brasil. A edição, pois, não é recente. É de 2008. Entre as reflexões presentes nos artigos e resenhas da publicação, estava a preocupação com o jornal impresso.

Curioso quando nós voltamos ao passado para conferir o que se fala do hoje, que até então era um remoto futuro. Mais peculiar ainda é quando, nesse hoje, as dúvidas do passado acerca do amanhã parecem não ter saído do lugar.

O que será do jornal impresso?, perguntava-se em 2008. O que será do jornal impresso?, pergunta-se em 2018, quando a instalação da imprensa no Brasil completa dois séculos + dez anos.

De partida, uma constatação, alentadora: o jornalismo impresso sobrevive. Não acabou. Enfrenta dilemas, crises – como dez anos atrás, a ponto de estarmos a refletir ainda sobre seu futuro. Todavia, não foi extinto, contrariando previsões apocalípticas.

Mas, quem garante que o jornal impresso (ainda) não vai acabar?

Eu não garanto. Duvido, no entanto. E me explico na sequência.

Dez anos atrás, na já citada Leopoldianum, um artigo intitulado “200 anos de imprensa no Brasil e o futuro do jornal impresso”, de Benalva da Silva Vitório (docente e pesquisadora da UniSantos), resumia trabalho de iniciação científica para o qual foram entrevistados 33 jornalistas, entre profissionais de redação e docentes em curso de Jornalismo. O artigo trazia praticamente duas dezenas de depoimentos desses entrevistados.

Havia dois consensos: 1) não, o jornal impresso não estava fadado à morte; 2) entretanto, para não sucumbir, o jornal impresso precisava de se reinventar. Apenas um, dos 33 consultados, dissera que o impresso acabaria.

Sobre a confiança da sobrevivência do jornal impresso, o argumento mais recorrente era o de que uma mídia não é engolida por outra. Àquela altura, lembremos, o jornalismo na internet não era novidade. Estava disseminado, estabelecido. E continuava se expandindo. Como ocorreu com o rádio quando a televisão surgiu, como ocorreram com o cinema e a televisão quando o videocassete se popularizou, como se deu com o vinil quando os discos a laser se massificaram, o novo não matou o velho.

O velho, porém, teve de se reencontrar. Encontrar outras formas, outros conteúdos. Outras funções. O vinil não é meramente uma mídia para se escutar música. Transformou-se em um meio de viver a experiência do ouvir música. O rádio deixou de ser o maior instrumento de comunicação e entretenimento das massas. Mas percebeu que poderia servir bem a nichos. Temos as rádios essencialmente jornalísticas; mais ainda: temos emissoras que noticiam apenas as condições do trânsito. Temos canais de música clássica, música antiga, música pop.

Em que o jornal impresso se transformaria, para se reinventar e não virar peça de museu?

As opiniões dos profissionais trazidas pelo artigo de Benalva Vitório sinalizavam vários caminhos. Ser um veículo de aprofundamento e análise das notícias factuais, dadas diariamente pelos meios de internet, indicavam alguns. Diminuir tamanho e periodicidade, acrescentavam outros. Voltar-se para o local, ou para nichos de públicos, um e outro citou. Ter mais cara de revista. Contar com profissionais mais experientes, capacitados, abordou-se também.

Dez anos depois daquelas análises, e traçando um horizonte para os dez próximos anos, ouso discordar dos que defendem que o jornal impresso sobreviverá caso se transforme em uma espécie de revista, em que os acontecimentos factualmente abordados na internet devem tratados, no impresso, com profundidade. Essa tese parte do princípio de que nas mídias digitais o jornalismo é por natureza superficial. E o que ocorre é o contrário. Na internet há maior possibilidade de se produzir conteúdo com profundidade, por pelo menos duas razões: não há limite de espaço e é possível a convergência de mídias.

A todo instante há incontáveis exemplos de conteúdo jornalístico em meios na internet que se destacam por relatar e analisar, a fundo, os fatos. Texto escrito em harmonia com ensaios fotográficos; resgate em vídeos de acontecimentos passados relativos ao tema abordado; links para opiniões acerca daquele assunto; reportagens em quadrinhos – a possibilidade de recursos que permitem ampla e profunda cobertura deram aos portais condições de produzirem verdadeiros documentários online.

O jornal impresso pode e deve sim dedicar espaço ao factual. A diferença é: que recorte do factual deve ser esse?

E então vou ao encontro dos que apontam a necessidade de o jornal identificar um nicho, seu novo público. Os jornais de bairro; os jornais de assuntos de cidades, como o Metro, Destak, Jornal do Metrô; os voltados às classes populares, como Extra (Rio de Janeiro), Tribuna do Paraná e Jornal do Ônibus (Curitiba), Expresso Popular (Santos); os jornais de movimentos populares, como o Brasil de Fato... todos esses resistem à “crise do impresso”. Claro que sofrem com queda de receita de anunciantes, com dificuldade para manter equipes, mas têm público, são lidos. Repare-se, nas saídas do metrô, nos pontos e terminais de ônibus, como tem gente com jornal na mão.

Esses exemplos acima tocam num ponto crucial: está na forma de distribuição a chave para a circulação (e portanto para a sobrevivência) do impresso. Com a internet, mudou a forma de se ter contato com a notícia. Raramente alguém vai ao encontro dela, numa banca de jornal. É a notícia que chega, pela rede social, no celular, no computador, até o leitor. O impresso não pode esperar que o público se dirija até a banca. A distribuição do impresso tem de ser feita de mão em mão, de casa em casa, de esquina em esquina.

Por fim, o aspecto mais importante: a qualidade do jornal impresso. Por qualidade me refiro a abordagem de assuntos de interesse coletivo, sob o ponto de vista do interesse público. À pluralidade de vozes. Ao respeito aos direitos humanos. Ao abolir de sensacionalismos, denuncismos oportunistas e partidários. Ao trazer histórias. Ao mostrar pessoas.

Dia destes também me apareceu à tela o artigo “Primeiro repórter investigativo, propulsor de um jornalismo humanista: a importância de João do Rio”, de Patrícia Paixão, aqui mesmo no Portal Imprensa. Encontrei ali o fecho à reflexão em torno dos caminhos para o futuro do jornal impresso.

É de João do Rio que o jornalismo, de um modo geral, carece. Mais ainda, o jornal impresso. O conhecer do mundo – o conhecer do povo, principalmente – e a incansável busca por histórias na rua, onde a vida que vale acontece, devem ser a nossa fonte de inspiração.

*Wagner de Alcântara Aragão é jornalista e professor de disciplinas de Comunicação na rede estadual de ensino profissional do Paraná. Mestre em Estudos de Linguagens (UTFPR). Mantém um site de notícias (www.redemacuco.com.br) e promove cursos e oficinas nas áreas de Comunicação e Cultura, sobre as quais desenvolve pesquisas também.


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