“Como comunicadora, tenho a responsabilidade de trabalhar temas que atinjam a população de maneira empoderadora”, diz Paula Maia

Gisele Sotto, em colaboração | 11/12/2018 12:55
Paula Maia se formou neste mês em jornalismo, pela Universidade São Judas Tadeu (SP), e teve como desafio o desenvolvimento de dois projetos experimentais para poder concluir o curso – um livro-reportagem e um documentário. 

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Paula compartilha sua experiência na produção destes projetos e deixa um convite para a estreia do seu documentário. 

Sobre os projetos experimentais

No último ano de jornalismo na Universidade São Judas, a monografia é substituída por dois projetos experimentais que são decisivos para a nota, sendo primordiais para aprovação no curso. Tais projetos são um Livro-Reportagem para a disciplina de Planejamento em projetos, e um documentário para a disciplina Projeto Experimental em Telejornalismo.
Crédito:Montagem de capa do livro e foto de arquivo pessoal / Divulgação

Experiência com o Livro-Reportagem "Empoder@des"

O livro-reportagem nasceu a partir da iniciativa de explorar o jornalismo literário, fazendo com que nós, estudantes de jornalismo, pudéssemos nos desdobrar sobre o tema escolhido, bem como abordá-lo de uma maneira muito mais humanizada e aprofundada. 

O tema escolhido pelo meu grupo foi Militância no YouTube. A ideia de abordar a importância desta plataforma pós-moderna surgiu após compreendermos o papel dos ativistas nas redes sociais, bem como a maneira como eles contribuem para ampliar discursos e dar visibilidade a pautas muitas vezes ocultadas pela grande mídia. Como principal objetivo, tínhamos a ideia de mostrar quem são as pessoas por detrás das telinhas, a relevância social e política de cada uma delas e as suas motivações para se tornarem ativistas na internet. 

Além disso, queríamos mostrar quem realmente são essas pessoas. Às vezes acompanhamos um YouTuber, mas tudo o que conhecemos dele é o que ele mostra nos vídeos. Só que não queremos saber apenas isso. Queremos saber mais, especialmente quando são ativistas que admiramos e acompanhamos tão assiduamente. Então, por que não se aprofundar na vida e na história de pessoas que se dedicam diariamente a ampliar discursos e quebrar estigmas e preconceitos existentes na sociedade? Por que não conhecê-los enquanto pessoas marcadas pelas próprias vivências e individualidades? Afinal, muito mais que um YouTuber, eles também são seres humanos. Por isso, sentimos que era necessário mostrar que eles não são personagens e sim pessoas reais com vida e sentimentos.

O livro-reportagem reúne a história de oito pessoas que utilizam o Youtube para falar sobre AIDS e IST, homofobia, racismo, gordofobia, capacitismo, cisnormatividade, não-binariedade de gênero, assexualidade, transexualidade, autismo e surdez. Cada uma com sua individualidade e lugar de fala.

Experiência com o Documentário "Vivendo na PositiHIVidade"

O documentário "Vivendo na PositiHIVidade" nasceu a partir da necessidade de falar sobre o HIV. Mesmo que os tempos tenham mudado, ainda há muita desinformação e preconceitos em relação ao vírus, fazendo com que muitas pessoas se tornem vítimas de julgamentos e sejam marginalizadas na sociedade somente devido à sua sorologia.

Com base neste cenário, "Vivendo na PositiHIVidade" surge para mostrar que uma pessoa com HIV não está em uma sentença de morte. Além disso, o documentário mostra que um soropositivo pode levar uma vida normal como a de qualquer outra pessoa e desempenhar as mesmas atividades que um soronegativo, quebrando a ideia de que indivíduos com HIV são doentes, que precisam de isolamento e não podem se relacionar com outras pessoas.

Por meio do documentário, é possível mostrar que soropositivos podem ter filhos, namorar, casar, trabalhar e fazer o que bem quiserem de maneira plena, saudável e feliz. O HIV não tem cara, pode atingir mulheres, crianças, homens... todos. Por isso, abordar o tema foi uma maneira que encontrei para demonstrar que somos todos iguais, independente da sorologia. É preciso falar sobre HIV para quebrar preconceitos e levar informação sobre o vírus de maneira humanizada, realista, objetiva e atual para atingir a todos os públicos. 

Principais desafios ao longo da produção

Desafios do documentário

Quando se fala em HIV, é difícil encontrar pessoas que estejam dispostas a falar abertamente sobre o tema, mostrar o rosto e assumir publicamente a sorologia. Isto se deve à visão marginalizada e descontextualizada que as pessoas têm sobre o HIV na sociedade. Por isso, o maior desafio foi de encontrar pessoas que topassem verdadeiramente falar sobre o tema e expor o próprio rosto em um documentário, ainda que fosse um projeto universitário. Foram muitos nãos. Contudo, a cada sim que recebia de pessoas que tinham interesse em participar, era gratificante, pois é um tema que precisa ser cada vez mais discutido em casa, nas escolas e nas universidades.

Desafios do Livro-Reportagem

No caso do livro-reportagem, o maior desafio, além de encontrar Youtubers com disponibilidade de agenda para participar do projeto, foi abordá-lo em uma perspectiva literária. É necessário se colocar efetivamente no lugar de outro, assumir, ainda que liricamente, o papel do personagem enquanto indivíduo na sociedade para poder contar a história com muita verdade, empatia e emoção. Um bom livro-reportagem é aquele em que o repórter tem empatia e consegue transferir sentimentos verdadeiros para a narrativa.

Os aprendizados

A partir do meu trabalho de conclusão de curso, pude compreender a importância de se colocar no lugar do outro, bem como a ter resiliência para lidar com imprevistos. Em projetos como esse, a gente aprende a enxergar com maior clareza a necessidade de lutar pelos próprios direitos, empoderar e ampliar discursos para disseminar conhecimento, quebrar estigmas e preconceitos.
 
Significado dessa experiência

O TCC para mim representa um novo ciclo, pois a partir dele pude perceber a minha paixão por direitos humanos e o quanto é importante para mim poder contribuir de algum modo para o bem da sociedade. Como comunicadora, sinto-me na responsabilidade de trabalhar com temas representativos e que atinjam toda a população de uma maneira positiva e empoderadora. 

Contribuições dos projetos

Por meio do meu TCC, fui convidada para participar do 6º Fórum Digital Aids e o Brasil, o que me fez perceber que, de algum modo, o trabalho que busco desenvolver como comunicadora está sendo visto e possui relevância e importância social. Para mim, isto é mais do que significativo e representativo, pois o meu maior sonho, enquanto profissional, é levar conhecimento, ampliar discursos e disseminar informação, pois é por meio do conhecimento que conseguimos empoderar e deixar as pessoas cada vez mais cientes de que são donas de si e da própria história. 
Crédito:Gisele Sotto
Miguel Groisman (Cásper Líbero), Paula Maia (USJT) e Edilaine Felix (FIAM-FAAM), convidados do Fórum Digital Aids 2018

Conselhos para quem está fazendo o TCC agora

O meu conselho para quem está fazendo o TCC agora é se questionar a respeito da relevância social do projeto desenvolvido. Muitas vezes, a gente se prende tanto à teoria que deixa de enxergar o mundo lá fora e o contexto social em que nos encontramos. Por meio de projetos, ainda que universitários, podemos ajudar a transformar o mundo num lugar melhor, bem como promover reflexão e trazer novas perspectivas sobre diversos temas que precisam ser cada vez mais pautados e discutidos em sociedade. Portanto, use o seu TCC para o bem, dê tudo de si e não permita que ele seja apenas mais um projeto acadêmico guardado na gaveta, dê importância social a ele.

Para ler o e-book do Livro-Reportagem "Empoder@des", clique aqui

Convite para assistir ao Documentário "Vivendo na PositiHIVidade": A previsão é que o documentário esteja disponível online no 18 de dezembro. No dia 17, ele será exibido na universidade para estudantes e professores. O evento também será aberto ao público. Os documentários da turma de Jornalismo começarão a ser exibidos às 19h10 no auditório da Universidade São Judas Tadeu - campus Butantã (Av. Vital Brasil, 1000 – São Paulo-SP). 

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