Opinião: “Deuses e a Zona do Conforto”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 11/12/2018 11:05
Crédito:Edu Moraes
Os deuses hindus não estudaram em Harvard. Também não leram os sisudos manuais de economia, como o escrito por Joseph Schumpeter. A trindade hindu, também conhecida como Trimurti, intuiu o que o capitalismo mais tarde iria praticar. A criação é atributo de Brahma, responsável por tudo o que existe no universo. Vishnu é o deus encarregado da manutenção de tudo o que existe, porém não se esforça em cumprir sua missão, uma vez que tudo está no seu lugar, por que se preocupar? O terceiro deus é Shiva, o incansável destruidor. Ele é o responsável pelas mudanças, uma vez que representa que nada é permanente. É o mais cultuado e até mesmo estátuas de seu pênis recebem homenagens em templos do sul da Índia. Ao invés de ser amaldiçoado, Shiva, o destruidor, é louvado. Ele representa o que muitos anos depois recebeu na teoria econômica de destruição criativa. Sem ela não há avanço, não há mudança, não obriga os homens a procurarem novas soluções para problemas novos e antigos. Enfim ele é o responsável por tirar os homens da zona de conforto e incentivar a mudança. É verdade que em outras partes do mundo Shiva não teria o apoio que tem em sua terra natal. Muito mais confortável é não mexer em time que está ganhando, bater as metas e ir em frente. Não faça marola, diria Vishnu ao seu colega.
 
O professor Schumpeter interpretou a destruição criativa de forma positiva. Segundo ele, são as mudanças que impulsionam o crescimento econômico. É verdade que essas mudanças provocam reações sociais robustas. As mais atuais são do conhecimento de qualquer cidadão comum. O advento dos aplicativos para transporte individual, como o Uber, 99, Cabify, viraram a atividade de táxi de cabeça para baixo. Os taxistas perderam a posição de conforto que desfrutavam, com tarifas estabelecidas pelo poder público, monopólio de transporte em aeroportos e terminais rodoviários, tarifas maiores entre 22h até as 6h. Em algumas cidades a licença para trabalhar foi considerada um bem pessoal e pode ser transferida para herdeiros. Outros ainda ganhavam dinheiro “alugando” a licença para que outro trabalhasse em seu lugar. Outro exemplo é o aplicativo AirBNB que abriu a possibilidade para que pessoas possam alugar quartos, casas, apartamentos, sítios, ao invés de reservar uma acomodação em um hotel. O setor hoteleiro também foi mundialmente atingido uma vez que uma das características dos aplicativos é a internacionalização. Quando a eletricidade chegou às cidades, o sistema de iluminação a gás foi  mandado para o museu, as ruas ficaram mais claras, e os gaseiros perderam o emprego, uma vez que as lâmpadas são ligadas automaticamente. O elevador automático desempregou os cabineiros.
 
Empresas e tecnologias destruidoras, ou disruptivas, usando uma palavra dos livros de economia, sempre existiram. Em plena idade média, um clérigo cristão inventou o Fogo Grego, que salvou a cidade de Constantinopla da invasão dos muçulmanos. Mudou o conceito de guerra no mar. A diferença é que com o advento da tecnologia digital houve uma aceleração fantástica de novos métodos e produtos que impactam diariamente a organização econômica do mundo contemporâneo. As redes sociais desafiam as mídias tradicionais, abrem oportunidade única para que todos os cidadãos tenham nas mãos um aparelho de emissão de texto, áudio e vídeo. Os profissionais da área de comunicação também têm os seus empregos em risco. Esse cenário criado pela tecnologia bateu de frente com a teoria de Marx que sustentava que a super produção era a grande ameaça ao capitalismo e à burguesia. A saída, segundo o filósofo, era a conquista de novos mercados a qualquer preço, dando origem ao imperialismo e aos conflitos mundiais. Portanto sem Shiva, o deus destruidor, não seria possível a criação de novidades no mundo.  
 
*Heródoto Barbeiro é editor chefe do Jornal da Record News em multiplataforma.

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