Opinião: “Multitarefa”, por Daniela Barbará

Daniela Barbará | 07/12/2018 13:33
Crédito:Pixabay






Em 1995 fiz meu primeiro estágio em uma assessoria de imprensa na Avenida Faria Lima em São Paulo. Lá era assistente de duas jornalistas que juntas atendiam 10 contas que iam de material de construção, saúde, à educação, entre outros; e assim, entendi o significado de ser uma pessoa multitarefa. Isso porque nos temos prévios à internet tudo era manual. A grande novidade tecnológica era o aparelho de fax, máquina com a qual tive um longo relacionamento no envio de releases para o Brasil inteiro (já volto nesse assunto). Nessa época todo material era preparado em Word nos (poucos) computadores, aprovado pelo cliente e depois mandávamos para uma gráfica. Lá eles retornavam os saquinhos com os textos impressos e aí começava uma outra parte da operação. Na impressora matricial (aquela que fazia um super barulho) imprimíamos as etiquetas e depois separávamos tudo em uma mesa ou balcão:  os envelopes, cola, as etiquetas e os textos que seriam igualmente dobrados e na sequência envelopados. Assim ia uma tarde inteira nessa função. Tinha um pequeno detalhe: se fôssemos mandar o material com imagem tínhamos que ter um slide (e sua capinha protetora) para colocar junto no envelope. Era uma época jurássica, mas muito divertida, especialmente para quem dava os primeiros passos na profissão. Depois de tudo devidamente pronto chamávamos um motoboy que levava tudo para os Correios ou, dependendo da ação, entregava nas redações da cidade de São Paulo. Para isso, tínhamos que ter um conhecimento da geografia da cidade porque senão lá se ia um tempão do motoboy entre um lugar e outro em uma cidade que já tinha o trânsito caótico.

Aprender a usar o fax também foi uma diversão muito moderna para aqueles tempos. Na verdade, criaram um programa supermoderno para a época em que a gente incluía o release e o mailing (com os números de telefone) e ele passava a noite toda enviando via rede discada (algo ultramoderno) os materiais para as redações do país inteiro. Quando chegava no dia seguinte, imprimia um relatório de envios e aqueles que não foram - por qualquer razão que fosse - era necessário reenviar manualmente ao longo da tarde (que era quando trabalhava). Assim, sentava na “estação” onde ficava o aparelho de fax e mandava o mesmo texto impresso com a sua folha de rosto (que atualizava à lápis a cada novo envio) e ia dando baixa manualmente no relatório até que todos tivessem recebido o texto.  Somente depois de tudo isso feito e dado o tempo de chegada do material via Correios iniciávamos mais uma parte da divulgação que era o follow-up. Confesso que falei com profissionais do Brasil todo e me divertia com os diferentes sotaques. Dá para imaginar o custo de uma ação dessas?

Aí entrava uma outra parte do trabalho que era quando o motoboy chegava com os envelopes de clippings e era um momento divertido diário lendo todas as matérias que saíram. Detalhe: era uma folha de papel que vinha com o pedaço de jornal ou revista colado e datilografado em cima o nome do veículo, a data, a sessão e página que tinha sido publicado. Me lembro como se fosse hoje da expectativa do horário da chegada dos envelopes com os clippings. Outra parte do meu trabalho era organizar o almoxarifado dos clientes, que era formado por pastas imensas com fotos impressas e slides com imagens dos porta-vozes, produtos e etc. Quando estava chegando próximo do final tínhamos que solicitar novos slides para o fotógrafo, ou então pedir um orçamento para uma nova sessão de fotos. Da mesma forma era necessário controlar os releases aprovados que eram impressos e iam para essas pastas, conhecer uma boa parte dos produtos dos catálogos dos clientes pelos códigos e todos os responsáveis por todos os departamentos dos clientes, mesmo aqueles que não eram porta-vozes. Com dez clientes de diferentes portes e segmentos era um desafio diário de organização, proatividade e disposição. Ali também pude desenvolver uma grande habilidade de ter duas chefas completamente diferentes em personalidades, objetivos e metas.  Mas isso já é uma outra história.

Crédito:Arquivo pessoal
*Sobre a autora: Minha base profissional veio do jornalismo econômico impresso e online. Depois entrei no setor de comunicação corporativa e nunca mais parei. Parte do meu trabalho nos últimos anos foi encontrar oportunidades de levar a comunicação dos meus clientes aos seus públicos-alvos da melhor forma possível, sempre com o alinhamento de comunicação e de expectativas. Durante três anos intensos da minha vida trabalhei com aviação civil e aprendi na prática a arte do gerenciamento de crise e de viajar à trabalho. Acredito que a boa comunicação é capaz de mudar o mundo, as empresas e as relações entre pessoas. Há mais de vinte anos trabalho com comunicação das mais diversas formas. Participo há alguns anos do Comitê de Capital Humano na Câmara Sueca. Atuo há mais de quatro anos voluntariamente como coordenadora do Grupo de Trabalho de Recursos Humanos da Abracom. Ministro palestras, aulas e workshops sobre Gerenciamento de Crise e Assessoria de Imprensa para interessados no tema e alunos de graduação e pós-graduação. Dúvidas? Me escreve: danielabarbara2012@gmail.com 

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