Opinião: "Primeiro repórter investigativo, propulsor de um jornalismo humanista: a importância de João do Rio", por Patrícia Paixão

Patrícia Paixão | 28/11/2018 15:27
É lamentável constatar que poucos dentro de uma sala de aula de jornalismo conhecem João do Rio. Negro e homossexual, o jornalista, que foi um dos mais importantes homens da imprensa brasileira no período da nossa primeira República, e que ofereceu significativa contribuição à reportagem, continua a ser pouco abordado nas faculdades de jornalismo. Preconceito? Provavelmente. As matrizes curriculares das escolas do país permanecem, com honrosas exceções, dando preferência às narrativas produzidas por profissionais brancos, reproduzindo o racismo visto na grande imprensa.

Crédito:Divulgação
Nascido em 5 de agosto de 1881 no Rio de Janeiro, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, conhecido pelo pseudônimo “João do Rio”, se destaca por diversos pioneirismos. É considerado um dos primeiros repórteres de campo do Brasil, precursor no jornalismo investigativo e também um dos inauguradores do jornalismo de direitos humanos no nosso país. 

Numa época em que a imprensa era limitada à base opinativa, com jornalistas-escritores fazendo textos meramente subjetivos e empolados para tratar a realidade, sem sair da redação para confrontá-la, ele subiu morros, frequentou terreiros de candomblé, conversou com moradores de rua, prostitutas, tatuadores, trabalhadores da estiva, usuários de ópio. Conheceu, a fundo, diversos personagens até então ignorados pelo jornalismo carioca.  

João do Rio afirmava amar as ruas. Para ele, as ruas possuíam alma. É o que defende no clássico “A Alma Encantadora das Ruas”, que reúne crônicas que ele escreveu entre 1904 e 1907. Conhecia como ninguém o Rio de Janeiro, e tinha um conhecimento muito bom também sobre São Paulo, como pode ser observado no livro “João do Rio: um dândi na Cafelândia”, organizado pelo historiador Nelson Schapochnik, que reúne crônicas do jornalista sobre a capital paulista.

Dentre suas crônicas-reportagens de grande repercussão estão as que versam sobre as religiões de matrizes africanas, publicadas no jornal Gazeta de Notícias, depois reunidas na obra “As religiões no Rio”. Se nos dias de hoje escrever sobre candomblé e umbanda gera polêmica, imagine no início do século XX. Oferecendo ao leitor uma análise aprofundada, quase sociológica e antropológica, João do Rio mostra como essas religiões impactavam nas camadas sociais da época, e o difícil lugar que os negros possuíam naquela sociedade, buscando uma forma digna de trabalho. Alguns problemas abordados nestes textos ainda são vistos, infelizmente. Basta lembrar do grande desrespeito a essas religiões, que continua a ser presenciado.

João do Rio enfrentou preconceitos por parte da elite. Ignorou as críticas e obstáculos que lhe foram impostos, com garra e persistência, como quando foi recusado para entrar na Academia Brasileira de Letras (era, além de jornalista, cronista, dramaturgo e literato). Insistiu na candidatura, até que seu talento foi reconhecido.

Progressista, defendeu os direitos dos trabalhadores, numa época em que a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) nem existia, e o divórcio e o voto para as mulheres.

Ao mesmo tempo em que tinha proximidade com o povo, frequentava rodas da alta sociedade e era conhecedor do que acontecia no circuito cultural europeu. Em seus textos, chegou algumas vezes a apontar a hipocrisia e as contradições de um Rio de Janeiro que buscava imitar a capital francesa, mas convivia com sérias feridas sociais (leia o conto “O bebê de tarlatana rosa”. É fantástico!).

Ingressou na imprensa ainda jovem, atuando no jornal “Cidade do Rio”, ao lado de expoentes como José do Patrocínio. Passou por diversos jornais importantes da época.  Seus textos também refletiam as transformações das ruas cariocas, como a onda modernizante no processo de urbanização.

Tinha um texto envolvente e cheio de personalidade. Referia-se aos mendigos, por exemplo, como “mordedores”, pelo fato de estarem sempre buscando arrancar algo das pessoas que passavam pelas ruas. Por conta da elegância do seu texto, também é considerado um dos pioneiros do nosso jornalismo literário.

João do Rio morreu cedo, em 1921, vítima de um enfarte. Na ocasião, ele escrevia para o jornal “A Pátria”, fundado por ele em 1920. Seu enterro praticamente parou o Rio, atraindo populares, ex-presidentes e grandes nomes da literatura.

É um nome que deveria ser tratado com mais frequência e importância nas salas de aula de jornalismo, reverenciado por todos aqueles que amam a profissão.

Crédito:Arquivo pessoal
*Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e da Universidade São Judas Tadeu. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.

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