Opinião: “O líder tecnológico”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 21/11/2018 11:04
Crédito:Edu Moraes
A nova tecnologia veio para ficar. Ainda que alguns torcessem o nariz e avisassem que não daria certo, a nova tecnologia ganhou o coração dos líderes políticos. Ela pegou de surpresa a mídia tradicional e os jornalistas. De repente perderam o posto de intermediação entre a fonte e o público em geral. Era um perigo, diziam, uma vez que, com a nova tecnologia nas mãos, os políticos poderiam mentir, inventar, manipular à vontade, uma vez que não teriam pela frente um grupo  de valorosos repórteres para reperguntar, checar dados, contrapor fatos e outras inconveniências. Com a nova tecnologia tudo ficava mais fácil, direto, barato e eficiente na visão dos políticos. Uma vez quebrado o paradigma, não tem volta. Ou há uma adaptação à nova realidade ou a derrota. O presente sempre derrotou o passado. A população ficou à mercê das comunicações oficiais e o contraditório não encontrava o mesmo espaço. Com isso, o partido que chegasse ao poder teria mais condições de lá permanecer por um tempo indefinido graças à comunicação direta entre os gestores e o povo. Uma nova era surgiu inesperadamente e virou o mundo político de pernas para o ar.

Falar diretamente com o povo foi um sucesso mundial. A nova tecnologia nasceu nos Estados Unidos e de lá se propagou rapidamente. O presidente americano usou e abusou da oportunidade de falar diretamente e a transformou em um canal para infundir confiança na população. Avisava aos eleitores em geral que a crise seria passageira, que em breve a economia americana iria se recuperar e o emprego voltaria com toda força. Era uma crise de confiança, dizia. Garantia que a política que empregava iria destravar a economia, que voltaria a girar e o bem-estar em breve alcançaria todos os lares. Na Europa o sucesso da nova comunicação foi ainda maior. Nada mais de esperar um grande público para passeatas, marchas ou concentrações em grandes praças. Bastava uma “live” para infundir na maioria das pessoas que o governo estava correto e que não confiassem nos grupos opositores, especialmente esquerdistas, inspirados nas ideias que vinham do século 19. Diante da nova comunicação, os departamentos de propaganda dos governos se reformularam e alguns líderes vieram de universidades onde estudavam o fenômeno. Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade, repetia um desses acadêmicos.

O líder brasileiro não deixou por menos. Em pouco tempo se adaptou a nova tecnologia, formatou um departamento de marketing político e passou a usar a mesma metodologia. Falar diretamente com o povo. Treinou uma linguagem simples, que qualquer pessoa podia entender, e partiu para a polêmica atacando os seus adversários. As mensagens chaves é que eles eram antipatriotas, vendilhões, quinta colunas, queriam implantar uma ditadura comunista no Brasil e desagregar a família. Eram ateus, iriam acabar com a religião, que segundo o líder era chamada de o ópio do povo pelos marxistas. A onda da nova comunicação percorreu o mundo. A nova tecnologia do rádio proporcionava um alcance nunca antes imaginado. Os poderosos transmissores levavam as ondas eletromagnéticas aos confins do país e todos podiam escutar toda noite a voz do líder. Getúlio Vargas, o ditador de plantão, não deixou por menos. Copiou o sistema de comunicação dos seus inspiradores na Itália fascista de Benito Mussolini. Nasceu o programa de rádio obrigatório às 19 horas, com os acordes de Carlos Gomes e a voz impostada do locutor que dizia: “Na Guanabara, 19 horas!!!”  A Voz do Brasil, como ficou mais conhecida, nasceu nesse contexto do nazi-fascismo de um lado, sovietismo de outro e do programa de recuperação americana, o New Deal. A história ensina que uma das características do populismo é a comunicação direta entre o líder e o povo em geral.

*Heródoto Barbeiro é editor chefe do Jornal da Record News em multiplataforma.

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