Opinião: "Vilões de conveniência", por Flavio Ferrari

Fake News e WhatsApp não explicam a dinâmica da eleição

Flavio Ferrari | 24/10/2018 10:43
Com a proximidade do final do segundo turno das eleições presidenciais e um cenário que parece já estar definido, potenciais perdedores elegem seus vilões e especialistas reforçam teses que parecem óbvias.

As Fake News, distribuídas através do WhatsApp, teriam definido o rumo dessas eleições.

Nada mais conveniente do que uma explicação crível, simples e difícil de ser contestada. Um inimigo subterrâneo, poderoso e invisível, fora do nosso alcance, surge da penumbra e decide nosso destino. ‘Deus ex Machina’, como diriam os gregos.

Venho acompanhando a dinâmica das eleições presidenciais no contexto digital há alguns meses, desde o primeiro turno, através de um projeto colaborativo da SocialData em parceria com a altaMedia e a Stilingue e não observei esse fenômeno.

Posso dizer com tranquila convicção que os ‘vilões’ tem sido outros.

Constatamos, ao longo do processo eleitoral, que as oscilações significativas que encontramos no ambiente das redes tiveram sua origem na mídia formal: publicação de matérias relevantes sobre este ou aquele candidato (notícias reais) e de pesquisas de intenção de voto, prioritariamente.

Podemos exemplificar isso com a evolução das publicações nas redes, com menção aos presidenciáveis, durante o segundo turno.
Crédito:Divulgação hub SocialData / UNIT34

As variações mais acentuadas, dos dias 11/10 e 16/10, sucederam as publicações de pesquisas de intenção de voto pelo Datafolha e pelo Ibope, divulgadas pela mídia. O pico do dia 18/10 corresponde ao momento em que o PT solicitou a impugnação de Bolsonaro ao STF, com ampla divulgação na mídia.

As interações (comentários e compartilhamentos) seguem um padrão semelhante, apesar do comportamento um pouco mais irrequieto em função da natureza das publicações.  Neste caso, as Fake News tem algum efeito, já que costumam gerar um volume maior de contestações nos comentários. Publicar notícias falsas, nos dias de hoje, desqualifica o publicador.
Crédito:Divulgação hub SocialData / UNIT34

Alguém poderia dizer que o estrago dos ‘vilões’ aconteceu durante o primeiro turno, quando o volume de notícias falsas, que buscavam estigmatizar Bolsonaro como um fascista misógino e o PT como grande responsável pela corrupção e pela crise brasileira era, aparentemente, maior.

Mas o grande empurrão para essa situação estigmatizada e polarizada também veio da mídia formal, durante as primeiras entrevistas com os candidatos no início do primeiro turno, quando os jornalistas insistiram sistematicamente em questionar os candidatos em relação aos temas estigmatizantes. 

A mídia formal, além de pautar as redes sociais, construiu o capital midiático dos candidatos conferindo notoriedade.
Crédito:Divulgação hub SocialData / UNIT34

Durante o primeiro turno, Bolsonaro foi mencionado em 70% das matérias da mídia digital quando o assunto era relacionado com política, recebendo um destaque bem maior do que os demais candidatos. E não estamos falando de Fake News ou WhatsApp.

Talvez o ponto mais polêmico desta eleição presidencial tenha sido a questão do ‘kit gay’ (projeto Escola Sem Homofobia) e o livro "Aparelho Sexual e Cia - Um guia inusitado para crianças descoladas", apresentado por Bolsonaro durante sua entrevista ao Jornal Nacional no mês de agosto. O impacto da informação distorcida (o projeto não foi implementado e não incluía o livro) foi significativo e, por um bom tempo, foi o catalizador das discussões nas redes sociais, polarizando discussões entre liberais e conservadores.

Poderíamos classificar o episódio como ‘fake news’, mas se o WhatsApp teve alguma influência nos desdobramentos, foi ínfima se comparada à cobertura do Jornal Nacional.

A partir desse momento, e durante um bom tempo, as redes sociais foram palco de conversas sobre temas sociais que deveriam ter sido melhor discutidos pela sociedade nos últimos anos (como a ideologia de gênero, por exemplo). Eleitores liberais e conservadores escolheram seus ‘campeões’, que aceitaram (ou não) a incumbência.

Talvez esse cenário pudesse ter sido modificado com o bom uso do espaço concedido aos candidatos no Radio e na Televisão, durante o horário eleitoral gratuito, as entrevistas e debates. Mas os candidatos preferiram gastar a maior parte de seu tempo falando sobre o oponente do que de seus próprios projetos de governo, aceitando o jogo da estigmatização polarizada proposto pela mídia no início da campanha.

Funcionou melhor para uns do que para outros mas, decididamente, não parece que o WhatsApp tenha sido o vilão. 

Um comentário de última hora: nesta terça-feira (23/10), circulou pelas redes sociais um vídeo erótico atribuído a um candidato ao governo de São Paulo (Doria), que capitalizou toda a atenção. É cedo, ainda, para saber se terá algum impacto residual na campanha, mas foi a primeira vez em que constatamos algum fato estranho à mídia formal provocando um impacto significativo no comportamento das redes.

Crédito:Gladstone Campos
*Flavio Ferrari é consultor, palestrante e professor, especialista em temas relacionados com inovação organizacional, cenários futuros, transformação digital, comunicação transmidiática e métricas de mídia. Nos últimos anos, liderou as áreas de mídia do IBOPE, Ipsos e Gfk. É mentor do ‘hub’ colaborativo SocialData, é também autor do livro “Atitude Digital – os caminhos da transformação”, lançado em agosto/18. SocialData é o Hub colaborativo da UNIT34 que reúne soluções integradas para atender demandas de gestão de informação, particularmente as endereçadas ao conhecimento da sociedade. Saiba mais em www.socialdata.com.br

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