Opinião: “O Debate”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 22/10/2018 16:21
Crédito:Edu Moraes
Ele não estava totalmente recuperado para um debate na televisão. Não estava reestabelecido de um período no hospital. Sua assessoria apoiou a resistência, uma vez que sua aparência não era das melhores e eles sabiam que a imagem em um momento de grande competição era fundamental como a disputa da presidência. Não asseguravam que pudesse ficar de pé em frente às câmaras e a população por pelo menos duas horas, e manter a fala firme, convincente para os eleitores indecisos. É verdade que, segundo as pesquisas, o número da audiência era muito baixo, mas decisivo para a escolha do presidente da república. Em um veículo de comunicação que atingia a maioria esmagadora da população, em horário nobre de audiência, qualquer deslize, ou casca de banana jogada pelo adversário seria fatal para as pretensões do candidato. Além disso, também teria que enfrentar um bando de hienas travestidos de jornalistas, como dizia, prontos para só anotar os erros e amplificá-los até o inferno. O ambiente era totalmente desfavorável para uma vitória eleitoral, por isso os marqueteiros de plantão passaram a noite debatendo a possibilidade de não aparecer e produziram várias desculpas esfarrapadas para serem divulgadas no horário eleitoral.
 
Fugir do debate na televisão era outra arma para o adversário. Ainda mais que ele tinha sido oficial das forças armadas, participado de treinamentos militares e sua presença era o mínimo que seus colegas de caserna esperavam dele. Um soldado não foge da batalha. Enfrenta. E em um período de instabilidade política nacional, o mínimo que se poderia fazer era debater abertamente quais as soluções que tinha no seu programa de governo para as questões nacionais. Um deles era a inserção na sociedade de camadas da população marginalizadas, mais pobres, sem acesso à escola, saúde e melhores salários. Não bastava se apresentar como um bom homem, casado, com filhos e frequentador assíduo dos cultos religiosos de sua igreja. Os dois disputavam os votos dos evangélicos e católicos. Seu aspecto era, de fato, doentio, sua mãe o havia visto em um noticiário e ligou para ele para saber como estava. De barba por fazer, realmente parecia fraco, pálido, e sem forças. Como poderia enfrentar o jovem adversário nessas condições? O núcleo duro da campanha recomendava não aparecer em nenhum dos quatro debates programados pelas hienas das televisões.
 
O adversário sabia das fraquezas dele. Por isso queria mostrá-lo por inteiro para os eleitores. Repetia que quem o conhecesse não votaria nele. Poderia reverter as pesquisas eleitorais amplamente divulgadas, o que dava ao debate na televisão uma importância ainda maior. Além disso, a imagem do adversário na tevê era muito melhor, sempre sorrindo, descontraído, abraçado com os seus apoiadores e também acompanhado da esposa. Ele também tinha uma família no gosto dos conservadores. É verdade que fez várias mudanças no seu programa de governo para conquistá-los, mas isso se poderia discutir depois do resultado final da eleição. Ambos estavam de olho nos estados da federação. O mapa do país era mostrado nos noticiários pintado de vermelho e azul de acordo com o resultado das pesquisas mais recentes. O nordeste estava pintado muito mais de vermelho do que de azul. Diante dessa situação não houve alternativa para Richard Nixon se não debater com John Kennedy quatro vezes. Os debates foram decisivos para a vitória do democrata que se saiu melhor no último debate, já nas vésperas da eleição. Foi determinante para o opositor, Kennedy, que venceu pela incrível diferença de 0,01 %, zero, vírgula, zero um por cento!!! Nixon ganhou em 26 estados e ainda assim não conseguiu manter os republicanos no poder. Houve quem duvidasse do resultado e denúncias de fraude foram divulgadas, coisa incomum naquelas plagas.
 
*Heródoto Barbeiro é editor-chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.

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