Opinião: "Tecnologia memética - Existe o livre-arbítrio?", por Marcelo Molnar

Marcelo Molnar | 11/10/2018 11:30
Crédito:Arquivo pessoal
Nada como a festa da democracia. A melhor definição sobre o processo democrático que ouvi, não falava a possibilidade de escolher o certo, mas o poder de substituir o errado. Sempre fico imaginando como podemos aprender e evoluir sobre processos eleitorais, a cada oportunidade que temos para votar nos nossos representantes. Deveria funcionar como uma seleção natural. Infelizmente, não parece que isso acontece. Minha primeira constatação é a curva de esquecimento. Passadas algumas semanas tenho dificuldade para me lembrar em quem votei, principalmente se for para cargos legislativos, como senadores, deputados ou vereadores. Confesso que não me recordo quem escolhi há dois anos para vereador.

Outro ponto que me chamou atenção ultimamente foi o esforço de amigos e parentes em me convencer a fazer a mesma escolha que eles. Argumentos não faltaram. Os exemplos se multiplicaram. Às vezes me sinto um daltônico escolhendo as cores da parede da sala. Alguns estudiosos defendem a ideia que nosso maior objetivo como ser vivo é a transmissão dos nossos genes. É através da nossa herança genética que nos tornamos imortais. Porém, existe outra linha de pensamento, que faz um contraponto, afirmando que o mais importante é semear ideias e pensamentos. Isso sim perpetua o indivíduo. Nos dias atuais, podemos acompanhar a multiplicação dos “memes”.

Segundo definição da Wikipédia, o termo “meme” foi criado em 1976 por Richard Dawkins no seu livro “O Gene Egoísta” para representar na memória o análogo o que o gene representa na genética. Algo como sua unidade mínima. Foi considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro ou entre locais onde a informação é armazenada. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida como unidade autônoma. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação ficou conhecido como memética. 

O meme funciona como um vírus. A memética parece uma teoria epidemiológica da cultura, buscando explicar como determinadas crenças ou comportamentos conseguem contagiar grandes grupos. Assim como o vírus é capaz de parasitar nosso DNA para produzir cópias de si mesmo, os memes são parasitas cerebrais. Invadem nossa mente e alteram nosso comportamento, que a partir de então passa a contagiar outras mentes. A moda e certas febres de consumo são, talvez, o exemplo mais evidente desse processo. E aparentemente isso também está ocorrendo na ideologia política. 

Podemos fazer um paralelo na convicção que relata os memes para explicar algumas lendas. Uma dessas lendas é conhecida como a do centésimo macaco. Nos anos 50, uma equipe de zoólogos estudava um grupo de macacos de Koshima, pequena ilha do Japão. Para atrair os bichos, eles jogavam batatas na praia. A macacada não tinha problemas em comer as batatas sujas de areia, até que uma macaca descobriu que elas ficavam mais saborosas quando lavadas na água do mar. Ela ensinou sua mãe e algumas outras macacas a lavar as batatas, e logo a prática se espalhou entre o grupo todo. Então teria acontecido um fenômeno mágico: quando o centésimo macaco aprendeu a lavar suas batatas, a nova ideia atingiu massa crítica e passou a ser transmitida “pelo ar”. Macacos de outras ilhas japonesas, isolados deste grupo, imediatamente passaram a lavar sua comida. Esta história foi relatada em um livro do zoólogo Lyall Watson em 1979.

Os crédulos seguidores deste fenômeno, chamado de “centésimo macaco” pregam que tudo o que precisamos para alcançar paz no mundo é acreditar em paz no mundo, e invocam o conceito de meme para explicar essa comunicação. Quando determinado número de pessoas estiver convencido da ideia, o meme vai alcançar massa crítica e contaminar todas as mentes e corações do mundo. Certo, é utopia. Mas às vezes escuto explicações parecidas em outras situações. Sei que já falei isso anteriormente, mas não acredito que as questões complexas têm soluções simples. Pode até existir exceções, mas não será a regra. A tecnologia nos propiciou poderes excepcionais para a distribuição e manipulação das informações, mas não nos forneceu condições de absorção e reflexão nas mesmas proporções. Ficou fácil evidenciar o erro, mas isso não significa facilidade em encontrar soluções. Distribuímos mentiras porque elas nos agradam. O digital nos levou para a polarização. Agora é optarmos pelo “zero” ou pelo “um”.
 
Seja lá o que constitua um meme, este conceito coloca em questão a noção convencional que temos de nós mesmos, de nossa consciência e de nossa liberdade. A memética sugere que nós não utilizamos a informação que circula pelos nossos meios de comunicação. Pelo contrário, nós é que serviríamos aos desígnios expansivos da informação. Somos seres incubadores de ideias. Neste sentido questionamos até que ponto realmente existe livre-arbítrio.

Sobre o autor: Marcelo Molnar é formado em Química Industrial, pela Faculdade Oswaldo Cruz, com pós graduação em Marketing e Publicidade, pela ESPM. Experiência de  18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Consultor Estratégico de Marketing e Comunicação da BrasilConsult, Viscoplan, HAC, SDGroup e Nexial. Trabalhou como analista de Pesquisas de Mercado com institutos como Meta Group, Gartner Group, IDG e CVA, desenvolvendo projetos para o Bradesco, Itaú, Telefônica, Banco Santander, Banco Toyota, UOL, Pão de Açúcar, Editora Abril, Janssen entre outros. Ex-Vice-Presidente da Sart Dreamaker. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Sócio Fundador da Todo Ouvidos, empresa especializada em pesquisa e monitoramento de redes sociais. Sócio Diretor do grupo Boxnet (Maxpress, Boxnet e Todo Ouvidos).

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