Opinião: “Fake News”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 08/10/2018 17:03
Crédito:Edu Moraes
A ameaça à democracia percorreu o país. A divulgação feita pelo próprio governo não deixava dúvidas que a denúncia era autêntica. Ninguém podia duvidar que havia mesmo um plano para a tomada do poder. A notícia correu pelos meios de comunicação e pelo boca a boca. Os jornalistas não se deram ao trabalho de duvidar da notícia e procurar as fontes para que ela fosse confirmada ou não. Era mais fácil e conveniente acreditar e não entrar em confronto com o patrão. O entendimento geral era que se a fonte era uma ou mais autoridades, não se poderia duvidar da sua procedência. O ambiente de polarização política que o país vivia era propício para radicalismos da direita e da esquerda. Um acusava o outro de estar planejando um golpe de estado e implantar um governo de inspiração comunista ou fascista no Brasil. As pessoas passaram a se agredir verbalmente de acordo com a opinião que formavam em cima do que era noticiado. As qualificações de golpista, comunista, fascista, bolchevista, nazista, conservador se alternavam e muitas amizades, mesmo entre familiares, se perderam diante da troca de ofensas. O debate de ideias foi substituído por calúnias e difamações de lado a lado. Muito pouco se debateu sobre o programa ou onde os detentores do poder pretendiam levar o país.
 
O melhor cenário para incendiar o Brasil era a eleição para presidente da república. Dada a importância do cargo na organização política do país, um presidente vinculado a uma das facções em luta seria fundamental para a vitória de uma das ideologias. O mundo estava coalhado de países que instalaram governos autoritários de esquerda e direita. Para o povo, de uma maneira geral, um governo forte, firme seria vital para o desenvolvimento, criação de empregos e arrumação do Estado. A oposição foi rotulada de vermelha, de estreita ligação com o comunismo e suas variações. Esta por sua vez atacava o governo com a pecha de fascista e que fazia de tudo para permanecer eternamente no poder. Só a eleição presidencial poderia auferir quem tinha mais força e era capaz de levar a nação para um dos espectros ideológicos correntes no mundo. Para a direita ou para a esquerda. É verdade que boa parte da população não sabia o que isso significava. O debate estava concentrado nos grupos mais politizados. Mas o povo era movido por notícias que uma vez a esquerda no poder, a família, a religião, a moral e os bons costumes corriam sérios riscos. O deus Estado se incumbiria de educar as crianças longe dos pais. As terras dos latifúndios seriam submetidas a uma reforma agrária com expropriação e seus donos não receberiam um tostão. Já os camponeses teriam a sua parte neste latifúndio.
 
Nada como uma boa fake news de tinta, papel e ondas do rádio para servir de pretexto para um governo ditatorial. O comandante do exército e o presidente divulgaram em todo o país a descoberta pelo Estado Maior de um plano secreto que, entre outras coisas, determinava quem seria eliminado e quem seriam os assassinos durante a tomada do poder da república. Divulgaram que era uma nova tentativa, como a Intentona Comunista de 1935. Caso a quartelada não desse certo, dizia o documento, deveriam ser feitos reféns os ministros do governo, do supremo, o presidente da câmara e do senado, e em todas as cidades os prefeitos e presidentes das câmaras municipais. O documento ficou conhecido como Plano Cohen e tinha sido arquitetado pelo Partido Comunista Brasileiro e organizações comunistas internacionais. Cohen era um líder comunista húngaro que tinha chegado ao poder. Era o que Getúlio Vargas precisava para se perpetuar no poder. Pressionou o congresso para decretar o Estado de Guerra e com todos os poderes concentrados em suas mãos iniciou uma implacável perseguição a todos os seus opositores, comunistas ou não. Em novembro de 1937 implantou o Estado Novo, uma ditadura de direita que perdurou até 1945. Só após a volta da democracia se soube que o tal plano era uma fake news plantada por um grupo de militares para alinhar o país ao lado do fascismo internacional.

*Heródoto Barbeiro é editor-chefe e âncora do Jornal da Record em multiplataforma.

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