Opinião: “Escola sem biblioteca”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 17/09/2018 16:54
Crédito:Edu Moraes
Os professores estão sendo cobrados pelos pais. Estes querem resultados. Querem que os filhos passem de ano e possam buscar uma colocação no mercado de trabalho. Por isso, muitos professores preferem passá-los de ano a lhes dar notas baixas e gerar um sentimento de fracasso, além de um excedente de trabalho e estresse. Afinal, não é fácil lidar com os alunos, que teimam em desrespeitar as regras da escola e, da sua parte, pressionam professores e a direção da escola para mais liberdade. Eles querem poder ir ao banheiro a qualquer hora, usar boné, mascar chiclete ou até usar celular na sala de aula. O celular é combatido por 9 entre cada dez mestres por julgarem que não é uma ferramenta de aprendizado, mas de distração do aluno e de todos os que estão à sua volta. Afinal, eles já aprenderam a usar o WhatsApp e um sem número de aplicativos de comunicação. Os professores precisam realizar um exercício de equilibrismo para não levantar a voz, para não parecerem autoritários e serem rotulados como tais. Essa é uma pecha que atrapalha a carreira e a popularidade do mestre na escola.
 
A violência dos alunos contra os professores provoca uma insegurança que se traduz por um forte absenteísmo. A cada dia faltam, em média, cerca de 10% dos professores. As classes são monitoradas por outros profissionais muitas vezes dando aulas de disciplinas que eles não ensinam. A direção cobra resultados em nome dos pais e muitas vezes culpa os mestres pelas notas baixas dos alunos. Alguns professores não são diplomados e o resultado do aproveitamento é pior. Há uma lista de escolas segundo critérios como resultados de pesquisa de satisfação junto aos alunos, número de alunos por professor ou porcentagem de professores diplomados. Tudo está na internet ao alcance dos pais e dos pesquisadores em educação. Em algumas escolas de tempo integral, professores se tornam tutores de grupos de 15 alunos e acompanham o rendimento escolar. São chamados de mentores. Por e-mail ou telefone, devem manter contato permanente com os pais a fim de controlar a frequência e o progresso dos alunos em todas as matérias. Não é um trabalho fácil e toma muito tempo de quem precisa dele para preparar as aulas, corrigir trabalhos escolares e estudar. Não raro, quando o aluno encontra dificuldades, a culpa é do mentor. Mas o que fazer quando eles fracassam em várias disciplinas, se queixa um professor. Perdemos o atrativo, diz um outro, usamos apenas um terço de tempo para preparar e ministrar as aulas.
 
O acesso ao ensino financiado pelo Estado tem uma característica especial. Com a mudança do governo nacional se implantou um sistema conhecido como “cheque educação”. Uma medida que já existe em Montreal, no Canadá. Não há mais carteirinha escolar e as famílias podem escolher e matricular os filhos gratuitamente em qualquer escola privada. A prefeitura entrega um cheque, ou voucher, correspondente ao valor gasto por aluno do setor público, que resida no município. Com isso aumentaram os colégios particulares nos últimos anos, uma vez que não correm o risco de inadimplência da família. Alguns pais desconfiam das escolas privadas que precisam apresentar resultados e deixar o cliente satisfeito. Afinal precisam dar lucro. Por isso suspeitam da inflação de boas notas, facilitada pelo fato de os exames nacionais serem corrigidos pelos mesmos professores do estabelecimento dos alunos. A Suécia é o país europeu que mais gasta com educação, reserva 7% do PIB para essa atividade considerada vital para o país. O Brasil investe... menos. As escolas públicas suecas apresentam melhores resultados do que as particulares, ainda que sejam frequentadas por alunos mais pobres e até mesmo por imigrantes. Tanto em uma como na outra os professores reclamam que faltam livros e bibliotecas. Os alunos têm toda a bibliografia que precisam de forma digital, manipulam tablets e computadores e, para a tristeza de muitos mestres, abandonaram totalmente a plataforma de papel.
 
*Heródoto Barbeiro, com a colaboração do Le Monde Diplomatique.

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