Carla Lacerda e Yago Sales lançam nova edição de ‘Sobreviventes do Césio 137’

Gisele Sotto, em colaboração | 09/08/2018 11:17
Por ocasião dos 30 anos do acidente com o Césio 137, em Goiânia, o Governo do Estado de Goiás informou à imprensa nacional e internacional que os casos de óbitos por câncer entre as vítimas da tragédia seriam seis. No entanto, em 2007, a Superintendência Leide das Neves (Suleide), hoje Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados (CARA), já contabilizava 12 mortes provocadas pela doença, que se tornaram 15, em 2012.

Nas inúmeras reportagens realizadas na época, nenhum jornalista contestou aqueles dados oficiais, que acabaram sendo amplamente difundidos. Meses depois, enquanto realizava checagens para o fechamento do conteúdo da segunda edição do livro ‘Sobreviventes do Césio 137’, Carla Lacerda se deparou com inconsistências no relatório elaborado pelo Governo do Estado, que ameniza danos do maior desastre radiológico urbano já ocorrido.

A primeira edição do livro foi lançada em 2007 e, na ocasião, Carla era repórter do diário O Hoje e produzia reportagens especiais sobre os 20 anos do acidente radiológico em Goiânia. 

No livro, a jornalista conduz o leitor para aquele domingo, 13 de setembro de 1987, quando um aparelho utilizado para tratamento de câncer – que continha a cápsula de césio – foi encontrado por dois jovens em um terreno baldio onde funcionava o antigo Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), hoje o Centro de Convenções de Goiânia. “Como viviam as vítimas? O que sentiram durante a crise? Essas foram algumas perguntas que me motivaram a escrever e a registrar, por meio da história oral, a memória destas pessoas, como um patrimônio”, conta Carla.

A escrita de ‘Sobreviventes do Césio 137’ se ancora nos princípios do jornalismo literário, o New Journalism. “A partir desta base conceitual e técnica, recontei o trágico episódio do acidente radiológico sob o ponto de vista das vítimas”, explica Carla. Segundo ela, a referência para a produção do conteúdo inédito, especialmente escrito para a segunda edição, é o livro ‘Hiroshima’, de John Hersey, considerado um marco do jornalismo literário moderno.

A segunda edição conta com a contribuição do colega de profissão, Yago Sales, apoio fundamental para a atualização de narrativas. A apresentação do livro traz o ponto de vista da editora Larissa Mundim acerca de percepções que ficam mais nítidas com o distanciamento de três décadas do acidente com o Césio 137. 
Crédito:Fábio Lima

Portal IMPRENSA conversou com Carla Lacerda e Yago Sales, que comentaram os desafios na atualização das narrativas para a 2ª edição do livro.  

Yago, de que maneira você contribuiu para a atualização das narrativas? Quais foram os desafios e o que você pode destacar nesta trajetória de atualização?

Yago Sales: Dez anos depois de a Carla ter publicado a primeira edição do Sobreviventes do Césio, eu procurava informações em uma biblioteca de Goiânia quando encontrei um volume. O livro havia se esgotado e decidi procurá-la para conseguir uma cópia sequer. E ela me deu o último. Eu tinha muitas dúvidas e, à medida que ia fazendo perguntas para ela, meio que a estimulava a reeditar a obra. A primeira edição é uma coletânea de perfis das vítimas do acidente publicados no jornal O Hoje. Muita gente havia falado pela primeira e última vez. 

A ideia da segunda edição era de, além dos perfis já publicados, saber como essas pessoas estão 10 anos depois do primeiro livro. Resgatamos dados e contestamos informações sobre a relação entre o césio e a morte por câncer. Esse assunto é um tabu em Goiás porque as autoridades constantemente da CNEN, do Estado, negam, inclusive com dados pouco esclarecedores. 

Contribuí entrevistando sobreviventes e na escrita atualizada do texto que a Carla fez para a conclusão da pós-graduação em Jornalismo Literário, com o professor Edvaldo Pereira Lima. Além disso, juntamos dados e incluímos gráficos. O livro pode ser utilizado para pesquisa porque, além de informativo, é muito didático.

O que chamou a atenção de vocês na construção da narrativa do livro ‘Hiroshima’? De que forma esta obra contribuiu para o processo de produção da nova edição?

Carla Lacerda: Quando eu li Hiroshima fiquei hipnotizada com o enredo e pensei que poderia aplicar aquele jeito de escrever na história que decidi contar sobre o acidente com o Césio. Um dos grandes diferenciais de Hiroshima é que as histórias são entrelaçadas. John Hersey escolhe seis personagens e as histórias são narradas simultaneamente, concatena tudo o que ocorre com as vítimas de Hiroshima. 

Na primeira primeira parte do nosso livro, que se chama "Uma vida em duas", a gente conta a trajetória de três sobreviventes: Dona Lourdes das Neves (mãe da menina Leide, morta aos seis anos), Odesson Alves Ferreira (tio paterno de Leide das Neves), Wagner Mota Pereira (rapaz que encontrou a peça abandonada no antigo Instituto de Radiologia de Goiânia).

Quais foram as dificuldades no acesso aos entrevistados?

Yago Sales: As vítimas estão cansadas. Diagnosticadas com depressão, com diversos problemas de saúde e ainda são procurados todos os anos para falar sobre a época em que foram contaminados, que o Estado entrou em suas casas sob o argumento da descontaminação e levaram tudo: até animais foram levados para o abate. Trinta anos depois, eles se acostumaram a repetir a mesma história. Com isso, nosso desafio maior, ao atualizar suas narrativas - não na perspectiva oficial -, foi tirar delas, do fundo da memória, o que não contaram ainda. E conseguimos. Com sensibilidade, cuidado para não feri-las com perguntas que as ofendam - boa parte das vítimas se ofendem caso o jornalista não saiba como abordá-las. Carla conseguiu falar com quem nunca falou, nem mesmo à época do acidente. As vítimas do Césio ainda têm muito o que contar, precisam apenas de ouvidos atentos.

Serviço
Lançamento do livro: Sobreviventes do Césio 137, de Carla Lacerda, com colaboração de Yago Sales
Data: 9 de agosto, às 19 horas 
Local: Coruja Café (Rua T-37, esquina com Rua T-12, Connect Park Business, Setor Bueno – Goiânia-GO)