Projeto jornalístico em formato de newsgame discute política e futebol

Redação Portal IMPRENSA | 03/08/2018 11:54
“Política e futebol realmente são assuntos que não se discutem?”, questionam Jacqueline Martins e Brenda Mineo, que se graduaram em jornalismo pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS / SP) e juntas desenvolveram o projeto ‘Defensor 76 - Um episódio da ditadura no Uruguai’, em formato de newsgame.

Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Jacqueline e Brenda comentam os bastidores deste TCC, suas experiências e os ‘frutos’ do intercâmbio que fizeram em Montevidéu para o desenvolvimento do projeto. 
Crédito:Arquivo pessoal

Contextualizando: a escolha do tema e do projeto

Foi entre os anos 1975 e 1978, no auge do processo ditatorial uruguaio, que uma equipe considerada pequena e sem muita relevância no âmbito esportivo, conseguiu realizar um feito histórico: sagrou-se campeã na disputa da principal competição do país, o Campeonato Uruguaio de Futebol, em 1976.

O time Defensor Sporting Club, fundado em 1913, em Punta Carretas, um bairro operário de Montevidéu, quebrou um tabu dentro e fora dos gramados, quando, ao realizar a comemoração pelo título, seus jogadores decidiram realizar uma volta olímpica ao contrário (da esquerda para a direita). A equipe era conhecida por conter integrantes com pensamentos assumidamente de esquerda.

Interpretada de diversas maneiras desde 25 de julho de 1976, a volta olímpica representou e ficou marcada, por jornalistas e historiadores, como uma atitude anti-repressão. Entretanto, os ex-jogadores Daniel Mayol e Francisco Salomón negaram que o movimento ao contrário tenha sido um ato de reprovação à ditadura e que, com todo o elenco, haviam combinado o ato para chamar a atenção de todos aqueles presentes no estádio Luis Franzini.

Embora a intenção de realizar a volta tenha sido apenas para mostrar ao país que o elenco poderia, de fato, disputar contra equipes grandes como Club Atlético Peñarol e Club Nacional de Football, as represálias foram inevitáveis. Parte dos integrantes da equipe e envolvidos com o Defensor foram perseguidos e precisaram deixar de praticar futebol e até mesmo, em alguns casos, mudar de estado/cidade. 

A opressão somente teve seu fim no ano de 1984, quando os uruguaios foram às urnas no dia 25 de novembro de 1984, 13 anos após a implantação do regime civil-militar. As eleições nacionais mostraram um novo caminho e esperança aos cidadãos. 

O que é o Newsgame Defensor 76

Trata-se de uma reportagem especial que aborda a relação entre política e futebol por meio da história do clube de futebol uruguaio Defensor Sporting Club que, em pleno período ditatorial, ganhou o tão sonhado título do Campeonato Uruguaio de 1976 e, ao comemorar a conquista, realizou a volta olímpica ao contrário, o que foi considerado um ato subversivo ao regime vigente.

Os formatos que integram e compõem o produto jornalístico Defensor 76: Episódio da ditadura no Uruguai, foram escolhidos porque propõem ao público-alvo uma experiência imersiva e permitem uma interpretação da história mais simples e clara, uma vez que se trata de um conteúdo complexo de ser compreendido e com um eixo-temático pouco abordado.


Decidimos também que a disponibilização do conteúdo online seria no formato de newsgame para computadores, com acesso por meio de um site que contém informações complementares sobre o projeto, a ditadura uruguaia e o time de futebol Defensor, em textos e vídeos (para conhecer o projeto e jogar o newsgame, acesse o site http://letscheckin.com.br/

Para a escolha do tema, levamos em consideração a oportunidade de unir a condição de intercâmbio em Montevidéu, no Uruguai, com o tempo de desenvolvimento do TCC. E, após a realização de pesquisas, leituras e debates com professores uruguaios da Universidad Católica del Uruguay, a escolha da abordagem de um período de importância local, como a ditadura no país contada por meio do futebol, outro ator social importante, parecia uma proposta assertiva de tornar reconhecido e relembrado este período histórico vivido por tantos outros países não só na América do Sul, mas em todo o mundo. 

O futebol reproduz em campo os reflexos sociais do contexto em que está inserido e possui relevância, ao ser um agente plural que atua e influencia em circunstâncias de esferas políticas e socioeconômicas. 

Os desafios ao longo da produção e o significado dessa experiência

Desde novembro de 2016, quando tivemos a certeza de que iríamos viver a experiência de intercâmbio no Uruguai, nos convencemos de que para aproveitar da melhor maneira a estadia de um semestre, deveríamos escolher um tema para o projeto relacionado ao país em que iríamos morar. 

Pesquisamos (sites, blogs, livros e revistas), conversamos com professores da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul) e da UCU (Universidad Católica del Uruguay), onde estudamos em Montevidéu, e após enviar as propostas com 3 temas relacionados ao Uruguai, encontramos mais desafios.

A maior dificuldade para a elaboração e produção do projeto foi que não tivemos acompanhamento, semana a semana, com um professor, para se inteirar sobre nossos progressos, problemas e obstáculos.

Outro ponto que nos preocupou muito (além do fato de que tivemos que levar ao Brasil todas as entrevistas realizadas), foi que o tema escolhido é delicado, emocionante e toca em uma ferida latente nos entrevistados que escolhemos. 

Futebol e ditadura nos pareceu perfeito, um recorte um tanto incomum. Finalmente compreendemos que o tema e produto escolhidos traduziam nossas expectativas. 

Após todo o período de pesquisa e apreensão, estivemos em contato com o Professor Ms. Roberto Araújo que, atenciosamente, nos ajudou a solucionar as questões pendentes e fez reuniões por videochamadas, nos guiando e reconhecendo o que era passível de ser produzido ou não. 

Ao retonarmos, no mês de agosto de 2017, as reuniões e assessorias foram essenciais e sempre nos deixavam confortáveis e bastante interessadas pelo caminho que o projeto estava tomando. 

A percepção das autoras sobre o processo de desenvolvimento do TCC 

No canal ‘Check In’ do Youtube, Brenda e Jacqueline mostram os bastidores dessa experiência. Acesse https://bit.ly/2MgbYT3  
Crédito:Montagem de fotos / Arquivo pessoal


Brenda Mineo

O ano de 2017 foi repleto de desafios a serem enfrentados. Comecei o ano com o intercâmbio acadêmico, em que o idioma e a rotina seriam completamente diferentes daquilo que estava habituada.  

Não foi tarefa fácil sair da zona de conforto e admitir as dificuldades, mas agradeço a todos que, ao longo do caminho, me auxiliaram e contribuíram com qualquer forma de conhecimento. 

A parte de maior aprendizado e superação foi iniciada em agosto, quando, de volta ao Brasil, começamos a produzir e editar os vídeos e o conteúdo do portal. Entendi que precisaria deixar o medo e insegurança de lado, elaborando e questionando, sempre que necessário. 

Agradeço pela oportunidade de fazer parte deste projeto tão inovador e que pode render frutos tanto para minha carreira acadêmica, quanto no mercado de trabalho. Foi uma incrível experiência compreender que eu poderia fazer mais do que apenas escrever matérias (o que amo fazer) e me aventurar em novas descobertas de ‘divs’ e ‘frames’. 

Considero este último semestre como o mais inovador e desafiador de todos, com momentos de reflexão, dúvidas, medo e inquietação em relação ao presente e ao futuro. 

Realizar este projeto com os temas que mais admiro na carreira jornalística, política e futebol, foram essenciais na decisão sobre continuar persistindo por um mundo melhor, uma profissão mais ética e uma transformação na capacidade que tenho de ser, cada vez mais, uma profissional versátil. Bastava acreditar em mim! 

Jacqueline Martins

Muitas ideias passavam pela minha cabeça ao pensar na oportunidade de desenvolver um projeto prático ao final da minha conclusão de curso, mas eu nunca poderia imaginar que resultaria no ‘Defensor 76’.

A faculdade de jornalismo foi uma caixa de surpresas. Me deparei com diversos obstáculos que realmente me fizeram pensar quais eram os motivos para eu continuar, o que me tornaria jornalista ou se, ao concluir, eu me sentiria uma. 

Hoje eu tenho todas as respostas na ponta da língua. Temos que admitir quando não somos bons em algo, mas devemos também correr atrás para que isso seja solucionado. Nesse trabalho, tive a honra de vencer meus limites e enfrentar meus principais problemas e medos em relação à profissão. Com o auxílio de amigos e da família, e após passar pela experiência de intercâmbio, me dei conta que esses medos fazem parte da gente.

A maior frustração é quando notamos que não sabemos fazer direito ou não sabemos realizar da melhor forma aquilo que gostamos. A parte técnica e de Internet sempre foram minhas paixões, mas ao concluir o projeto vi que havia muitos erros que minhas limitações não poderiam solucionar. Por mais que eu goste da parte técnica, de produção de vídeos, sites, games, gráfica, essas não são as coisas que eu realmente gosto de fazer, o que eu amo e escolhi fazer é escrever e notei no desenvolvimento de alguns materiais que eu tenho muito o que aprender e correr atrás.

Também me dei conta de que, sem amigos e família, a gente não sai do lugar. Sem a minha parceira da vida que aceitou o projeto e se entregou, a ‘Brends Minions’ e auxílio de outros amigos que gostam de games, outro que sabe das minhas limitações, outro que é apaixonado por futebol, uma que é neutra e todos aqueles que eu levo em consideração o que dizem e o que acham, não seria possível ter uma visão de como realizar esse projeto. Agradeço imensamente aos meus amigos que acreditam em mim e todos os dias me ajudam a enfrentar um medo diferente.

Não era o que eu esperava, não foi como eu queria, pois eu não esperei por nada, o segredo foi deixar acontecer. Um sim para um formato desconhecido, o newsgame, que possibilitou que eu pudesse escrever, aprender uma nova ferramenta e linguagem, me divertir e me encontrar como comunicadora, louca e feliz. 

Aprendi com o nosso projeto e acrescentei no meu vocabulário palavras que não usava como “subversiva”, ao tratar de temas tão diferentes dos quais estou acostumada na minha rotina apaixonada por códigos.

Contribuições do trabalho

A possibilidade de vivenciar experiências no âmbito acadêmico de valores imensuráveis, como a conquista do Expocom na categoria “produção digital” em jornalismo, e sermos eleitas as melhores na região sudeste, o que nos deu a oportunidade de estar no Congresso Nacional da Intercom. O TCC resultou em um projeto que é o estopim de muitas coisas para ambas. 

Fomos também convidadas a lecionar um workshop para a turma de mestrado em comunicação da USCS. 

É um trabalho que começou na faculdade, mas ainda não sabemos até onde ele poderá nos levar. Temos muito carinho e confiamos em sua viabilidade de tornar nossos interesses e sonhos reais.

Conselhos para quem está fazendo o TCC

Não se limite. Não limite o seu projeto. Inove com o que tem. Faça acontecer. 

Antes de começar, escreva no papel seus objetivos pessoais e individuais relacionados ao projeto e faça com que, ao decorrer do trabalho, eles aconteçam. Planeje, não desenvolva seu TCC pensando que ele é simplesmente um trabalho que vai fazer com que você termine seu curso, pegue seu diploma e arrase no mercado de trabalho. Ele pode ser mais do que isso. Ele pode se tornar sua atividade profissional, sua renda, sua vida. Pode possibilitar que seus desejos profissionais sejam rentáveis. Pense em como torná-lo algo de valor e confie, pois nós acreditamos e estamos colhendo ótimos frutos desse projeto pelo qual temos tanto carinho.

Leia também:
Estratégias de comunicação para o fortalecimento de uma comunidade de SE
Análise da influência dos perfis de trânsito no dia a dia da sociedade paraense