Opinião: "A Copa do Mundo e a imprensa esportiva", por Leandro Massoni Ilhéu

Leandro Massoni Ilhéu | 06/07/2018 11:14
Passada quase a metade da 21º edição do principal torneio entre seleções do mundo, realizado em solo russo, as nações até então favoritas como Espanha, Argentina, Portugal e Alemanha (esta última que amargou o pior desempenho em Copas, não conseguindo se classificar para as oitavas de final), deram adeus ao tão sonhado “caneco” de ouro 18 quilates e duas camadas de malaquita. 

Sobraram nas quartas de final para continuar contando história Uruguai, França, Brasil, Bélgica, Rússia, Croácia, Suécia e Inglaterra. Até o momento, o torneio, que tem média 2,65 de gols por partida, vem sendo um dos mais surpreendentes, ainda mais para a imprensa esportiva e suas apostas motivadas principalmente pelo apelo popular.
Crédito:Pixabay

É claro que não é errado que os comentaristas especializados em futebol “cravem” determinadas seleções como francas favoritas à Copa do Mundo devido a seus elencos e suas tradições copeiras nos campeonatos que frequentemente disputam. O ranking da FIFA também acaba servindo como parâmetro para análises, mas nem sempre o melhor e o mais preparado é aquele que se sobressai. 

A exemplo disso está a seleção mexicana. Na primeira fase, os latinos, que são a 20ª colocada na lista da FIFA, triunfaram diante dos alemães, atuais campeões do mundo e primeiros colocados do ranking criado pela entidade que comanda o esporte bretão no mundo, vencendo pelo placar econômico de 1 a 0, em Moscou. 

Outra surpresa foram os sul-coreanos, 48ª lugar no ranking da associação internacional presidida pelo suíço-italiano Gianni Infantino, que em Cazã impuseram um futebol mais combativo na vitória por 2 a 0 contra os mesmos germânicos, eliminados e “estraçalhados” pela mídia de seu país, que considerou a eliminação na primeira fase da Copa do Mundo como um inesperado vexame histórico.

Embora os adversários da seleção da Alemanha sejam tecnicamente limitados, houve um certo respeito por parte dos bávaros dentro de campo.

Entretanto, o comportamento vindo de alguns jornalistas e seus veículos de comunicação, não somente como este caso, vem sendo desastroso, pois ao invés de fazerem uma análise mais imparcial e crítica, no sentido de expor os problemas das equipes, resolveram taxar tanto as partidas quanto os selecionados de México e Coréia do Sul como meros coadjuvantes. E pior: como seleções horríveis de bola e que nem sequer deveriam estar fazendo parte das 32 equipes participantes do mundial da Rússia.

No geral, a imprensa tem colocado muito para baixo as seleções que possuem menos relevância no cenário mundial do esporte, chegando inclusive a ofendê-las como “timecos” ou “bêbados em campo”, uma vez que para muitos, é mais fácil ver esses times sendo massacrados com gols pelas seleções que são vistas como verdadeiros berços do futebol do que serem levados a sério, sendo reconhecidas pela qualidade e importância de seus jogadores, bem como pelos seus empenhos e dedicação que os levaram a possibilidade de figurar na atual edição da Copa. 

E essa história de “zebras” na Copa do Mundo, ao meu ver, está cada vez mais obsoleta, colocada para escanteio. O que é muito positivo, porque mesmo que não vejamos todo o dia uma Rússia se classificando nos pênaltis diante de uma das favoritas ao título, a Espanha, devemos encarar esses resultados como feitos históricos no meio futebolísticos, e não como lampejos de sorte no sentido de desmerecer as conquistas dessas que ainda são seleções de pouca expressão mundial. Não foi à toa que todos os integrantes deste torneio em solo russo fizeram por merecer suas classificações através das eliminatórias continentais.

Ou seja, o respeito e, acima de tudo, o profissionalismo, sem deixar o lado torcedor tomar conta das ações e decisões, necessitam ser mantidos quando se está cobrindo uma competição que envolve povos e culturas diversas. E falo isso também de nós, jornalistas brasileiros, que temos demonstrado comportamentos um tanto exacerbados quanto aos adversários da seleção comandada pelo técnico Tite.

Sobre este assunto, cito mais um exemplo: no dia 2 de julho, enquanto dirigia meu carro, ouvia um pouco de rádio que transmitia os preparativos para o jogo entre Brasil e México, pelas oitavas de final (vitória por 2 a 0 do escrete verde e amarelo). Nisso, um dos apresentadores dissera que os mexicanos eram uma “porcaria”. E após a partida, houve uma nova “ofensa”, desta vez dirigia ao técnico Juan Carlos Osório (ex-treinador do São Paulo). Nesta parte do programa esportivo radiofônico, disseram que o comandante da seleção da América do Norte era um louco por ter feito declarações sobre um jogador brasileiro – que na verdade era Neymar –, nas quais afirmava que o atleta era um péssimo exemplo para o futebol. 

Neste caso, acredito que a opinião de ambas as partes seja válida, mas sem o uso de termos que desrespeitem as pessoas envolvidas, como foi o caso de alguns jornalistas que, talvez levados pela emoção da vitória brasileira, cometeram o deslize de chamar Osório de louco ao invés de dizer que o comandante do México estava equivocando quanto às suas afirmações.

Enfim, todo o cuidado é pouco, ainda mais quando está em jogo a seleção do nosso país. Novamente afirmo: é preciso ter coerência e respeito, seja qual for a situação ou adversário. A ética é imprescindível para nossas relações, sobretudo no meio esportivo, que ultimamente, em alguns programas, principalmente os televisivos, tem andado em falta, o que é uma pena.

Porém, há sempre um espaço para quem deseja trazer novos olhares da Copa e seus participantes através de reportagens que envolvem curiosidades e histórias relacionadas aos mais diversos campos do contexto social, político e econômico, e que também influenciam a vida de jogadores, seleções e nações que tem no futebol uma espécie de fuga para um mundo em que a esperança se faz presente. 

Por isso, a modalidade que temos enorme paixão, mesmo quando nos decepciona em alguns momentos (como aquele amargo 7 a 1 que levamos da Alemanha, em 2014), e a Copa do Mundo merecem cada vez mais o nosso prestígio, assim como a satisfação daqueles que desejam fazer um trabalho repleto de detalhes, capaz de surpreender emocionalmente o público, este que é sedento pela informação acompanhada por um viés jornalístico, fator essencial para quem quer ser um dia convocado para eventos esportivos de grande porte.

Crédito:Arquivo pessoal
*Leandro Massoni Ilhéu é jornalista formado pela Universidade Paulista (Unip) e pós graduado em Jornalismo Esportivo e Multimídias pela Anhembi Morumbi. É também radialista pela Rádioficina Escola de Rádio e Televisão. Tem se aventurado a escrever sobre jornalismo esportivo por meio do site Comunique Esporte. É também autor do vídeo documentário “O Futebol Nacional”, que conta a história do Nacional Atlético Clube através do ponto de vista de jornalistas e peritos no esporte bretão.

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