Opinião: "José Marques de Melo: bússola dos pirandelianos", por Sônia Jaconi

Sônia Jaconi | 03/07/2018 12:07
Certamente muitos têm um causo bem-humorado e singular de suas vivências com o professor Dr. José Marques de Melo. Decidi, como forma de homenagem, compartilhar o meu. 
Crédito:Cícero Rodrigues


Foi em 2010, quando fiquei órfã de orientador. Já ouviu falar em um lugar chamado Palmeira dos Índios, minha filha? Fica lá pros lados das Alagoas, se não me engano..., disse o professor em nossa efetiva e afetiva primeira conversa (humor inteligente era uma de suas melhores características). Continuou falando enquanto deslizava sua caneta de traço fino e rubro em uma resma que guardava a programação de um novo projeto; você se formou em letras, fez mestrado na Universidade Presbiteriana Mackenzie e leciona na Faculdade de Gestão, aqui na Metodista. Levei um susto! Como aquela autoridade intelectual sabia tais coisas sobre mim? Esta era outra característica singular do conterrâneo de Graciliano Ramos: observador da vida e do comportamento de seus alunos. 

O primeiro doutor em jornalismo do Brasil não apenas conhecia seus discípulos, mas fazia questão de se importar com eles, de conhecer suas origens, seus familiares e suas histórias. As orientações, frequentemente, eram em sua casa, de preferência próximo à hora do almoço onde a distância entre orientador e orientando desaparecia. Ali, em sua sala doméstica, estreitavam as relações de amizade, de carinho e de cuidado.  

Tal espanto aconteceu naquele ano em que eu já havia percorrido metade do caminho do doutorado em Comunicação Social, na Universidade Metodista de São Paulo, quando então minha orientadora deixou esta casa para seguir carreira na USP. Como todo aluno que se sente órfão quando perde seu orientador, rodei com o meu projeto inicial nas mãos em busca de um professor disposto a me adotar.  

Volteando de sala em sala, parei em frente a do catedrático Dr. José Marques de Melo, no terceiro andar do edifício Capa - local que abriga a Cátedra UNESCO de Comunicação. Ali, fiquei parada alguns instantes esperando uma oportunidade de conversa com o senhor de cabelos alvos, de fala mansa e calculada, que estava sentado atrás de uma mesa forrada de papéis rabiscados, jornais e livros. Professores e alunos rodeavam sua mesa, alguns sentados, outros em pé e outros, como eu, parados próximos à porta. Todos eram atendidos pelo ilustre pesquisador com paciência e atenção, essas suas características perenes. 

Importante dizer que uma mágica acontecia naquele espaço enquanto cada um esperava sua vez com o mestre - um contava ao outro o que estava pesquisando, lendo ou escrevendo e, neste instante, conexões acadêmicas e profissionais sobrevinham, redes de estudantes e professores davam seus primeiros passos de formação. Suspeito que este momento encantado não acontecia por acaso, certamente era uma ação manipulada pela mente engenhosa do guru da comunicação. Tudo planejado e articulado!!

Chegou a minha vez! O professor de feição madura e bem-humorada levantou seus olhos tão azuis em minha direção e disse - o que deseja? Contei-lhe sobre meu projeto interrompido. Depois de me ouvir e de fazer algumas indagações, declarou: Vá a Palmeiras dos Índios e, quando voltar de lá, a gente conversa. Dessa vez fiquei assombrada! Fazer o que nessa cidade, mestre? Seus olhos me fitaram com ternura e paciência – eu “tipicamente pirandeliana*”. Graciliano Ramos foi prefeito nesse município, afirmou Marques de Melo com sorriso discreto e orgulhoso. 

Naquele momento, percebi que me restavam duas opções: abandonar meu doutorado ou embarcar naquela aventura sertaneja. Escolhi a segunda. 

Parti para a Princesa do Sertão, cidade do Velho Graça e do Apóstolo da Comunicação. Depois de alguns meses, parte de minha pesquisa foi publicada na Folha de S. Paulo (12/09/2010) com o título "Talento de escritor foi descoberto em relatórios de gestão". Mais adiante, veio meu primeiro livro. Mérito do mestre visionário que, além de acolher os que lhe procuravam, era bússola para os que estavam perdidos no caminho da pesquisa e do conhecimento. 

Obrigada, professor Marques!

*Adjetivo que atribuiu a esta autora quando escreveu o artigo “O prefeito que virou escritor”, publicado na Revista Imprensa, em 2013.

Crédito:Arquivo pessoal
Sobre a autora: Doutora em Comunicação Social pela Universidade de Metodista de São Paulo (2012). Mestre em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2005). Graduada em Letras pelo Centro Universitário Fundação Santo André (2002). Atualmente é diretora administrativa da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, professora da Universidade Metodista de São Paulo ministrando aulas no curso de Rádio, TV e Internet (temas: Comunicação, Mídia e Narrativa, Roteiro, Criação e Planejamento Áudio Visual) e nos cursos de Administração, desenvolvendo o tema Comunicação Empresarial e Métodos e Técnicas de Pesquisa, professora convidada para o programa PPGA (Pós-Graduação em Administração) na Universidade Metodista de São Paulo para ministrar o tema Cultura, Organização e Comunicação. Pesquisa na área de gêneros comunicacionais e personagem literário.

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