Opinião: “Xô Jaburu!!”, por Heródoto Barbeiro

Heródoto Barbeiro | 12/06/2018 16:13
Crédito:Edu Moraes
O cortejo seguiu pelas avenidas principais da capital do Brasil. O povo estava apinhado nas calçadas, gritava, aplaudia e mostrava todo o seu entusiasmo. Uns tentavam furar o cordão de isolamento e se agarrar no caminhão. O Rio de Janeiro vivia um dia de glória com exclusividade. O resto do país só saberia muito mais tarde quando a revista O Cruzeiro chegava com muitas fotos e pouco texto. Os mais ligados na tecnologia acompanhavam através do rádio à válvula, onde verdadeiros poetas do microfone despejavam emoções pelo éter. Era um encantamento geral. A seleção voltou campeã do mundo. A partida final na Suécia e a conquista da Coup Jules Rimet eram tudo o que o governo precisava para coroar o clima de otimismo que se espalhava pelo Brasil no final da década de 1950. O pilar dessa euforia era o presidente bossa nova, Juscelino Kubistchek, que estava construindo a toque de caixa uma nova capital para o país, que ele chamava de Capital da Esperança, Brasília. Os heróis da Copa de 1958 foram recebidos no palácio presidencial no meio de uma multidão de penetras e papagaios de pirata. Tudo nas fotos de O Cruzeiro.

Desta vez a capital do Brasil já era Brasília. O governo, a duras penas, vencia a resistência dos funcionários para se mudarem para a nova capital. Órgãos públicos esticavam o quanto podiam a permanência na Cidade Maravilhosa. O alto escalão de tudo não queria ficar isolado no planalto central, à mercê dos velhos DC3 da FAB. Ainda não existiam os jatinhos da Fabtur para as excelências do primeiro escalão. O presidente da república dava o exemplo. Ficava mais perto de Copacabana, suas areias, seu céu tão lindo, suas sereias sempre sorrindo... João Goulart era o presidente de uma república parlamentarista, com primeiro ministro e tudo, mas tinha direito ao palácio do Catete, a célebre residência do presidente suicida Getúlio Vargas. O bicampeonato mundial de futebol, vencido pela seleção canarinho, que também foi recebida no aeroporto com festas e um caminhão do corpo de bombeiros para desfilar pelas avenidas cariocas em 1962. Graças a uma manobra dos cartolas e dos acólitos, o desfile triunfal do bicampeonato de futebol desviou o seu trajeto e passou pelo palácio do Catete onde o presidente e uma multidão se agarraram nos jogadores. Estava escrito nas estrelas, o Brasil era terra do futebol.

A seleção voltou da Copa da Inglaterra, sem festas ou acenos. Foi eliminada na primeira fase. Um vexame tão grande quanto a derrota para a Alemanha por 7 a 1 na Copa do Brasil. Mas o Brasil chegou a 1970 com novo ímpeto: “Ninguém segura este país”, dizia o ditador de plantão no Palácio do Planalto. Com time de craques, o técnico Zagalo sequer precisou montar a equipe para o campeonato do México. Ela se auto geria. A conquista do tricampeonato antecipou o carnaval para junho e as ruas do Rio de Janeiro se encheram de admiradores fanáticos. Desta vez o Brasil tomou posse definitiva da taça Jules Rimet, pelo menos até que foi roubada da sede da Confederação Brasileira de Futebol. Ladrão que  rouba ladrão... Os craques foram usados e abusados pela propaganda do governo militar e encaixados pelos marqueteiros da época como oriundos do “milagre brasileiro”. Médici foi fotografado e filmado ao lado da mais espetacular equipe futebol que o país já tinha reunido. Para cada conquista, os presidentes do Brasil se confundiam com os jogadores no palácio. Quando o avião da Varig sobrevoou Brasília, uma esquadrilha de caças F5 da Fab fizeram a escolta. Enfim, nenhum dos governantes quis abrir mão desse momento de glória. Pelo menos até a Copa da Rússia, quando a delegação não vai nem pisar no palácio do Jaburu. Por que será?
 
*Heródoto Barbeiro é editor chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.

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