Opinião: "Lispector, dá uma lição neles!", por Leandro Massoni Ilhéu

Leandro Massoni Ilhéu | 05/04/2018 07:45
Crédito:Arquivo pessoal
“E como nasci? Por um quase. Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que os elogios. Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo”. 

Clarice Lispector foi astuta ao fazer esta frase, que de certa forma, ao meu ver, resume o que é a mulher jornalista no campo esportivo e como ela se comporta mediante diversas situações. 

Situações essas que ocorreram dias atrás, como no último Gre-Nal (Grêmio e Internacional), no Sul do Brasil, e na partida entre Vasco e Universidad de Chile, pela Copa Libertadores da América. 

Em ambos lugares, ocorreram episódios de desrespeito à mulher jornalista. Enquanto uma foi xingada de “puta” por um dos colorados, a outra sofreu uma tentativa de assédio por parte de um vascaíno, que tentou beijá-la na boca. Pavor e constrangimento definem os dois casos, o que é lamentável. 

Poderia dizer que se tratando desses acontecimentos impera o clubismo, a cultura futebolística de que o esporte bretão “é coisa de macho” e que para alguns, a mulher, segundo as normas tradicionalistas, deve ser submissa ao homem e aceitar tudo que vier dele. Mas não. O problema está na falta de educação, dos bons modos, no sentido de respeitar o próximo para querer ser respeitado. 

Mas voltando à frase de Clarice, para colocá-la em contexto com as ideias acima, quando a escritora e jornalista ucraniana e naturalizada brasileira escreve que ela “podia ser um homem”, mas “felizmente nasci mulher”, reforça o orgulho de ser feminina, de ser diferente somente pelo fato de ter nascido do sexo oposto. 

Logo, a mulher jornalista, apesar dos pesares que tem enfrentado na profissão, deve manter a cabeça erguida e seguir em frente, zelando pelo cuidado – e vaidade – do seu trabalho. 

É preferível para nós jornalistas que uma profissional saia com um bom retrato no sentido de ser reconhecida pelo seu empenho jornalístico, do que repleta de elogios referentes ao aspecto físico. O trabalho, tanto para homens quanto para mulheres, vem em primeiro lugar! 

E ter várias caras, sendo uma bonita e a outra quase feia? A “bonita” merece destaque, pois a mulher jornalista não deve perder a pose em qualquer ocasião, cada vez mais se empoderando e dizendo para o que veio. 

Por sua vez, a “outra quase feia” é para esclarecer que apesar das ofensas e críticas carregadas de machismo e pela cultura de que o futebol e os demais esportes são “coisas de macho”, as repórteres, editoras, produtoras e demais profissionais deste âmbito jornalístico têm mais é que levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, como já dizia a cantora Beth Carvalho. Até porque, o que elas são? Quase tudo. Ou melhor: elas são tudo para nós do meio da comunicação. 

Não importa o quanto virão de agressões, você mulher jornalista deve se orgulhar e declarar que, para sua própria felicidade e a dos demais que estão a sua volta e te querem bem, ainda está aqui e merece ser ouvida com atenção. “Podia ser outra”? Sim, podia. Mas ainda bem que não, porque o mundo esportivo seria uma total chatice sem tua presença. 

*Leandro Massoni Ilhéu é jornalista formado pela Universidade Paulista (Unip) e pós graduado em Jornalismo Esportivo e Multimídias pela Anhembi Morumbi. É também radialista pela Rádioficina Escola de Rádio e Televisão. Tem se aventurado a escrever sobre jornalismo esportivo por meio do site Comunique Esporte. É também autor do vídeo documentário “O Futebol Nacional”, que conta a história do Nacional Atlético Clube através do ponto de vista de jornalistas e peritos no esporte bretão.

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