"2017: o ano em que o jornalista virou notícia", por Tiago Aparecido Fernandes

Artigo vencedor do Foca na IMPRENSA (janeiro 2018)

Tiago Aparecido Fernandes | 19/02/2018 16:38
Tema: O ano de 2017 foi de conquista ou de perdas para o jornalismo?

Ser jornalista é ter a profissão correndo nas veias, é querer mudar o mundo mesmo sabendo que é algo inviável, é ter sangue no olho pela notícia, é saber que o caminho na profissão não é nada fácil. O ano de 2017 mostrou que as dificuldades foram bem maiores que as conquistas. Ou seja: um desafiador teste de sobrevivência para àqueles que resistem firme no ofício de jornalista. E para quem está chegando em busca de uma vaga, no então concorrido mercado de trabalho, o desafio é ainda maior. 

Em uma área de poucos investimentos e que vem sofrendo grandes impactos devido à recessão econômica que atormenta o país, presenciamos, de forma triste, o fechamento de vários jornais impressos no decorrer do ano. Entre eles, o jornal Gazeta do Povo - maior impresso do estado do Paraná -, fundado em 1919, e que circulava há 98 anos como um dos principais diários da nação. Resultado: vários profissionais na estatística do desemprego.

Situação que veio se intensificando nos últimos anos com o encerramento de jornais tradicionais também pelo interior, como no caso do Correio de Uberlândia - o mais importante jornal impresso do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba -, que teve a "morte" decretada no último dia do ano de 2016. Os casos de demissões e enxugamento de redações pipocaram durante todo ano, chegando às redações dos poderosos O Globo e Extra, onde mais de 30 funcionários foram demitidos após a unificação de várias editorias. 

Em um cenário, quando não trágico, no mínimo dramático para muitos profissionais espalhados pelas redações no país, a alternativa para muitos jornalistas foi paralisar as atividades contra a precarização dos serviços. Como fizeram os jornalistas do Diário de São Paulo no intuito de rever salários atrasados, benefícios, férias e recolhimento do FGTS. Conjuntura que virou com frequência notícia na imprensa: se o jornalista é o profissional que transmite a notícia, em 2017 por várias vezes a notícia foi o jornalista. 

Se por um lado tivemos grandes perdas, por outro, foi a hora do jornalismo se reinventar. Buscar novas formas de comunicação com o público, novos formatos e novas plataformas. Ou seja, momento de entender esse novo modelo de negócio implantado pelos veículos de comunicação que alinha jornalismo à publicidade. Diante dessa reinvenção e da ofensiva dos grandes meios de comunicação em não poupar cortes e gastos, a melhor pergunta para definir o ano do jornalismo é a seguinte: A crise é do jornal ou do jornalista? 

Presenciamos em 2017 os meios de comunicação colocar a única engrenagem que move uma redação na rua: os jornalistas. Vimos que se o modelo de negócio vai mal, os jornalistas também vão mal. Que o jornalismo e os jornalistas sempre estarão na linha de tiro, e que todo argumento é pouco para mostrar ao empresário da comunicação que o trabalho de um jornal é apenas o de gerar informação. 

*Tiago Aparecido Fernandes é recém-formado em jornalismo pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, em Minas Gerais.