Patrícia Paixão: O que NÃO fazer numa entrevista para estágio em jornalismo

Redação Portal IMPRENSA | 02/08/2017 11:21

Muitos são os currículos enviados, poucos são os eleitos. E dos poucos chamados para a entrevista, apenas um conseguirá a sonhada vaga de estágio em jornalismo.


A concorrência é enorme e, se você teve uma primeira vitória sendo selecionado para conversar com o empregador, vale todo empenho e cuidado para conquistar essa vaga.


Muitos alunos me procuram, quase que semanalmente, para pedir dicas de como mandar bem na entrevista. Resolvi, então, escrever essa coluna, destacando, na verdade, O QUE NÃO FAZER, ou seja, erros que podem levar você a perder a vaga para o concorrente.


Leia e faça uma reflexão se já teve algumas dessas atitudes e/ou comportamentos, quando esteve frente a frente do empregador:


* Chegar atrasado - A preparação de um candidato para uma entrevista não envolve apenas pensar no que se vai falar para convencer o empregador. Deve-se demonstrar, logo de cara, respeito e responsabilidade e, por isso, é fundamental calcular o horário que você precisa sair de casa, considerando possíveis imprevistos (como congestionamentos, manifestações, ônibus quebrado; sim, problemas acontecem), para chegar pelo menos uns 15 minutos antes do horário da entrevista. Se você atrasar,  passará a imagem de que é uma pessoa relaxada, com quem não se pode contar. Você pode até ter ido bem na entrevista, mas entre um candidato que foi igualmente bem e você que chegou atrasado, o empregador, até por uma questão de justiça, pode optar pelo concorrente.  Além disso, chegar atrasado ou em cima da hora, esbaforido, suado e descabelado, pode aumentar seu nível de estresse e nervoso, fazendo com que você esqueça de destacar aspectos importantes ou mesmo que cometa falhas, que serão malvistas.


* Não pesquisar sobre a empresa que oferece a vaga e/ou sobre a função a ser ocupada - Não se esqueça de que você é estudante de jornalismo e, como tal, é antes de tudo um repórter, uma pessoa que pesquisa, apura, que está bem informada. Você causará boa impressão no empregador ao mostrar, durante a entrevista, que conhece o ramo no qual aquela empresa atua (ou a linha editorial de determinado veículo, no caso de quem está tentando uma vaga em grande ou pequena imprensa), quem são seus clientes ou público-alvo, em quais cidades do país a empresa tem filial, entre outros dados. O empregador vai perceber que está diante de um bom repórter, e mesmo quem vai atuar em assessoria precisa ser um bom repórter. É igualmente importante pesquisar sobre a função que você irá desempenhar. Por exemplo, se você vai tentar uma vaga de assessoria de imprensa e ainda não teve essa disciplina na faculdade, pesquise bastante a respeito e marque uma conversa com o professor que leciona essa disciplina ou com alguém que já trabalha na área, para entender quais são as principais funções de um assessor, o que é um release, follow up, press-kit, entre outras ferramentas de assessoria. Fazendo isso, você evitará uma possível cara de desespero ao ser questionado sobre determinados aspectos daquela função. Você pode ser sincero, afirmando que nunca trabalhou com aquilo, mas não pode agir como se nunca tivesse ouvido falar no assunto.  Se o site onde a vaga foi anunciada não traz o nome da empresa ou informações sobre a função, ao receber a ligação do empregador te chamando para a entrevista pergunte a respeito. Não precisa ficar com medo de parecer curioso demais. O bom jornalista é, antes de tudo, um curioso. Na nossa área a curiosidade é qualidade e não defeito.


* Vestir-se com uma roupa pouco adequada ao ambiente da empresa – A pesquisa sobre a empresa ajuda você a saber como deve ir vestido. Além de estar asseado (banho tomado, cabelos e unhas limpas; sei que parece absurdo dizer isso, mas já vi de tudo nesta vida rs), é importante usar um traje compatível com o perfil da empresa. Um candidato que vai participar do processo seletivo de terno e gravata numa empresa de design de games, para tentar a vaga de designer, pode acabar virando motivo de piada. Mesmo na grande imprensa é estranho ir trajando terno. O bom tom, no caso de redação por exemplo, seria uma calça jeans com uma blusa polo. Já para uma vaga de comunicação corporativa, o terno ou o terninho (no caso das mulheres) é aceito. Se vai tentar uma vaga numa produtora de filmes ou no mercado de moda, o visual tem que ser mais despojado. Pode parecer bobeira, mas não é. A empresa quer contratar um candidato que tem a “cara dela” em diversos sentidos.


* Demonstrar muito nervoso e insegurança - É óbvio que ser entrevistado é uma situação tensa e é preciso ser uma pessoa muito zen pra não demonstrar nervoso nenhum. Algum nível de nervoso é aceito. O empregador já passou por aquilo, e sabe que é normal. O que não dá é para o nervoso ser tão grande a ponto de fazer o candidato se expressar de forma truncada, gaguejando demais ou demonstrando contradições na fala, ou, ainda, travando o candidato, fazendo com que suas respostas sejam monossilábicas. Um conselho que dou é: faça uma simulação da entrevista na sua casa, procurando responder a possíveis questões que o empregador te fará, como se estivesse na situação real da entrevista. Pense na melhor forma de responder aos questionamentos, inclusive àqueles que podem explorar seus pontos fracos. Isso fará com que você se sinta mais seguro e preparado para enfrentar o empregador, o que reduzirá seu nível de estresse. Cuidado, pois, em algumas pessoas, o nervoso leva à verborragia, ou seja, faz a pessoa falar sem parar, chegando até mesmo a cortar o interlocutor. Da mesma forma que é ruim responder às perguntas monossilabicamente, falar sem parar demonstrará descontrole. É bom que você responda ás questões com calma, passando a imagem de equilíbrio.


* Demonstrar arrogância - Você é um ESTUDANTE, portanto, aja como tal. Por mais que entenda da função a ser exercida e tenha um currículo legal, mostre que está ali disposto a aprender, pois é para isso que existe o estágio. A coisa mais desagradável que existe é ver um candidato que se autoelogia exageradamente, como se quisesse entrar na empresa para humilhar a todos,  mostrando como ele é bom. Ninguém quer trabalhar com gente assim. Claro que é importante passar confiança ao empregador, destacando suas qualidades e diferenciais, mas há formas de se fazer isso. É possível sim demonstrar conhecimento e segurança, mantendo a humildade e o respeito. Igualmente insuportável é aquele candidato que chega com nariz empinado ou cara fechada, sem cumprimentar os funcionários do local, como se fosse melhor do que eles. Seja simpático com todos, do porteiro ao recrutador.


* Cometer erros de português - Já disse em outras colunas e repito nessa: ninguém tem obrigação de ser um “Professor Pasquale”, entendendo absolutamente tudo da Língua Portuguesa. Mas, se você quer atuar com jornalismo, é preciso estar a todo momento se policiando ao escrever e ao falar, para evitar os erros. Leia, leia, leia. Estude a gramática, faça cursos, inclusive os de expressão oral. Há vários cursos gratuitos nesse sentido, basta procurar. Não vai ser nada legal você, candidata, soltar um “estou meia cansada da falta de apuração no jornalismo” em vez de “estou MEIO cansada da falta de apuração no jornalismo”. Ou você, candidato, soltar um “pra mim fazer” em vez de “PRA EU fazer”, ou um “fazem cinco anos que eu cursei inglês” em vez de “FAZ cinco anos que eu cursei inglês”. Você pode perder a vaga no momento em que disser algo assim. 


* Não levar seu portfólio - Por mais que o currículo que você enviou faça menção às matérias que você já produziu ou os jobs que já fez na área, é importante levar numa pasta seus melhores trabalhos. É claro que o empregador não vai ter tempo de ler tudo no momento da entrevista, mas isso causará uma boa impressão. Mostrará que você já possui experiência. Alguém deve estar se perguntando: mas e se eu nunca trabalhei na área? Bem, aí é que aquele aluno proativo e verdadeiramente amante do jornalismo faz a diferença. Sim, porque o bom aluno, mesmo ainda não tendo conseguido emprego na área, já produziu diversos textos para a agência experimental da sua faculdade, para sites de seus professores ou mesmo para seu blog pessoal. Ou seja, ele terá criado suas próprias oportunidades de publicação e terá sim textos interessantes a mostrar para o empregador.  Além das oportunidades na faculdade, hoje existem projetos que possibilitam ao estudante de jornalismo publicar suas matérias. Dois muito bons são o “Foca na IMPRENSA”, do portal IMPRENSA, e o “Correspondente universitário”, do portal Comunique-se. São oportunidades que você, aluno de jornalismo, não pode perder. Imagina só que legal ter seu texto publicado nesses portais renomados, com grande acesso do público? Portanto, seja proativo e tenha bastante coisas legais na sua pasta-portfólio para mostrar. Você pode até deixar uma cópia com o empregador daquela reportagem que considera mais legal, para ele analisar depois da entrevista.


* PRINCIPAL: Não demonstrar paixão pelo jornalismo – Por fim, a pior coisa que existe ao tentar uma vaga de estágio em jornalismo é a falta de brilho no olhar, quando se fala da profissão, a falta de tesão. Tesão é tudo, acredite! Já estive diversas vezes no papel de empregadora e esse era um ponto crucial, para mim, na hora de escolher um candidato. O jornalismo é uma profissão que exige idealismo, amor. Nossa carreira é de natureza social. É difícil acabar com as coisas erradas que vemos na sociedade, mas nós, jornalistas, temos que lutar por isso, por mais difícil que seja, e temos que ter orgulho de ter escolhido a profissão. Precisa ser algo que nos emociona, nossa maior motivação. Além disso, é uma carreira difícil. Ganha-se pouco, trabalha-se muito, enfrenta-se interesses de poderosos. Sem amor, sem tesão, é difícil lidar com tudo isso. Afora a falta de brilho no olhar, o desconhecimento sobre o campo jornalístico pode te prejudicar. Em alguns processos seletivos o empregador começa com perguntas mais gerais, para perceber se o candidato é alguém que realmente gosta da profissão. É muito chato perguntar qual foi o último livro-reportagem que o aluno leu e receber um vazio como resposta ou ele citar uma obra muito antiga. Ou mesmo perguntar qual jornalista o candidato admira e perceber que ele só conhece os colegas da televisão, e geralmente os apresentadores de telejornais ou programas populares. Nada contra esses jornalistas, mas é que eles são conhecidos do grande público, mesmo por quem não é da área. O legal é você demonstrar, neste momento, que conhece profissionais para além dos que todos conhecem, ou que leu obras recentes e está antenado ao que acontece na sua área.


Já cometeu alguns desses erros? Se sim, calma! Não é o fim do mundo. Tudo é aprendizado para numa futura entrevista você ter um desempenho melhor. Prepare-se, evitando esses tropeços, e boa sorte!


Crédito:Acervo pessoal
*Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e das Faculdades Integradas Rio Branco. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.