Patrícia Paixão: Conquiste sua audiência com o gênero “entrevista”

Redação Portal IMPRENSA | 21/06/2017 11:59

Felizmente, graças à Internet e a toda independência que ela proporciona, não precisamos mais estar dentro de um veículo jornalístico para conseguirmos expor o nosso trabalho. Um blog, um site ou um canal no Youtube são apenas algumas das formas de nos vincularmos a uma audiência. E em qualquer um desses meios, o investimento em entrevistas é uma ótima pedida. 


O gênero “entrevista” valoriza o diálogo e o confronto de ideias com a fonte. Ocupa um espaço de destaque nas edições dos veículos jornalísticos, justamente pelo seu poder de atrair o público. 


Pode ser feita com uma celebridade ou com um personagem que teve papel significativo em um determinado fato, seja porque presenciou esse acontecimento ou porque o viveu. O jornalista Geneton Moraes Neto (infelizmente, falecido em 2016) era mestre na arte de fazer entrevistas. Passou boa parte da sua carreira investindo no gênero. Além de diversos presidentes, escritores e intelectuais, Geneton ouviu personagens que participaram de importantes acontecimentos históricos, como Theodore Van Kirk, um dos militares que lançaram a bomba atômica sobre a cidade de Hiroshima, no Japão, em 6 de agosto de 1945, ocasionando uma das maiores tragédias da humanidade.


Em entrevista concedida ao livro “Mestres da Reportagem” (produzido por mim e pelos meus alunos de jornalismo da Faculdade do Povo – FAPSP, em 2012, e editado pela In House), Geneton fez questão de ressaltar que nunca foi pautado para fazer essas entrevistas. Era ele mesmo quem pensava nos seus potenciais entrevistados e tratava de contatá-los.

Já pensou você, no seu blog ou canal, oferecendo uma entrevista exclusiva com uma personalidade altamente desejada por toda a imprensa?


É a chance que você tem de furar os grandes veículos jornalísticos e de elevar, e muito, o número de curtidas e/ou visualizações na sua página.


A seguir deixo algumas dicas para a produção de uma boa entrevista:


*Crie uma lista de personagens a serem entrevistados para o seu canal ou blog - Essa lista pode ser diversificada, envolvendo pessoas de diferentes áreas do conhecimento e ocupações, ou focada em determinado segmento. Exemplo: você tem um blog sobre literatura e só pretende fazer entrevistas com escritores. O importante é pensar em entrevistados significativos para o seu público. Vá entrevistando cada um dos nomes elencados.


*Seja insistente – Se o seu blog ou canal não é muito conhecido, você poderá ter dificuldades para conseguir o aceite do entrevistado logo de cara. Insista! Já recebi alguns “nãos” que se transformaram em “sims” após uma boa argumentação e perseverança. Se o entrevistado é importante para o seu público, não desista dele. 


*Prepare uma boa pauta - Antes de marcar a entrevista, pesquise ao máximo sobre o entrevistado. Leia sobre trabalhos que ele fez, e leia também entrevistas que ele concedeu anteriormente para outros veículos. Seu roteiro de perguntas deve ser original, com questões interessantes e que ainda não foram feitas por outros jornalistas. Uma boa entrevista sempre acaba sendo um instrumento de revelação.


*Fuja do tom congratulatório - Geneton Moraes Neto já dizia que um dos maiores problemas das entrevistas feitas no nosso jornalismo é o tom de “elogio” que o jornalista muitas vezes assume perante o entrevistado, evitando fazer as perguntas que devem ser feitas. Lembre-se de que o público quer justamente saber aquilo que o entrevistado não quer falar, e o nosso dever, como repórter, é tentar conseguir essa resposta. Percebo que muitas vezes meus alunos ficam temerosos em colocar no roteiro uma pergunta que incomodará o entrevistado. Ficam com medo de o entrevistado tratá-los mal. Bobagem! É bem melhor o entrevistado torcer o nariz pra você do que o seu leitor pensar: “Nossa, que repórter fraquinho! Nem perguntou sobre aquela questão polêmica!”. Trabalhamos a serviço da sociedade e, portanto, não temos que ter medo de perguntar a um político sobre o envolvimento dele em um escândalo de corrupção, porque a sociedade espera exatamente que perguntemos isso. Além do mais, pode ter certeza de que, fazendo a pergunta incômoda, o entrevistado irá te ver com outros olhos. Por mais que ele fique irritado com você, no fundo, pensará: “Caramba! Esse jornalista é experiente! Olha só a pergunta que ele me fez”. A entrevista, para ser interessante, precisa abordar sim questões polêmicas. Claro que você deve evitar começar com as perguntas incômodas. O ideal é que elas sejam feitas do meio para o final da entrevista, quando já se construiu um clima de “mínima intimidade” com a fonte, quando o entrevistado já está mais à vontade para fazer revelações. Só se deve começar logo de cara com perguntas polêmicas, se o objetivo da entrevista é questionar o entrevistado sobre determinada ação. Nesse caso, é preciso ser transparente com a fonte.


*Consiga pelo menos 1 hora para a realização da entrevista - Uma boa entrevista não pode ser feita de forma corrida, às pressas. Conforme dito anteriormente, leva-se um tempo para que o repórter e o entrevistado construam um clima interessante, em que ambos se sentem à vontade. Verifique com seu entrevistado a melhor data e horário. Tem que ser um dia em que ele poderá disponibilizar a você pelo menos 1 hora.


*Tente realizar a entrevista no ambiente do entrevistado - É sempre mais rico e revelador que a entrevista aconteça no ambiente em que o entrevistado vive ou trabalha.  A entrevista feita no ambiente do entrevistado pode ser editada de forma mais rica, pois, se você for bom observador, poderá incluir no texto de abertura detalhes sobre o cotidiano do entrevistado ou sobre as circunstâncias em que ele conversou com você.


*Cheque bem a construção de suas perguntas - Não crie perguntas que já contenham nelas a resposta. Esse tipo de pergunta acaba sendo uma forma de manipulação, servindo apenas para confirmar os pensamentos do repórter. Lembre-se de que estamos entrevistando para aprender e descobrir, e não para confirmar o que pensamos. Evite, por exemplo: “Você não concorda que a carga tributária no Brasil é muito alta?”. Se o entrevistado for sagaz, pode acusá-lo de estar sendo tendencioso. Evite também perguntas mal construídas, que podem lhe render problemas na hora de escrever o texto. Normalmente, quando a pergunta é mal construída, você não consegue obter do entrevistado a informação que precisava. Ao fazer as perguntas, pense sempre no que o leitor gostaria de saber. Evite também fazer duas ou três perguntas em uma só. O entrevistado pode se confundir ao responder ou mesmo esquecer de responder a algumas delas. Questões clichês e vazias devem ser evitadas. Exemplo: “Como você vê esse problema?” (o entrevistado pode responder: “Com os olhos!”) ou “O que você acha disso? (achismo é diferente de opinião consistente e argumentada).


*Mantenha um posicionamento neutro e respeitoso perante o entrevistado - Costumo dizer aos alunos que o repórter deve oferecer o mesmo nível de respeito a um assassino frio e cruel e ao Papa. Não importam a histórias e os atos de ambos, os dois estão dedicando um tempo deles para conversar com você. Por isso, o respeito é fundamental. Além disso, nós, jornalistas, não somos juízes. Não estamos ali para dizer se o que a pessoa fez é certo ou errado, e nem para julgá-la. É muito importante nos mantermos neutros, fazendo as perguntas que precisam ser feitas, mas sem humilhar o entrevistado ou termos qualquer ato de agressão. Caso o entrevistado seja grosseiro ou violento, não devemos devolver a grosseria. Basta pontuarmos que ele está passando do limite e, se for o caso, podemos até mesmo encerrar a entrevista.


*Mantenha as rédeas da entrevista - A entrevista não pode ser nem um monólogo do repórter, nem um monólogo do entrevistado. É muito comum que os alunos me digam: “Professora, a entrevista não rendeu nada. O entrevistado respondia tudo monossilabicamente”. Saiba que nesse caso a culpa é sim do repórter, assim como no caso em que o entrevistado não para de falar, e o jornalista não consegue fazer todas as questões da pauta. No caso do entrevistado que fala pouco, cabe a você, repórter, estimular que ele fale mais. Em cima das respostas dele, tente construir outras perguntas, peça para ele citar exemplos, enfim, faça-o descrever mais a situação. Já no caso do entrevistado verborrágico, é preciso saber cortá-lo, educadamente, trazendo-o de volta ao roteiro. Quem conduz a entrevista é sempre o jornalista.


*Não faça do roteiro um cabresto - Novas e interessantes questões podem surgir a partir das respostas do entrevistado. Fique atento. Normalmente o repórter fica tão preocupado em cumprir o roteiro de questões, que se esquece de prestar atenção no que o entrevistado está dizendo, e deixa de fazer perguntas importantes em cima de informações controversas que a fonte deixou escapar.  


*Seja humilde - Se o entrevistado disse algo que você não conhece, é preciso perguntar a ele mais sobre aquilo, e não fazer “cara de conteúdo”, como se a informação fosse óbvia para você. Se você estiver fazendo uma pingue-pongue (para impresso), todas as informações ditas terão de ser contextualizadas na hora de editar o texto. Portanto, se o entrevistado citar o nome de um autor francês que você não conhece, e você não perguntar a respeito (até mesmo como se escreve o nome daquele autor), poderá, mais tarde, ter problemas na hora de editar o texto.


*Não corte o entrevistado - Espere o entrevistado responder à questão, para passar para a próxima. A pior coisa que existe é o “repórter estrela”, que está mais preocupado em aparecer do que efetivamente ouvir o que o entrevistado tem a dizer. Se o entrevistado perceber que você não está dedicando atenção às respostas dele, ele passará a te tratar com a mesma indiferença. 


* Não desista da pergunta - Se o entrevistado não responder a sua questão, tente refazê-la, utilizando outras palavras. Se você perceber que ele não quer responder intencionalmente, seja firme e, ao mesmo tempo, educado, dizendo com clareza: “Desculpe, mas o senhor não respondeu a minha pergunta”. Se ele disser que prefere não responder àquela pergunta, registre (você pode apontar isso no texto) e siga em frente. Claro que há situações e situações. Em casos delicados em que a fonte foi vítima de algo ou está numa situação de fragilidade, não podemos forçar a resposta. Precisamos respeitar o entrevistado. A deusa Eliane Brum, por exemplo, que faz muitas reportagens com pessoas anônimas, normalmente vítimas da nossa sociedade injusta e excludente, diz que não costuma “arrancar nada de ninguém”. A pessoa só responde, se ela quiser.


*Faça uma boa edição - Em especial se estiver fazendo uma entrevista para jornal impresso ou internet, é importante apostar num bom título e num atrativo texto introdutório (aquele texto que aparece antes das perguntas e das respostas, apresentando o entrevistado, revelando as circunstâncias em que ocorreu a entrevista e pincelando alguns dos melhores momentos do bate-papo). Marque as reações do entrevistado, usando parênteses ou colchetes [risos], (emocionado). Também é importante separar impactantes falas do entrevistado para serem destacadas na diagramação como “olhos”. O título, o texto introdutório e os olhos funcionarão como “iscas” para atrair o leitor. São eles que motivarão o público a ler o texto integral da entrevista. 


Siga os conselhos e crie hoje mesmo sua listinha de personagens a serem entrevistados :)


Crédito:Acervo Pessoal

*Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e das Faculdades Integradas Rio Branco. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.