Patrícia Paixão: Sobre um jornalismo “apartidário, independente e pluralista”

Patrícia Paixão | 11/05/2017 13:30
A grande imprensa brasileira, de uma forma geral, apresenta-se, em seus manuais de redação, como praticante de um jornalismo “independente”, “apartidário” e “pluralista”. A Folha de S.Paulo, por exemplo, ostenta esses princípios há décadas em seu projeto editorial. Na nova versão dele, divulgada em 30 de março de 2017, o impresso os reafirma ao dizer que busca: “manter atitude apartidária, desatrelada de governos, oposições, doutrinas, conglomerados econômicos e grupos de pressão”.

Entre os colegas jornalistas, as opiniões sobre a “independência” dos veículos jornalísticos se dividem. Parte acusa aqueles que não acreditam na imparcialidade do jornalismo de “conspiratórios” e “algozes de uma imprensa livre e independente”. Já os que defendem que a imprensa é parcial costumam classificar os colegas do outro campo como “iludidos”, ou mesmo “mal-intencionados”.

Independentemente do posicionamento, não se pode negar alguns fatos. Nossos jornais, portais na internet e emissoras de rádio e TV são, antes de mais nada, grandes empresas inseridas no sistema capitalista, que possuem interesses bastante similares aos de determinados grupos políticos e econômicos, e esses grupos influenciam SIM o conteúdo desses veículos, o que torna hipócrita o discurso presente nos manuais de redação, quando vemos a sua prática.

Como defende o sociólogo e jornalista, Ciro Marcondes Filho, professor da Universidade de São Paulo, no livro “O Capital da Notícia”, “um conglomerado jornalístico raramente fala sozinho: ele é ao mesmo tempo a voz de outros conglomerados econômicos ou grupos políticos que querem dar às suas opiniões subjetivas e particularistas o foro da objetividade".

O jornalista Perseu Abramo, no obrigatório livro “Padrões de Manipulação da Grande Imprensa”, questiona a pretensa objetividade dos grandes veículos jornalísticos, comparando-os a partidos políticos, que recriam a realidade por meio da manipulação da notícia, para poderem exercer poderes na sociedade onde atuam. “Os órgãos de comunicação também procuram conduzir a sociedade, em parte ou no todo, na direção da conservação ou da mudança das instituições sociais; têm, portanto, um projeto histórico relacionado com o poder”, ressalta Abramo.

Nesse momento alguém deve estar dizendo: “não passam de teóricos esquerdistas, que pregam contra o jornalismo!”.

Amigo, basta ver o posicionamento dos nossos veículos com relação às reformas econômicas tocadas, nesse momento, pelo atual governo (a Trabalhista e a da Previdência), para perceber que esses postulados fazem muito sentido. É uníssono o encaminhamento da grande imprensa em defesa das reformas, em consonância com os interesses do governo e do empresariado. Raramente encontramos reportagens que questionam a forma açodada e pouco democrática (sem discussão com a sociedade) como esses projetos vêm sendo tramitados, tampouco que mostrem malefícios ao trabalhador, que estão por trás de alguns pontos dos textos. Que as reformas devem ser feitas em alguma medida isso é fato, mas a questão é a forma como elas estão sendo conduzidas e o teor dos projetos, que é bastante prejudicial ao trabalhador, em determinados tópicos. 

Infelizmente, não vemos, a contento, essa discussão. No que se refere às fontes ouvidas paras as reportagens, opta-se por privilegiar, reiteradamente, especialistas com pontos de vistas parecidos (pró-reformas) em detrimento de vozes dissonantes, o que faz com que a polifonia (multiplicidade de vozes), que deve caracterizar o texto jornalístico, seja prejudicada.

No episódio da greve geral, ocorrida em 28 de abril, essa parcialidade pró-reforma ficou explícita. Um dia antes a imprensa ignorou a paralisação e, no dia do evento, os veículos, de uma forma geral, tentaram mostrar que o movimento tinha pouca adesão, além de buscarem focar nos prejuízos causados à população, evitando discutir os motivos para a greve e a justeza desses motivos.

Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha, em sua coluna semanal, publicada em 30 de abril, chegou a dizer que “o bom jornalismo aderiu à greve geral”. Fazendo uma avaliação bastante sensata sobre a postura do jornal e de outros veículos de imprensa, questionou: “Quase em uníssono, os três principais jornais destacaram nas manchetes de suas edições impressas o efeito no transporte e a violência com que terminaram manifestações em São Paulo e no Rio. Será que o vandalismo em pontos isolados do Rio e de São Paulo era notícia a destacar em enunciado de manchete, se a própria Folha escreveu que a calmaria reinou durante quase todo o dia? Por que valorizar as cenas de confronto, em vez de imagens que pudessem, por exemplo, mostrar o que diziam as faixas levadas às manifestações.”

O que devemos fazer diante desse quadro? Satanizar a nossa imprensa e sair por aí apedrejando as sedes dos veículos?

Claro que não! É óbvio que uma imprensa fraca e desvalorizada vai ao encontro de interesses escusos. Só que passar a mão na cabeça e/ou fechar os olhos para os erros dos nossos veículos jornalísticos, defendendo-os cegamente, não vai resolver a situação. Pelo contrário.

O jornalismo tem função primordial numa sociedade democrática e é preciso destacar que há excelentes profissionais dentro da grande imprensa, inclusive tentando nadar contra a maré das imposições vindas de influências políticas e econômicas sofridas pelos veículos, mas há erros sim, e eles não podem ser esquecidos.

Não dá pra ignorar, por exemplo, que nosso jornalismo apoiou o Golpe Militar de 1964, e tanto que em 2013 as Organizações Globo admitiram, em um editorial mea-culpa, sua postura pró-Golpe. Nossa imprensa tem lado e nem sempre esse lado está a favor da sociedade, o que é um contrassenso, já que sua função é social.

Não é com uma postura condescendente que vamos garantir que essa função seja respeitada. Uma das maiores qualidades do profissional de jornalismo é ser crítico, saber avaliar adequadamente uma situação, vendo o que funciona e o que não funciona nela. O exercício de crítica da mídia é extremamente salutar, e não uma arma para a destruição da imprensa, como alguns insistem em insinuar.

Crédito: Acervo Pessoal

*Patrícia Paixão
é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e das Faculdades Integradas Rio Branco. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.