Opinião: Os cavaleiros do apocalipse, por Patrícia Paixão

Patrícia Paixão | 02/03/2017 13:00
A área jornalística está em crise. A frase tétrica costuma ser acompanhada do conselho: “se eu fosse você, estudante de jornalismo, mudaria de profissão, enquanto há tempo”.

Estou indignada de ouvir esse tipo de coisa, sabe? Não só de alguns jornalistas que são convidados para palestrar para alunos na faculdade, mas de alguns professores de jornalismo (felizmente poucos!) que deveriam ser os primeiros a estimular o estudante.

Ok. É óbvio que estamos vivendo uma crise no modelo de negócios do jornalismo tradicional. Só não vê quem não quer os sucessivos passaralhos, corte de cadernos, fechamento de publicações, textos mal produzidos ou cozinhados de outros veículos por falta de pessoal. Mas pergunto aos “cavaleiros do apocalipse”: é com todo esse ânimo e incentivo que vamos mudar esse cenário? É desestimulando estudantes a ingressarem na carreira que vamos reverter essa situação? 

“Ah, mas o estudante de jornalismo precisa ser crítico. Precisa estar ciente desse cenário”. Sim, meu amigo, eu nunca deixo de discutir o atual momento de crise com os meus alunos. Mas uma coisa é precavê-los sobre as dificuldades e outra, completamente diferente, é desanimá-los.

O jornalismo não vai morrer e, se desejamos que ele se torne melhor, dependemos das novas gerações. De gerações preferencialmente idealistas e empolgadas, que continuem mantendo vivo o sonho de tentar mudar as coisas erradas que vemos no mundo, com a reportagem; de pessoas criativas e com sangue novo, que possam pensar em novos modelos de negócios que sejam vantajosos tanto para o público como para nós, jornalistas. Estou certa de que isso vai acontecer. Aliás, já está acontecendo.

Acompanhei o 11º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em junho de 2016. Numa mesa intitulada “Inovação e sustentabilidade nas novas inciativas jornalísticas”, os jornalistas Conrado Corsalette, cofundador do Nexo; Laura Diniz, sócia do portal jurídico JOTA; Leandro Demori, editor do Medium Brasil e Mariana Castro, sócia da produtora F451, falaram sobre seus projetos de conteúdo jornalístico que exploram exatamente novos modelos de negócio, tendo como plataforma a internet. Deu pra entender que o caminho não é fácil, mas essas pessoas estão conseguindo trabalhar em campos fora da grande mídia e de maneira bem-sucedida. Certamente mais e mais projetos devem surgir.  

O jornalismo é essencial para a sociedade e vai ser cada vez mais, num contexto em que é preciso mostrar ao público o que exatamente, dessa avalanche de informações que nos atinge a todo instante pelo celular, tablet, rádio, TV e internet, pode ser considerado como mais próximo da verdade.  Ele vai ser reinventado, mas vai continuar existindo e sendo fundamental, qualquer que seja o seu formato.

Muita gente me diz: “Você é assim, porque dá aula há pouco tempo [11 anos]. Se fosse professora há décadas, pensaria diferente”. Não, caro colega, eu nunca vou pensar diferente. E sabe por quê? Porque eu amo a minha profissão. Sempre amei e vou continuar amando. Não estou rica e nunca serei. Ganho o suficiente para pagar as contas. Minha riqueza é fazer o que eu amo todos os dias. E quem faz o que ama acredita sempre no melhor.

Vejo colegas em situação muito difícil no jornalismo, pulando de redação em redação, pegando freelas, fechando as contas com dificuldades, mas todos sem desistir. Todos lutando para continuar nessa louca e apaixonante profissão. Alguns dando furos de reportagem maravilhosos, mesmo não sendo devidamente valorizados. Me parecem felizes, apesar de toda insegurança e descaso. Comemoram e vibram, quando conseguem denunciar algo que está errado por meio da reportagem.  E sabe por quê? Porque ainda acreditam no jornalismo.

Tenho um blog voltado a estudantes, o Formando Focas, e praticamente toda semana recebo uma mensagem de um foca desanimado: “Patrícia, você acha que devo continuar na profissão? Vejo alguns professores e jornalistas dizendo que eu deveria desistir da área”.

Respondo lindamente, digitando cada palavra da mensagem com empolgação: SIM, CONTINUE! NÃO DESISTA! Quem ama o jornalismo vai conseguir praticá-lo de alguma forma e o mundo sempre vai precisar da informação séria, de credibilidade.

Podem continuar dizendo que estou “vendendo ilusões”. Cavaleira do apocalipse? Jamais! Como disse o grande Geneton Moraes Neto, no livro “Mestres da Reportagem” (In House, 2012):  “É uma ilusão achar que o jornalismo vai melhorar o mundo, mas, se você não tiver essa ilusão, é melhor desistir. Não dá pra ter uma atitude entediada diante do trabalho. Isso é desastroso para você, para o leitor, para o telespectador, para o internauta, para o ouvinte, para o jornalismo e para o Brasil.”


Crédito:acervo pessoal


*Patrícia Paixão
é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e das Faculdades Integradas Rio Branco. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.