Opinião: Moda, do backstage à passarela e mais além, por Rosângela Espinossi

Rosângela Espinossi | 07/11/2016 16:30
A última edição do SPFW, que aconteceu em outubro, apesar da mais enxuta, trouxe a possibilidade de ver e rever não só tendências, mas a forma de pensar como a moda pode e deve ser feita a partir do contexto que transcende as passarelas. Observar os sinais apontados pelos estilistas e perceber se os desfiles refletem a forma de a sociedade viver e ver o mundo também fazem parte do trabalho do jornalista de moda.

É sobre esse grande leque que a moda oferece que vou tratar na oficina Jornalismo de Moda: Do Backstage à Passarela. Desfiles que mudaram a forma de se vestir de toda uma sociedade; enxergar além das cores, das texturas e das silhuetas das roupas é um trabalho que requer experiência e formação cultural e histórica. E como tudo isso pode ser passado para o leitor de sites, revistas e jornais.

O SPFWTRANSN42 foi um ótimo exercício para perceber tais movimentos. O próprio prefixo TRANS no nome escolhido por Paulo Borges aponta para um caminho de mudança e transição. O SPFW deste outubro de 2016 foi um evento híbrido, para ajustar o calendário às novas demandas de moda, como o tal “see now, buy now” (veja agora e compre agora ou em alguns dias). Por isso, grifes de biquínis se apresentaram ao lado de outras com roupas de veludo e lã. É uma transição de costumes e processos.

Antes, o que se via na passarela só chegava às lojas seis meses depois. Hoje com a internet e a possibilidade de transmissão ao vivo dos desfiles pelas redes sociais, ninguém mais quer ficar esperando.

É dever do jornalista de moda saber distinguir o melhor pra passar para seu público dentro destes novos tempos. Não se acomodar e usar a seu favor todas as tecnologias ao alcance e ir além das tendências. No SPFW, houve desfiles-manifesto, como o de Ronaldo Fraga, só com modelos transexuais na passarela, e da grife Lab, de Emicida, com modelos gordos, negros e fora dos padrões.

Falar deles, falar das famosas, descobrir histórias interessantes e diferentes dos personagens que fazem a semana fashion acontecer são alguns dos pontos importantes de uma cobertura de moda. E, claro, definir e apontar com propriedade o que as tendências e as roupas querem dizer. Não é simplesmente escrever se gostou ou não gostou. É escrever que aquela roupa mais larga, confortável e de moletom que muitas grifes apresentaram está inserida na ideia de dar voz ao povo e não só à elite, que gosta de se vestir toda arrumadinha e sem um amassado. Mesmo que o tal moletom possa custar por volta de R$ 1 mil. 

Para perceber esse mundo paralelo ao seu redor, é preciso entender sobre a história da moda e ter um bom estado físico. Nesta edição mais enxuta, dei 25 mil passos em 6 dias. Na edição anterior, foram 34,6 mil. Tudo entre um desfile e outro, a sala de imprensa e a locomoção até os locais de desfiles fora do Ibirapuera.

A moda é um assunto que suscita controvérsias, pois muita gente acha que é só glamour e frivolidade. Não é. A indústria têxtil é o quarto maior empregador do Brasil e responde por 1,7 milhão de empregos diretos e mais de 4 milhões de indiretos. Tratar tudo que envolve a moda com respeito, ética e conhecimento é o melhor que um bom profissional de jornalismo pode fazer em sua busca diária por boas histórias. 

Crédito:arquivo pessoal


*Rosângela Espinossi é jornalista de moda há mais de 25 anos, cobriu todas as edições do SPFW, muitas do Fashion Rio e algumas em Paris e Milão. Lançou, em 2012, o site www.elasnotapetevermelho.com.br, que analisa os looks e as tendências mostradas pelas famosas. No dia 19 de novembro, irá ministrar uma oficina sobre o tema promovida pelo Portal Imprensa. Para mais informações, clique aqui