TCC sobre Corpo de Bombeiros abre portas no mercado de trabalho para jornalista

Alana Rodrigues | 13/10/2016 16:30
O soar da sirene avisa que uma ocorrência precisa ser atendida. Acidentes, atropelamentos, incêndios ou suicídios são episódios vivenciados diariamente pelo Corpo de Bombeiros. O principal objetivo do trabalho desses profissionais, de salvar vidas, sempre fascinou a jornalista Marcella Larocca, da Record, que produziu o documentário "Em nome da Vida", para mostrar a rotina de Bombeiros Militares, como TCC, apresentado na Universidade Presbiteriana Makenzie, em 2014.

Crédito:Arquivo Pessoal
Equipe do Corpo de Bombeiros assistiu apresentação da estudante na banca

Durante quatro meses, Marcella acompanhou de perto as atividades do 1º Grupamento de Bombeiros da Vila Mariana e do Centro de Operações do Corpo de Bombeiros (COBOM). Para se debruçar no assunto e conseguir registrar as ocorrências, ela dormia nos alojamentos do quartel. "Pensava que cada ocorrência era única. As que eu peguei eram fracas perto do que tem hoje. Eles brincavam que eu dava sorte pra todo mundo porque quando chegava lá pra dormir, nada acontecia. Não tinha nem acidente de moto", conta.

A jornalista relata que um dos desafios que enfrentou no início das gravações foi conseguir conquistar a confiança dos bombeiros. "No começo, eles me viam mais como uma pessoa curiosa que estava lá e não sabia a realidade", explica. Outra dificuldade foi registrar as ocorrências. Por motivos de segurança, os policiais não a deixavam ultrapassar a faixa amarela usada nos casos de acidente.

Bastidores

Um dos acontecimentos que mais marcou a então estudante foi um incêndio em um apartamento. Enquanto gravava a ação dos bombeiros, Marcella acabou dando a notícia para a moradora. "Uma mulher perguntou para mim o que estava acontecendo. Falei que era um incêndio no apartamento 43, no quinto andar. Aí ela falou: 'Meu Deus, é a minha casa'. E começou a gritar".

Outra ocorrência que a surpreendeu foi um acidente grave com dois ônibus e um táxi. Ela estava em uma reunião com o orientador de TCC quando recebeu a ligação do tenente. O registro do episódio começou no ônibus. "Consegui uma imagem muito legal da cobradora explicando para o motorista o que tinha acontecido", relata. 

Aos poucos, a convivência diária rompeu a desconfiança da equipe em relação ao trabalho da estudante. “Além de estar lá, me preocupar com o que estava acontecendo, eu me preocupava com eles [bombeiros], que estavam lá dentro. Isso que eu achava curioso. Por que eles querem estar lá num momento que ninguém quer estar? Por que querem ajudar alguém que não conhecem? Por que enfrentam isso todo dia? Aí comecei a descobrir o porquê de cada um”, acrescenta.

A experiência de dormir nos alojamentos permitiu que Marcella descobrisse como era, de fato, a realidade dos bombeiros. "Quando acontecia a ocorrência, a sirene apitava e era a correria. Tinha um minuto pra sair do quartel. Eu ganhei uma roupa deles também. Colocava a minha roupa, pegava a bateria para câmera e ia", lembra ela, que também participava como vítima nos treinamentos.

Aprendizados e conquistas

Marcella destaca que a produção do trabalho trouxe aprendizados tanto pessoal quanto profissionalmente. "A primeira coisa que eu aprendi foi agradecer o que a gente tem. O que mais me deixava abalada era sair para a ocorrência e voltar e saber que muitas vezes ou alguém perdeu a vida, ou a casa inteira. E aprendi também o amor que eles têm, que eu passei a ter mais pelas pessoas desconhecidas".

Para ela, o TCC a ajudou entender que é capaz de fazer o quer e abriu portas para trabalhar em uma emissora de TV, área que sempre almejou atuar. "Quando conheci uma repórter que trabalhava aqui e ela me apresentou para o chefe de redação, eu fui com meu DVD. Ele deu dicas do que poderia ter feito, falou a opinião dele e entrei aqui [na Record] justamente por isso", conta.

À época da apresentação, a jornalista escreveu um relato sobre a produção do trabalho. Confira:
Mais uma etapa da minha vida está concluída. Essa é a maior prova de que todo meu esforço valeu a pena. Não só por ter tirado 10 no TCC, mas por todo aprendizado que eu adquiri nesses 4 anos de faculdade.
Me sinto realizada por conseguir fazer o trabalho que sempre sonhei e por acompanhar durante quase 6 meses a rotina do Corpo de Bombeiros. 
Desde o começo eu sabia que essa rotina não poderia ser descoberta em um dia. Necessitava abrir mãos de finais de semana, feriados e muitas madrugadas. E eu não acho errado, porque eles abrem mãos de tudo isso para salvar vidas, então, eu não poderia ser diferente. Quando cheguei no quartel a primeira coisa que eu aprendi foi não torcer para ter ocorrência, e sim, torcer para eu estar lá caso acontecesse, porque toda vez que o bombeiro sai para um chamado significa que tem alguém precisando de socorro.
Cada dia era um dia diferente no quartel e eu sempre saía de lá aprendendo alguma coisa nova.. Pude retratar toda a realidade e o que acontece na vida desses heróis. Aos poucos eu fui ganhando a confiança dos bombeiros e pude ouvir muitas histórias de vida e refletir através delas o quanto a experiência motiva-os a continuar. Pode faltar o que for que eles darão um jeito de resolver fazendo o seu melhor.
A partir daí parece que eu comecei a minha carreira de verdade. Aprendi a lidar com imprevistos durante ocorrências, aprendi o que é ficar uma madrugada inteira embaixo de garoa com os pés todos molhados e depois ir trabalhar, senti o calor das chamas durante um incêndio ; presenciei a dor de uma família ao ver seu apartamento todo destruído pelo fogo, vi o quanto é difícil ver uma mãe chorando pelo filho que acabou de cair de moto, o quanto é triste ver um homem ao deparar-se com seu amigo sem vida depois de cometer suicídio, presenciei a dor da família ao ver que seu barraco inteirinho pegou fogo e que não restou mais nada, presenciei a tristeza de um filho ao pegar seu pai na janela tentando se matar.. e sempre depois de todas essas ocorrências eu voltava refletindo e agradecendo à Deus por chegar em casa e ter minha família me esperando , minha cama, minhas roupas lavadas e todas as minhas coisas. Por isso que eu digo que foi muito mais do que um trabalho. Aprendi a dar muito mais valor as coisas.
Todos deviam passar pelo que eu passei para ver o quanto é bom estar perto de quem ama o que faz. E quando a gente faz com amor e carinho dá certo. O resultado foi esse.
 


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