Opinião: Leia, leia e leia!, por Patrícia Paixão

Patrícia Paixão | 06/10/2016 14:30
De tempos em tempos me deparo em sala de aula com as seguintes questões:  “Professora, como posso escrever melhor? Como criar um estilo para o meu texto?

A resposta é sempre a mesma: LEIA, LEIA E LEIA.

A conquista de um estilo passa por conhecer e admirar diferentes formas de se contar uma história, inspirar-se em maneiras bem-sucedidas de surpreender e cativar o leitor. Ou seja, para obter seu estilo, é preciso, antes, aprender muitas e muitas formas interessantes de escrever.

Leia de tudo, mas, principalmente, leia os clássicos da literatura e do jornalismo, aqueles livros e reportagens que se encontram na lista dos imperdíveis, exatamente pela forma brilhante como foram construídos.

Nada contra os tabloides que você recebe diariamente no metrô ou os textos factuais da imprensa que você encontra aos montes nos jornais e na internet, circulando também pelos links compartilhados no Facebook e no Twitter. Eles são úteis para quem deseja informação objetiva e fácil de ser digerida, mas não são com eles e com sua burocrática fórmula da pirâmide invertida (técnica de construção textual típica do jornalismo diário, que coloca as informações principais sobre o fato no primeiro parágrafo, deixando para os parágrafos posteriores os dados menos importantes) que você vai aprender a escrever de maneira criativa.

Confesso que, diferentemente do que dizem muitos jornalistas, não fui uma leitora compulsiva desde criança. Passei a ler mais intensivamente no ensino médio, justamente quando comecei a me interessar em seguir a profissão. No último ano do colegial, já tinha “devorado” uma série de obras fundamentais. E aí comecei a ser estimulada por alguns professores que diziam que eu escrevia bem. Na verdade, esse “escrever bem” nada mais era do que imitar estilos de romancistas que eu passei a admirar, dentre eles Machado de Assis. Não que eu escrevesse com a genialidade do bruxo do Cosme Velho (pelo amor de Deus, tenho noção do que eu sou!), mas tentava, pelo menos, fazer algumas construções parecidas com as dele.

Quando cheguei à faculdade, continuei a levar a questão da necessidade da leitura como um mantra, até pelo fato de ter percebido que outros colegas de classe conheciam bem mais autores do que eu (todo jornalista é um pouco orgulhoso, né? rs).

Comecei a fazer, com algumas amigas, “campeonatos de leitura de clássicos” que eram comemorados - quando terminávamos de ler a obra escolhida - como uma taça de vinho (um vinho muito do vagabundo, mas era o que dava para pagarmos; haja fígado! rs). Nos reuníamos para discutir os pontos fortes e fracos do clássico, qual trecho tínhamos gostado mais, dentre outras questões. Parece coisa de nerd, mas era muito legal.

Foi assim que li as centenas de páginas de Os Sertões, de Euclides da Cunha, considerado, por alguns críticos, como o primeiro livro-reportagem brasileiro, uma verdadeira aula sobre o Brasil no século 19 e sobre a alma do sertanejo. Foi assim também que devorei outras obras maravilhosas como Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac; O nome da Rosa, de Umberto Eco; O Processo, de Franz Kafka, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos. A cada livro terminado, sentia um orgulho imenso. Parecia que eu tinha me tornado uma pessoa melhor, e, de fato, eu me tornara. As referências foram aumentando, meus argumentos para a escrita também.

Mais tarde essa maratona de leituras foi sendo intensificada com os trabalhos de mestres do new journalism (novo jornalismo, também conhecido como “jornalismo literário” por empregar técnicas e recursos da literatura na narração do fato).

E depois de ter lido algumas preciosidades do chamado “novo jornalismo”, passei a me questionar:

Como construir um lide envolvente, sem conhecer a abertura sensacional de Hiroshima, de John Hersey, considerada uma das reportagens mais bem escritas do mundo?

Como aprender a descrever genialmente uma cena, um ambiente ou personagem, sem ter lido o célebre perfil “Frank Sinatra está resfriado”, de Gay Talese?

Como envolver o leitor numa trama policial, sem aprender com o texto “sequestrador” de Truman Capote, em A Sangue Frio?

E a ácida e inteligente “não-entrevista” que Joel Silveira fez com o presidente Getúlio Vargas?

E o texto profundo e sensível do mestre Audálio Dantas na reportagem O circo do desespero sobre um famoso concurso de dança da década de 60, no qual pessoas frágeis e humildes se humilhavam e se esgotavam, dançando por dias seguidos, para conseguir um prêmio em dinheiro que poderia sustentar apenas parte de seus sonhos?

Como aprender a torcer o coração do leitor, levando-o às lágrimas, sem conhecer a reportagem “Vida até o fim – A mulher que alimentava”, da diva Eliane Brum, que conta de forma incrivelmente poética os últimos 115 dias de vida de uma senhora com câncer terminal?

São tantos, tantos textos sensacionais para você se inspirar, que falta espaço nesta coluna para abordar todos. Na internet você encontrará diversas opções de listas dos livros e das reportagens que todo jornalista precisa ler. Eu, humildemente, criei uma lista no meu blog, o Formando Focas, apontando as 20 obras (link: https://formandofocas.com/2015/10/30/os-20-livros-que-todo-jornalista-precisa-ler/comment-page-1/) que considero fundamentais para quem está na profissão.

Se você quer conquistar um estilo de texto envolvente e sedutor, mais do que fazer cursos de redação (que até são importantes, mas não suficientes), tenha como questão de honra investir nessas leituras.

Jornalismo é saber contar bem o fato, seja no impresso, no rádio, na TV ou na Internet, então vale a pena conferir o que os chamados “mestres na arte do contar” fizeram.

Crédito:arquivo pessoal


*Patrícia Paixão é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e das Faculdades Integradas Rio Branco. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.