Opinião: Quem sabe faz ao vivo, por Emílio Coutinho

Emílio Coutinho | 15/09/2016 15:00
Os novos formatos de comunicação transformaram o modo como o público avalia os fatos noticiados, resultando em uma opinião pública cada vez mais exigente no que diz respeito ao conteúdo oferecido pela imprensa. E essa criticidade pode ser notada tanto nos detalhes – como no olhar atento à vestimenta de um apresentador – quanto na percepção dos erros que ele comete, fator evidenciado nos programas ao vivo.

Por isso mesmo, a entrevista ao vivo é um dos momentos mais propensos para que o jornalismo receba críticas. Diante de um personagem importante, que pode ser um especialista ou uma celebridade, o repórter está ciente de que precisa extrair as informações que o público deseja ou precisa saber e, sob pressão, fazer as perguntas certas, clara e objetivamente, exige muito mais preparo.

Se as entrevistas ao vivo podem provocar ansiedade até nos jornalistas mais experientes, o que esperar dos novatos? Estar ciente de que não há como corrigir uma palavra ou pergunta errada, frente à uma audiência imediata, é uma situação responsável por causar pânico em qualquer foca. As mãos suam, o cérebro bloqueia. E, Infelizmente, o resultado às vezes não é dos melhores, ou seja, o microfone que tanto incomoda determinadas fontes, acaba inibindo o próprio repórter, que quando se dá conta, já foi: acabou falando besteira. 

A reação da fonte, muitas vezes, é desprezar o jornalista que falou o que não devia ou simplesmente tratá-lo com ironia. A pergunta equivocada ofende tanto ao entrevistado – que percebe que o profissional enviado para entrevistá-lo não se preparou direito – quanto ao telespectador ou ouvinte, que se sente ultrajado pelo jornalismo de baixa qualidade oferecido.

Entretanto, além do nervosismo de estar ao vivo, o que mais pode levar um jornalista a fazer uma pergunta boba? Na maioria dos casos, é, de fato, a falta de conhecimento sobre o assunto ou o personagem em questão. Por isso é tão importante o preparo emocional e intelectual para uma entrevista. É primordial pesquisar profundamente o assunto e estar por dentro do contexto que envolve a fonte.

Além disso, é interessante ter em mente que o mais relevante em uma entrevista são as respostas. Esse pensamento diminui a pressão sobre o repórter, embora não seja desculpa para que não se formalize perguntas inteligentes. A coerência deve ser o objetivo do jornalista ao questionar o entrevistado, especialmente se considerarmos que, em certos assuntos, até mesmo o óbvio precisa ser debatido.

Por exemplo, o entrevistado, especialista em um assunto, muitas vezes usa termos técnicos ou se aprofunda demais em um tema pelo qual o jornalista já está ciente. Apesar disso, o profissional não pode esquecer que a reportagem está sendo produzida para um público que, frequentemente, não possui esse conhecimento prévio. Nesses momentos, o repórter tem por obrigação questionar mesmo a informação que já é óbvia para ele. 

Da mesma forma, se a fonte disser algo que não foi inteiramente compreendido pelo repórter, ela deve ser imediatamente questionada sobre esse ponto, pois tanto o jornalista quanto a audiência não podem ficar em dúvida sobre a informação transmitida.

E não esqueçamos: o jornalista não é obrigado a saber de tudo – o entrevistado é quem domina determinado assunto e melhor saberá explicá-lo – mas o preparo prévio é indispensável.

Crédito:arquivo pessoal



Emílio Coutinho
é jornalista, autor do livro “Escola Base, 20 anos depois”, criador da Casa dos Focas (portal voltado para estudantes de jornalismo) e mestrando do Programa de Mestrado Profissional em Jornalismo do FIAM-FAAM - Centro Universitário.