Opinião: Dois “Gs”, dois grandes mestres, dezenas de grandes reportagens

Patrícia Paixão | 01/09/2016 12:00
A vida te presenteia com algumas oportunidades. Outras precisam ser criadas. A ideia de fazer um livro, com meus alunos entrevistando os principais nomes da reportagem brasileira ("Mestres da Reportagem", lançado em 2012), foi a chance que construí, para mim e para os meus pupilos, de registrarmos a carreira de mestres do nosso jornalismo, entre eles Goulart de Andrade e Geneton Moraes Neto, falecidos, numa infeliz coincidência, um dia após o outro (23 e 24 de agosto de 2016), deixando um vazio naqueles que amam a profissão. 

As entrevistas que meus estudantes fizeram com esses grandes repórteres, tornaram-se (tal como pretendíamos ao conceber o projeto) históricas, deixando excelentes lições para as novas gerações de jornalistas. Uma das mais importantes: fazer questão de exercer a reportagem, essência da profissão. 

Ao longo de sua carreira, Geneton abriu mão de cargos de chefia para ser repórter, e dizia que tudo o que fez fora da reportagem foi uma grande perda de tempo. “Ficar numa redação trancado, discutindo o futuro da humanidade? Never. Estou fora!”, afirmou, categórico, na entrevista que nos concedeu para o livro. 

Goulart, com mais de 80 anos, ainda ia para a rua caçar matérias. A reportagem estava em suas veias. Em 1976, ao descobrir que estava enfartando, durante uma entrevista com o renomado cardiologista Euryclídes de Jesus Zerbini, resolveu gravar sua própria cirurgia para mostrar ao público da TV brasileira, pela primeira vez, como era feita uma operação cardíaca. “Fiz isso porque sou repórter! Logo vi que aquilo era grande uma oportunidade”, contou-nos.

Outro destaque em ambos era a capacidade de ver boas histórias em situações ou pessoas tidas como “ultrapassadas” do ponto de vista jornalístico. Nas décadas de 80 e 90, Goulart saia na rua gravando coisas que chamavam sua atenção. Era acompanhado de Capeta (Jorge Duarte), cinegrafista que foi seu fiel escudeiro por muitos anos (faleceu bem antes do jornalista).

Uma vez, ao deixar o prédio da TV Globo próximo à estação Marechal Deodoro, no centro de São Paulo (naquela época a sede da emissora ficava lá), viu um carro do IML e resolveu segui-lo, pedindo para o Capeta filmar tudo.  Acabou se surpreendendo com o que encontrou, quando o carro parou em um prédio e os funcionários do IML foram até um dos apartamentos: uma vitrola rodando apenas com a agulha, com um disco de Elis Regina, e um prato de macarrão, sem ser tocado, velavam o corpo de um homem que havia enfartado há aproximadamente dois dias. “Descobri ali uma pessoa solitária e de muito bom gosto. O carro do IML acabou rendendo uma grande história”.

Geneton gostava de citar a figura de uma padroeira imaginária (criada pelo escritor americano Kurt Vonnegut) da qual todos os jornalistas deveriam ser devotos – a “Nossa Senhora do Perpétuo Espanto”. Fazia referência à santa para defender a necessidade de o profissional da área não demonstrar tédio diante da realidade.  “Faço questão absoluta de não me enquadrar no ´universo mental´ dos jornalistas. Os jornalistas têm que ter uma atitude de permanente espanto. Precisam ser "levantadores", não "derrubadores" de matéria. Os levantadores são aqueles que você pode pautar para falar de uma xícara e eles vão inventar um jeito interessante para escrever a respeito”.

A humildade, qualidade de todo bom repórter, também era marcante em ambos. Os dois receberam meus alunos com simpatia e carinho, de igual para igual. Goulart fez questão de comparecer ao lançamento do nosso livro e Geneton publicou a entrevista que minhas alunas (Daniela Gualassi e Jéssica Tamyres dos Santos) fizeram com ele, em sua página pessoal na internet, sabendo do quão importante isso seria para as estudantes.

Há também os ensinamentos particulares de cada um. De Goulart, a inovação e a ousadia. Ajudou a transformar a linguagem televisiva, criando o famoso “plano sequência” e lançou profissionais do gabarito de Marcelo Tas e Fernando Meirelles. Foi o primeiro a propor um programa para a madrugada [Comando da Madrugada], provando que era possível chamar a atenção da audiência num horário até então considerado “morto” nas emissoras.

Também foi um dos pioneiros na técnica investigativa do repórter infiltrado, quando entrava “na pele do lobo”, para conhecer melhor os personagens que retratava. Foi catador de papel, palhaço, presidiário, trapezista, mendigo. Foi ainda um dos primeiros a dar voz a rostos até então ignorados. Sua emblemática reportagem com as travestis na década de 80, quando “se montou” e imergiu naquele universo, gerou polêmica porque afrontou os preconceitos do senso comum e alertou para a vida sofrida daquelas pessoas, além de ter desnudado a hipocrisia de uma sociedade que à noite fazia programa com as travestis e, durante o dia, gostava de criticá-las. 

De Geneton, o destaque para a entrevista. Era o melhor perguntador desse país e buscava fazer memória com esse gênero. Entrevistou personagens que testemunharam momentos importantes da história, e sem fazer juízo de valor. “George Bush é tão interessante pra mim, jornalisticamente falando, quanto Fidel Castro. Adoraria entrevistar os dois, mas, para ser sincero, conheço jornalistas que se recusariam a entrevistar o Bush, por conta de ideologia.

É claro que tenho minhas opiniões políticas, mas lugar de fazer "patrulhagem ideológica" é na urna, no dia da eleição. Não é na redação, sob hipótese alguma”, disse-nos. Suas entrevistas eram sempre reveladoras. Repudiava o formato “congratulatório” das entrevistas de parte significativa da nossa imprensa. Fazia perguntas incômodas, pois sabia que é exatamente isso que torna a entrevista rica. Foi assim quando ficou frente a frente com Newton Cruz, general linha dura de um dos períodos mais ferrenhos da ditadura militar brasileira. Manteve-se firme no propósito questionador, mesmo diante da agressividade do entrevistado.

É por isso que Goulart e Geneton sempre serão citados nas minhas aulas. Em tempos em que, vire e mexe, cruzamos com quantidade assustadora de alunos que nos perguntam se podem entrevistar o amigo, o tio, se podem fazer a entrevista por e-mail (em vez de pessoalmente) e, pior de tudo, SE PRECISAM ENTREVISTAR (há sim, pasmem, estudantes de jornalismo que têm preguiça de fazer entrevista!!!), esses dois grandes Gs da nossa reportagem precisam ser diariamente relembrados. Eles se foram, mas suas lições são eternas para todos que amam e vivenciam, de forma verdadeira, a nossa profissão. 
Crédito:arquivo pessoal


*Patrícia Paixão
é jornalista e professora do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, da Universidade Anhembi Morumbi e das Faculdades Integradas Rio Branco. É organizadora dos livros "Jornalismo Policial: Histórias de Quem Faz" (In House, 2010) e "Mestres da Reportagem" (In House, 2012). Também é responsável pelo blog Formando Focas.