Especialistas preveem quais assuntos deverão pautar o noticiário econômico em 2017

Rúbia Evangelinellis | 21/02/2017 15:00



Se a crise que assolou as principais economias do mundo em 2008 não passou de uma marolinha no Brasil, podemos dizer que a de 2016 foi quase um tsunami. O avanço da Operação Lava Jato, revelando um esquema de corrupção que desviou bilhões de reais dos cofres da Petrobras, gerou incerteza política e paralisou a economia. Com o país em recessão e 12 milhões de desempregados, o apoio a então presidente Dilma Rousseff minguou, culminando em impeachment. Ao assumir o comando do país, Michel Temer nomeou Henrique Meirelles, ex-ministro do governo Lula, como o homem forte das finanças. 

O ajuste das contas públicas, através da PEC do Teto, pautou os noticiários do segundo semestre e provocou fervorosos debates. Jornalistas de economia e especialistas tiveram que traduzir para o público em geral termos áridos do economês, como superávit, déficit e dívida bruta. Para dar um panorama do que esperar para 2017, IMPRENSA ouviu especialistas em diferentes áreas que avaliaram os rumos da economia e os fatores que podem pesar contra e a favor. 



O atraso no pagamento de servidores públicos e a falta de materiais em hospitais e escolas trouxeram de volta o debate sobre o endividamento dos Estados com a União. E esse assunto ainda deve render muitas pautas em 2017. “O Brasil vai ter que enfrentar os problemas, fazer os ajustes, senão vai viver situações como a do governo do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul”, prevê o economista Eduardo Giannetti da Fonseca. 

Outro tema desenterrado que deve dominar as manchetes de 2017 é a reforma da Previdência. Com regras muito rígidas, o governo não deve ter a mesma facilidade para aprová-la como aconteceu com a PEC do Teto. “A reforma é inevitável e o governo precisa dela para mostrar a capacidade de gestão e de sustentação política”, diz Fábio Giambiagi, especialista no tema. 

Assim como em 2016, as delações da Operação Lava Jato, que afetam a cúpula do governo e o próprio presidente Temer, podem afetar os rumos da economia. “Com o governo contaminado e com a baixa popularidade, a questão é saber como ele conseguirá se manter até 2018. Eu penso que alguma saída deve ser buscada”, prevê o cientista político Aldo Fornazieri. 

O fator Trump também pode interferir na retomada da economia no Brasil, principalmente com adoção de uma política comercial capaz de gerar instabilidade internacional e acirrar a animosidade criada com a China, com forte presença econômica na América Latina. “O Trump é um agravante em um contexto de crise. Uma pressão inflacionária nos EUA pode levar a pressão sobre juros, o que afeta o fluxo de divisas, o câmbio e o ritmo de atividade econômica no Brasil”, observa Fernanda Magnota, coordenadora do curso de relações internacionais da FAAP. Veja a seguir os assuntos que deverão pautar a economia em 2017: 

Medidas econômicas 
Ainda que pairem sobre a cúpula do governo, delações premiadas, Lava Jato e crises políticas e entre os Poderes, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca acredita que, avaliando apenas os aspectos relacionados à conjuntura e ações adotadas pela equipe de Michel Temer, a pauta de 2017 será balizada por indicadores positivos e afinados com o atual modelo econômico. 

Entre as conquistas sinalizadas, ele aponta a inflação em queda e com perspectivas de recuar até o centro da meta oficial, de 4,5%, o que “demonstra” que o Banco Central conseguiu vencer a guerra das expectativas. Com a taxa controlada, há espaço para a redução da taxa básica de juros, hoje em 13%, podendo chegar a um dígito ao final de 2017. “É uma boa notícia, porque barateia o custo do empréstimo para consumidores e investidores e alivia a carga fiscal, diminuindo o peso que os juros representam sobre os gastos públicos. Em 2017 vamos ver muito provavelmente o fim da recessão, mas com uma resposta lenta do emprego.”

Outro ponto positivo, que merece atenção dos observadores, é o ajuste do setor externo, com um déficit em conta corrente considerado “muito pequeno” e financiado por investimento direto estrangeiro, além do superávit da balança comercial. “As exportações brasileiras, inclusive de manufaturados, estão reagindo. Acredito que é um impulso que vai continuar neste ano e pode levar a economia a ter algum crescimento, embora baixo ainda.” 

O terceiro ponto importante é a “imensa” capacidade ociosa produtiva, o que ajuda a acelerar a retomada, assim que for resgatada a confiança dos agentes econômicos. “Temos muito capital físico - máquinas e equipamentos - e mão de obra qualificada que podem ser imediatamente mobilizados para atividade produtiva”, avalia. Para Giannetti, a equipe econômica atua de forma correta na solução de problemas pendentes e na busca da melhoria do ambiente de negócios. 

Reforma da Previdência

Favorável à reforma da Previdência Social, o economista Fábio Giambiagi considera fundamental que a análise vá além dos pontos de vista baseados na matemática ou na questão humana e considere, sobretudo, a necessidade física de ajustar o sistema. “Não é preciso ser economista para entender que a sustentação do sistema depende do equilíbrio entre o volume de pessoas que contribuem e recebem o benefício.” 

Outro aspecto que deve ser debatido, segundo Giambiagi, é o peso da Previdência sobre os gastos públicos federais, equivalente a 8% do PIB no caso do INSS e 2% na aposentadoria paga aos funcionários públicos federais. 

Ele acredita que a Reforma da Previdência tem gordura para negociação, mas que o governo não deve desfigurar a proposta. Como pontos passíveis de negociação, segundo Giambiagi, estão a flexibilização do tempo de contribuição, de 49 anos, para o cálculo do benefício integral, e a regra que restringe a 50% a pensão do cônjuge, mais 10% por dependente. “Eu acho que o governo tem que deixar claro desde o início os pontos que pode ceder. E creio que tem que manter a exigência da idade mínima e a igualdade de regras entre trabalhadores rurais e urbanos, professores ou não”, diz. 

Crise entre poderes e política 

Os embates ocorridos entre o Congresso e o Judiciário ao longo de 2016 demonstram que a crise ultrapassou os limites da economia e da política e instalou-se entre os poderes Legislativo e Judiciário. Os holofotes, segundo o cientista político Aldo Fornazieri, devem recair em 2017 no acompanhamento da crise institucional, de confrontação de poderes. 

Um dos últimos rounds que dão o tom do enfretamento foi o Senado ter ignorado o pedido de afastamento de Renan Calheiros da presidência da Casa, determinado por liminar do ministro do STF Marco Aurélio Mello. “Nesse episódio nota-se um avanço do Supremo em funções que deveriam ser do Congresso, que tem se omitido de tomar medidas saneadoras no sistema político. Se é verdade que o Supremo não deveria afastar Renan, também é verdade que ele não deveria ser presidente do Senado e do Congresso. ” 

Outro ponto que merece ser destacado e acompanhado de perto pela imprensa, segundo Fornazieri, são os baixos índices de popularidade do governo, em razão da retração econômica e da adoção de medidas contrárias às políticas sociais. “Temos um quadro complicado, de instabilidade jurídica, política, econômica e institucional, com tendência de agravamento logo no início do ano, com mobilização contra a reforma da Previdência.” 

Outra questão que deve concentrar as atenções são as denúncias feitas pela Operação Lava Jato que já atingiram a cúpula do PMDB e do governo Temer. Espremido pelas denúncias e com falta de apoio popular, as possíveis saídas serão o afastamento de Temer [implicado no processo do TSE por suposto abuso do poder político e econômico na campanha da chapa Dilma-Temer], a escolha de um governo de transição acordada entre os partidos ou a convocação de eleições diretas em 2017. 

Efeito Donald Trump 

Um dos grandes macrodebates entre analistas e jornalistas nesse início de ano será saber se Donald Trump vai dar corpo ao discurso de campanha, de narrativa mais radical, ou se vai vestir o terno do político e incorporar certa moderação ao discurso de presidente dos EUA. Na avaliação de Fernanda Magnotta, coordenadora do curso de relações internacionais da FAAP, os cem primeiros dias de governo serão fundamentais para a avaliação. 

Fernanda considera prudente acompanhar o relacionamento de Trump com diversos agentes específicos, com grupos de interesse e com o próprio Partido Republicano, que não declarou apoio majoritariamente ao magnata. 

A relação com o Brasil não deve sofrer grandes alterações diretas, uma vez que não existe acordo de livre mercado, mas o país poderá sofrer efeitos indiretos, caso o plano econômico de Trump, de protecionismo e que mexe com acordos comerciais, se materializar e gerar instabilidade internacional. “O que deve ser levado em conta é a forma como a China vai administrar a relação com os EUA sob o olhar da América Latina. O país asiático investiu massivamente e ampliou a presença na região aproveitando a lacuna aberta pelos EUA, que não têm [até então] política estratégica para a região.”

Nesta primeira edição do ano, IMPRENSA preparou uma publicação especial com opiniões de especialistas sobre os rumos da crise que estamos passando e o que deve continuar pautando os noticiários econômicos.

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