Sites apostam no jornalismo explicativo para sanar dúvidas dos leitores

Alana Rodrigues | 12/12/2016 15:30
A explicação sempre fez ou, supostamente, deveria fazer parte do trabalho de todo jornalista. Mas um "movimento" chamado jornalismo explicativo, pautado pelo esforço de entender e esmiuçar para o público os fatos, ganhou força nos últimos anos. Sites como o Me Explica? e o Por quê? mostram iniciativas que respondem possíveis dúvidas, além do tradicional lead jornalístico composto pelo “quem, o quê, quando e onde”.

Crédito:Reprodução/Me Explica

Frequentemente abordado para explicar assuntos do noticiário, o jornalista Diogo Rodriguez decidiu criar, em 2013, um espaço no qual pudesse explicar coisas complicadas em forma de perguntas e respostas. Inicialmente lançado no Tumblr, o site Me Explica? destrincha assuntos nacionais, internacionais, política e também economia. Hoje, a página no Facebook conta com mais de 28 mil curtidas e interage com os visitantes para selecionar pautas.

Rodriguez destaca que todo jornalismo deveria ser explicativo. “A definição do jornalismo, o princípio do jornalismo, é tentar fazer um trabalho ‘entendível’ para o cidadão. A editoria de economia, ao lado da política, é a que mais tem potencial para investir no jornalismo explicativo”, destaca.

O jornalista Gustavo Santos Ferreira, editor de conteúdo do Por quê? - Economês em bom Português, concorda. “Penso que todo profissional de imprensa deveria carregar esse espírito “explicativo”, independentemente do veículo em que esteja, da editoria em que atue. O jornalista precisa entender que seu trabalho atinge uma gama enorme de pessoas, de diferentes perfis e níveis de compreensão”.

Com o objetivo de ajudar o cidadão a dominar ao menos o básico do raciocínio econômico, o PQ? traz conteúdos produzidos ou supervisionados por três economistas - Carlos Eduardo Gonçalves, Mauro Rodrigues e Irineu de Carvalho Filho. Ferreira é o único jornalista de formação do grupo.

A equipe do site também conta com editores, designers e gestores de redes sociais. Eles se reúnem semanalmente para discutir e selecionar os assuntos e de que forma vão reproduzir o conteúdo - texto, áudio ou vídeo. O público também participa, enviando perguntas diárias por meio das redes sociais.

Linguagem

O editor do PQ? diz que o mais importante no jornalismo explicativo é fugir da linguagem técnica e, no caso da economia, evitar o “economês” ou, quando for imprescindível, traduzir o termo usado. “Quando palavras pouco usuais no dia a dia das pessoas são escolhidas pelo jornalista, ele até pode ter a chance de impressionar o próximo entrevistado. Mas não é assim que ele vai conseguir informar o maior número possível de pessoas”, frisa.

Segundo ele, o jornalista precisa se questionar se o que está informando é compreensível. “Seus amigos entenderiam? Sua família? Seus colegas de redação? Vizinhos? O garçom do bar? A moça da limpeza? Caso alguma dessas respostas seja negativa, o produto final dificilmente cumprirá o seu objetivo: informar”, acrescenta. 

Crédito:Reprodução/Por quê? Economês em bom português

O criador do Me Explica? acredita que é preciso deixar mais claro como alguns termos econômicos, como inflação ou taxas de juros, usados frequentemente, afetam a vida das pessoas. Ele destaca ainda que é possível investir em linguagens variadas, como vídeos explicativos, infográficos, publicações interativas ou podcasts. 

“São formatos que tornam uma coisa difícil em algo mais palatável. Alguns assuntos mexem até com a democracia, que permitem entender, por exemplo, quais são as políticas econômicas dos candidatos, influências no emprego, no setor industrial”, observa.
  
Na mídia

Rodriguez acredita que os veículos tradicionais ainda estão tímidos em relação ao jornalismo explicativo, limitando-se a criar, vez ou outra, uma seção de perguntas e respostas ao abordar determinados assuntos.  

Ele ressalta que, como leitor e jornalista, percebe que, muitas vezes, não entende o porquê dos fatos, como aquilo pode afetá-lo no dia a dia, qual o impacto, de onde vem determinada medida ou como funciona o mercado.

Para Ferreira, o jornalismo econômico conta com grandes “explicadores”, como Celso Ming e Miriam Leitão. Ele também lembra do trabalho de Joelmir Beting e Alberto Tamer, já falecidos, e observa que o estilo "mais didático" parece ter ganhado força nos últimos tempos, com iniciativas como a do Nexo. 
 
“Vira e mexe algum ‘jornalão’ de banca, TV ou internet anuncia uma ‘matéria especial’ para explicar algo. O que entristece é que essa matéria seja anunciada como ‘especial’, quando explicar deveria ser rotineiro para o jornalismo”, diz.

"Infelizmente, são várias as reportagens, sobretudo em economia, cujo o desejo do repórter parece passar longe de informar a maioria das pessoas. E, em boa parte das vezes, nem é isso. Pesam aí 'passaralhos' em série. São poucas cabeças e braços para muito trabalho – e, assim, a qualidade cai mesmo", acrescenta.

O editor destaca que um dos fatores que ajudam na construção da credibilidade de um veículo também passa pela capacidade de explicar o mundo. "Se, hoje, um consumidor de determinado veículo acredita que entendeu uma informação complexa; amanhã, é esse mesmo determinado veículo que o consumidor procura para entender o que significa outra coisa".

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