"Falta no país uma grande e influente mídia de centro-esquerda", opina jornalista

Gabriela Ferigato | 25/10/2016 16:00


Quinze anos após o lançamento do livro “De Cara com a Mídia”, o jornalista, doutor em filosofia política e consultor de empresas Francisco Viana traz uma nova reflexão sobre o que mudou na comunicação nos últimos anos e o que ainda irá mudar em uma segunda edição da obra.

O autor analisa o papel do comunicador no Brasil hoje, os desafios e impasses da mídia, a necessária multiplicidade de fontes, os efeitos das crises sobre a reputação e a identidade de seus protagonistas, dentre outras temáticas.
Crédito:arquivo pessoal
Segundo Viana, o comunicador precisa se revolucionar. E, para ele, isso significa “ler o seu tempo”. “Essa a principal urgência dessa revolução. Tomar o partido da sociedade. O comunicador pode fazer muito nesse sentido. Dar bons conselhos aos assessorados. Contribuir para que não vejam a realidade em preto e branco. Que entendam melhor a história e entendam a necessidade do diálogo político”, ressalta.

IMPRENSA - Há um capítulo de seu livro que questiona: “Crise da mídia ou crise do modelo de jornalismo?” Qual das crises fala mais alto hoje?
Francisco Viana - As duas crises se interligam. Há a crise da mídia, materializada na seleção viciosa das fontes, sobretudo; e a crise do modelo de fazer jornalismo que é visceralmente conservador e não se alinha nem mesmo com a reformas capitalistas. Se fosse diferente, o país seria outro. Não teria, por exemplo, um Estado gigantesco, que se autofinancia às custas de elevados impostos e os governos estariam voltados para a população. 

Durante a obra, você ressalta que “o comunicador precisa se revolucionar”. Quais as principais urgências dessa revolução? 
Ler o seu tempo. Essa a principal urgência dessa revolução. Tomar o partido da sociedade. Como diz Maquiavel, a sociedade, o povo, não muda; o que muda são as elites e estas são provisórias.  O comunicador pode fazer muito nesse sentido. Dar bons conselhos aos assessorados. Contribuir para que não vejam a realidade em preto e branco. Que entendam melhor a história e entendam a necessidade do diálogo político. No Brasil, temos a tradição de grandes monólogos e os resultados estão aí: os problemas são adiados e voltam cada vez com maior intensidade. 

Como resolvê-los? 
Com ações construtivas, com reformas, com atitudes éticas, atitudes não hipócritas.  O comunicador não é mero executor de ordens. É estrategista. E o que é a estratégia? É dilema, é dialética, é a construção de boas reputações. Se revolucionar, é mais do que se reinventar. É compreender a natureza das épocas e se antecipar. Concretamente, encontrar soluções para os problemas, sejam eles grandes ou pequenos. O que importa são as soluções, não a retórica. De retórica a sociedade está farta. Sintetizando, o jornalista e o comunicador precisam acompanhar e mesmo estar à frente do seu tempo. O Estado, os impostos e as empresas precisam ser questionados a cada instante. Não, sem culto ao denunciado que se imagina vende jornal, revista, etc... Com a análise concreta da realidade concreta. Com filosofia política e capacidade crítica. No Brasil, há uma democracia a construir. E, em paralelo, há muitas guerras: guerra contra a burocracia, contra a cultura da repressão, contra os preconceitos, contra os impostos, contra a estrutura de uma sociedade que teima em não mudar, que é prisioneira de grande atavismo social. São tantas as guerras... O que fazer? Muitos preferem silenciar acreditando que os problemas vão se resolver por geração espontâneas. Não se resolvem sozinhos. É preciso participar, tomar posições. Cooperar. Ser solidário. É nesse processo que o comunicador irá se revolucionar. Era contribuir para a vida melhor. 

Crédito:divulgação
Quais os principais dilemas que a imprensa enfrenta hoje em plena democracia?
O principal dilema é discutir a realidade, isto é, as causas estruturais que emperram as reformas, que emperram o pais.  Em outras palavras, conviver com a diferença político-ideológica e mostrar todos os lados da notícia. Discutir sintomas é a rotina, as causas não. 

Como avalia o papel do jornalismo investigativo na cobertura política atualmente? Ele exerceu seu papel?
O jornalismo brasileiro tem sido marcado por forte viés conservador. A primeira vítima tem sido os fatos. O chamado jornalismo investigativo não foge a essa regra. Cumpre seu papel até certo ponto. Mas se o assunto é político não vai muito fundo. Se espelha muito no jornalismo americano, quando deveria olhar mais para o jornalismo europeu. Precisamos de um renascimento do jornalismo. Precisamos de críticas, a esquerda e à direita. Não apenas criticar a esquerda. É uma ilusão pensar que se pode fazer jornalismo sem a esquerda. Precisamos, sim, de um jornalismo que seja um caleidoscópio, que reflita e critique ideias. Precisamos de faculdades que formem jornalistas cultos, que sejam incansáveis no hábito de questionar, estudar, pesquisas. Que estejam, enfim, atentos à realidade.

Uma pesquisa recente da ONG Latinobarómetro sobre a crença na independência dos meios de comunicação mostrou que no Brasil aproximadamente 20% da população acredita que a imprensa é independente. Em sua opinião, a imprensa atualmente perdeu a credibilidade?
Não. A imprensa, com ou sem credibilidade, continua fazendo a cabeça de muita gente. Falta no país uma grande e influente mídia de centro esquerda. E mesmo a chamada mídia liberal, mas verdadeiramente liberal. Não temos tradição de levar o leitor, a gente brasileira, a pensar, a refletir. Isto é muito importante. E está muito associado ao declínio da mídia. A mídia continua a ver a realidade em preto e branco. Há muitas nuanças. Todos os partidos estão legalizados. E essa evidência muda tudo. Mas os cronistas são muito conservadores. É mais fácil saber sobre o Brasil na mídia internacional do que na nossa mídia. É uma realidade que precisa mudar. 

Um levantamento interativo realizado pela Agência Pública, intitulado O Mapa do Jornalismo Independente no Brasil, apresentava no final de maio um total de 74 sites “que nasceram na rede, frutos de projetos coletivos e não ligados a grandes grupos de mídia, políticos, organizações ou empresas”. Qual é a importância da criação e participação de veículos na imprensa? 
Esses veículos podem apontar uma tendência, mas ainda são muito pouco influentes. Faltam leitores, falta capital para fazer esses veículos crescerem. Notícia custa caro. Custa investimentos. Não pode ser imprensa alternativa, não. Precisa de grande imprensa. Que forme e informe o leitor. Diz Manuel Castells: o poder da mídia é fazer a cabeça das pessoas. Como fazer isso, se a circulação é pequena? Pergunto por que o PT não criou uma mídia forte e independente? Na hora do sufoco, não tinha como enfrentar o cerco mediático. Ele era todo formado por batalhões de conservadores. É preciso aprender com a história. E se aprendeu muito pouco. Ou quase nada. Mídia forte é mídia independente. Se não há capital, não há independência. 

Leia também: