"Mulheres: Na periferia do jornalismo esportivo", por Amanda Stabile

Artigo vencedor do Foca na IMPRENSA (março 2018)

Amanda Flávia Stabile dos Santos | 16/04/2018 12:48
Tema: Mulheres no Jornalismo Esportivo 

Quase 65% das redações jornalísticas são compostas por mulheres, de acordo com um estudo feito em 2012, pelo Programa de Pós-Graduação da UFSC. Porém o campo jornalístico, assim como os demais, apresenta diversas subdivisões, onde quantidade não é sinônimo de equiparidade.

Há editorias que mantém um número superior de homens, como é o caso da esportiva. De acordo com o levantamento International Sports Press Survey (ISPS), de 2011, apenas 8% das coberturas esportivas pelo mundo são assinadas por mulheres e no Brasil, 7%. Uma das hipóteses para explicar o fenômeno se encontra na infância, a fase que estrutura a raíz da sociedade.

A partir de uma criação conservadora, há brincadeiras e gostos que são atribuídos a diferentes gêneros. À garota, bonecas e kits de panelas, para se preparar para a vida adulta. Ao garoto, bolas, além de ser ensinado a gostar de esportes, afinal, futebol é coisa de menino! 

Tais ações contribuem para a reprodução do estigma de que o homem entende melhor sobre esportes e tornam muito mais complicado que mulheres sejam respeitadas ao abordar assuntos como este. Assim, enquanto há uma maior presença masculina em áreas esportivas, em 2014, 5,9 milhões de brasileiras economicamente ativas trabalhavam com serviços domésticos, de acordo com pesquisa elaborada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Reafirmando que o machismo e o sexismo estão, evidentemente, presentes na área, recentemente um torcedor atacou a repórter do Esporte Interativo, Bruna Dealtry, com um beijo na boca, enquanto fazia um link ao vivo, cobrindo um jogo da Libertadores.

Porém o desrespeito não parte apenas dos espectadores. Mayra Siqueira, à época jornalista esportiva da Rádio CBN, revelou em debate na Rádio Central 3, em 2015, que se sentia mais intimidada pelos colegas de trabalho, do que por terceiros. "Gracinhas no estádio a gente ouve sempre, mas é muito triste perceber que seu colega duvida e questiona a maneira como você conseguiu certa informação".

Contudo, há mulheres que conseguiram lugar nesse campo cheio de desigualdades. Podemos citar exemplos brasileiros, como Marília Ruiz, apresentadora e comentarista do programa Estadão Esporte Clube, da rádio Eldorado FM e do programa BandSports News. Mas é importante ressaltar que nesse cenário elas são exceções e não a regra, as mulheres se encontram à margem desse campo, na periferia do jornalismo esportivo.

Usemos como parâmetro as premiações para o jornalismo espor tivo no Brasil. O prêmio tradicional da Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (Aceesp), não nega que este é um mercado majoritariamente masculino.

Em sua última edição, 2017, apenas uma mulher ganhou troféu e ainda como destaque feminino do Jornalismo Esportivo, o Prêmio Regiani Ritter. Se é necessário criar uma subdivisão para que mulheres sejam premiadas, torna-se inegável que, apesar de diversos avanços, ainda há um profundo problema em tal setor.

*Amanda Flávia Stabile dos Santos é estudante de jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.