“OS JORNALISTAS PRECISAM CONSTRUIR UMA MENTALIDADE DE SEGURANÇA”, DIZ ALTIERES ROHR
 
 
 
 

A avalanche de novas tecnologias dos últimos anos permitiu aos jornalistas um acesso a informações, fontes e estatísticas como nunca se viu. Entretanto, do outro lado do balcão, os leitores também podem descobrir detalhes pessoais e profissionais de repórteres, editores e chefes de redação. De acordo com o jornalista especializado em tecnologia e segurança da informação Altieres Rohr, “na hora em que adota uma tecnologia nova, se ignora o lado da segurança”. 

Criador e editor do site “Linha Defensiva” e colunista do G1, Rohr defende que essa é uma questão importante que precisa ser desenvolvida. Inclusive nos jornalistas. “Porque são eles que geralmente noticiam uma tecnologia nova, coisas novas, trabalham com o novo. Então, seria também dos jornalistas esse papel de pensar em modo de segurança e alertar os leitores para isso”, explica”, explica.

Crédito:Divulgação
Altieres Rohr, jornalista especializado em tecnologia


Como o jornalista pode se precaver para não ter e-mails, smartphones e computadores hackeados?

Altieres – A primeira coisa é que o jornalista tem de ter todos os cuidados normais de qualquer usuário de Internet. O que já não é pouca coisa. Os ataques são muito comuns e acontecem todo dia. Então Ajá não é uma tarefa fácil para o internauta comum manter o computador seguro já por conta disso tudo. E com certeza, um jornalista que mantém informações mais sigilosas, vai ter de tomar medidas além disso para se proteger mesmo – além de suas fontes.

Qual tecnologia é imprescindível para o jornalista?

Acredito que a tecnologia mais importante que os jornalistas precisam conhecer é o PGP (sistema de criptografia interessante para troca de documentos e mensagens). São vários softwares que usam essa tecnologia, inclusive alguns gratuitos como o GPG, que é uma tecnologia de criptografia. Se eu mando um e-mail para você com PGP (sistema de encriptação), só você pode abrir esse e-mail. E a chave desse PGP é protegida com outra chave. Então, mesmo que alguém roube o seu computador, se você estiver usando o PGP da maneira certa, a pessoa não vai ter a sua senha para ler os e-mails. O ideal é você usar uma senha bem longa para essa chave. A ideia é que a pessoa que roubou o seu computador quiser abrir seu conta, vai ficar anos testando senhas até conseguir achar, porque o PGP usa uma chave grande. São muitas tentativas até a pessoa descobrir a chave correta. Até que descubra, a informação não vai mais ser relevante. Ela foi usada pelo Snowden para se comunicar com o Greenwald. No caso de notebooks, os jornalistas também devem procurar utilizar a criptografia de disco. E aí é uma criptografia total. É aquela que foi usada pelo Daniel Dantas, por exemplo, no notebook dele que o FBI não conseguiu desfazer. É outra tecnologia que a pessoa vai tentar quebrar por anos.

Esse tipo de proteção ainda está longe da cabeça dos jornalistas?

O próprio Greenwald, quando entrou em contato com o Snowden, disse que não conhecia nada disso e teve que chamar um amigo técnico dele para fazer as mudanças noA computador e instalar tudo, porque ele não tinha conhecimento e não conseguiria instalar tudo por conta. Não são tecnologias 100% fáceis de você usar. Tem isso também: existe uma barreira não só de conhecer a tecnologia mas também de você querer usar. Eu mesmo não uso algumas coisas. O PGP ainda é raro até na própria comunidade de segurança, porque são coisas que atrapalham o dia a dia e o seu trabalho. Agora, para alguma coisa mais sensível, você precisa buscar utilizar. A questão é criar uma rotina de você tomar cuidado com a sua comunicação. Até porque, se você quer uma segurança melhor, o que você faz? Marca um encontro pessoalmente. Você não troca informação por um e-mail ou por um telefonema. Essa é uma atitude mais instintiva, digamos. Mesmo que seja possível você ter aquela comunicação mais segura por e-mail, muitas vezes se toma essa atitude de fazer uma comunicação mais direta porque ali você tem um controle maior sobre o conteúdo daquela comunicação, quem vai ouvir. Existe a segurança digital, mas às vezes é mais simples você usar um meio mais tradicional. 

Quais os erros mais comuns dos jornalistas na hora de preservar as informações?

Depende da rotina de cada um. Pela minha experiência de jornalista na faculdade, muita gente não tem cuidado com senhas, com nada desse tipo. Você precisa ter uma mentalidade que envolva tudo, sua senha, a maneira que você guarda as suas contas de e-mail. Se você tem mais de uma conta, como você gerencia isso. Existem os ataques diários que os hackers fazem e existe a possibilidade de um jornalista que esteja cobrindo um caso grande de ser alvo de um ataque direcionado de alguém que queira roubar especificamente uma informação à qual ele teve acesso. Nisso os jornalistas precisam ter cuidado. Não é uma questão apenas de tecnologia, é uma questão pessoal também. Inclusive um jornalista pode ser fíAgado pela própria promessa de uma informação exclusiva. Você recebe uma mensagem que promete um furo muito grande, clica, e aquilo pode comprometer o seu computador. 

Quais as práticas mais conhecidas para roubar informações online?

Você tem primeiro a falha de segurança, que é um problema para o computador quando a pessoa não atualiza o sistema, não atualiza o navegador de internet e tudo mais. No que entrar num site, você é hackeado. A segunda questão é o ataque aos modens. Teve há poucas semanas uma notícia que mostrava que também tem acontecido no Brasil de ao acessar um link, ele altera seu roteador de internet e a partir disso a navegação é redirecionada. É preciso proteger o seu roteador também, trocar a senha, não deixar a de fábrica. E aí tem os ataques que são pessoais. Quando chega, por exemplo, uma mensagem de e-mail que chega diretamente para você, prometendo algo do seu interesse. Eles vão buscar uma coisa especificamente que você tenha interesse e vão explorar isso. Não existe regra para esse ataque acontecer. A ideia é fugir da regra. É ser o ponto fora da curva. Você tem de construir uma mentalidade, estar sempre atento e suspeitar de tudo. É uma mentalidade muito interessante para nós, que estamos acostumados com o impresso, fica pior ainda. 

Tem algum caso de jornalistas que comprovadamente foram hackeados?

Teve um caso na Coreia do Sul e um no New York Times, que é mais recente e foi bem direcionado. Tiveram de contratar uma consultoria, pois os computadores da redação foram comprometidos. 

Em agosto, teve o episódio da Amudança de verbetes de jornalistas no Planalto. Quais foram os problemas?

A informação de que teria ocorrido essa alteração direto do computador do Planalto foi chocante. Nós nos assustamos, mas também é preciso levar em consideração que essa alteração não foi isolada. O perfil da Miriam Leitão, se você verificar as alterações, é um perfil que há anos sofrendo vandalismo. Então ok, ocorreu uma modificação a partir do Planalto, mas não foi uma modificação isolada. Foi sistêmico. Por um lado, você tem essa questão isolada do computador do Planalto, mas acredito que seria preciso investigar esse vandalismo sistêmico que acontece. Não do computador do Planalto, mas dos outros IPs. Existem casos ali de modificações que foram feitas, desfeitas e refeitas. E às vezes é uma mesma modificação introduzida por um IP diferente. São pessoas que mudam do computador caseiro ou do trabalho, que ficam naquela coisa de modificar aquele perfil de forma coordenada ou não. E se é uma coisa coordenada, porque é fato que se você tem um trabalho mais conhecido, alguns leitores não vão concordar, não vão gostar de você, é normal de quem trabalha com comunicação. Agora, se existe um ataque coordenado, não importa se é por parte de governo ou por parte de partido, se é da concorrência da imprensa, ou até de uma organização que você cobre não tenha gostado de algo, e aí vem esse ataque para manchar sua reputação, se isso for coordenado e não venha dos leitores, precisa ser investigado e punido. Não é correto alguém receber dinheiro para manchar a reputação de alguém. É chocante, mas essa questão sistêmica que foi ignorada que eu acredito que seja o mais importante. 

Tem mais algum aspecto de segurança no qual as pessoas ainda não percebem?

Como eu falei, é preciso construir essa mentalidade de segurança. E essa mentalidAade é uma coisa que é muito difícil hoje. Essa expressão nem é minha. Tem muita gente que fala do inglês “security mindset”, que é uma questão de você simplesmente pensar nas implicações de segurança de algo. Hoje, a gente busca sempre o que tem o recurso melhor, o recurso novo, a função nova. E a gente ignora o sacrifício de segurança que a gente faz nas coisas. Esse vazamento de fotos de pessoas famosas que ocorreu agora é um ótimo exemplo. A gente compra um celular e às vezes ele vem configurado de fábrica para compartilhar aquela foto que você tira com a nuvem, e aí você abre uma foto que você acha que é pessoal e coloca na internet para que alguém, usando alguma falha no sistema, no serviço ou de alguma senha fraca que você configurou acessa aquela informação que você acreditava estar protegida dentro do seu bolso. Esse é o ponto que muita gente ignora. Na hora em que adota uma tecnologia nova, se ignora o lado da segurança, que vem como um pensamento nem secundário, mas terciário. Às vezes completamente ignorado. Você não pensa antes, pensa depois que aconteceu ou quando o risco se apresenta quando começam os ataques e os problemas. Essa é uma questão importante que precisa ser desenvolvida. Inclusive nos jornalistas. Porque são eles que geralmente noticiam uma tecnologia nova, coisas novas, trabalham com o novo. Então, seria também dos jornalistas esse papel de pensar em modo de segurança e alertar os leitores para isso. Não ficar só naquela coisa do hype ou da coisa nova que às vezes nos leva a um caminho que não procurávamos.

 
   
 
 
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