A "ditabranda" da Folha

Igor Ribeiro | 25/02/2009 12:54

Uma discussão importantíssima ocorreu na semana passada pelas páginas do "Painel do leitor", do jornal Folha de S.Paulo e, aos mais desavisados, vale recapitular. O motivo inicial foi a utilização de uma terminologia duvidosa num editorial do dia 17 de fevereiro para se referir ao regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. No referido texto, o jornal defendia que, apesar da recente vitória de Hugo Chávez no referendo sobre a reeleição presidencial ilimitada, o líder venezuelano começará a enfrentar uma oposição mais sólida.

Em determinado trecho, ao estabelecer comparações entre os regimes autoritários contemporâneos e aqueles que dominaram a América Latina em meados do século passado, referiu-se à experiência brasileira como "ditabranda", dando a entender que foi comparativamente menos violenta do que outros regimes similares. Com um trocadilho exótico, pouco fundamentado e num espaço nobre do jornal - os editoriais da página dois - era de se esperar a indignação dos leitores que se sucedeu. O anormal veio depois...

Aqui vale um pequeno parêntesis. Após defender o golpe de 1964 e sofrer duras conseqüências dessa posição - desde ataques de grupos de esquerda até a censura rígida durante os anos de chumbo -, a Folha procurou se redimir apoiando incisivamente o movimento das Diretas Já. Acertadas as contas com a sociedade, o Grupo Folha se notabilizou pelo projeto inspirado no jornalismo estadunidense moderno que, por um lado, ditava uma rigorosa assepsia ideológica e forte comprometimento democrático e, por outro, deixava o jornal à mercê do liberalismo econômico e das leis de mercado. O resultado dessa fórmula o Brasil inteiro sabe: a Folha de S.Paulo se tornou o jornal de maior circulação do país.

O passado nem sempre glorioso ficou na história e, dentro da nova realidade, o jornal deu voz à pluralidade e ao bom senso. O debate democrático ganhou corpo com a participação recorrente de personalidades dos mais variados matizes ideológicos, fosse enquanto pauta, fosse enquanto colaborador. A opinião da direção do grupo manteve o espaço na página dois e caracterizou-se, fundamentalmente, por uma posição de centro-esquerda, ora cambaleante para a direita, mas sempre avessa a extremos. A fisionomia da direção do jornal nunca foi, portanto, tão explícita quanto a de outros grandes concorrentes nacionais, como O Estado de S. Paulo e O Globo. Sabia-se, sim, que Otávio Frias de Oliveira (1912-2007) era o norte intelectual e administrativo daquele jornal. Ele próprio sempre sóbrio, avesso à politicagem mercadológica, mas muito consciente do poder social que possui um grande catalisador da opinião pública como a Folha. Fecho os parêntesis.

Usar o termo "ditabranda", portanto, em nada surpreende a quem acompanha essa linha editorial inquieta do jornal. Foi uma queda à direita, entre tantas outras que a opinião da página dois já teve. O caráter plural do jornal se manteve ao publicar, nos dias seguintes, diversas cartas contra ou a favor do termo, favorecendo assim um livre debate sobre esse nebuloso período histórico brasileiro.

O que surpreendeu, porém - o aspecto "anormal", como dito anteriormente - foi uma das respostas da redação a duas cartas na sexta-feira, no dia 20 de fevereiro. Entre os diversos leitores que debateram o assunto, estavam Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fábio Konder Comparato, acadêmicos com destacado trabalho sobre direitos humanos no Brasil e no exterior. Em textos inflamados, é verdade, questionaram enfaticamente o termo utilizado pela Folha. Esta, por sua vez, respondeu, por meio de "Nota da Redação":

"A Folha respeita a opinião de leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas dessas manifestações acima. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua 'indignação' é obviamente cínica e mentirosa."

Em que momento a Folha de S.Paulo deixou de ser uma empresa plural, com espaço opinativo diverso, para se tornar o indivíduo ressentido e arbitrário que formulou a resposta acima? O pior é que seu autor se apropriou do único espaço "especial", de caráter anônimo e institucional, garantido diariamente na página dois do jornal, para dizer o que bem pensa. Nada mais explica uma réplica tão mesquinha que não uma atitude unilateral de alguém que toma as rédeas da "Redação", como diz a nota, para dizer arbitrariedades sem o devido cuidado. Junta-se a isso a invenção ou utilização do referido "ditabranda" e chega-se a pensar se o autor do editorial e da resposta não só são a mesma pessoa, como também a própria reencarnação do Médici.

Tal atitude é tão perigosa e indelicada que, fosse eu o doutor Comparato ou a professora Maria Victoria, procuraria meios jurídicos de punir a "Redação" pelo que ela disse a meu respeito. Caso eu ganhasse, quem pagaria o pato? Cada um dos jornalistas que trabalham no quarto andar da alameda Barão de Limeira, muitos deles gente do mais elevado caráter pessoal e profissional? Como alguém que assina uma nota em nome de um corpo complexo como uma redação pode sair dizendo que a opinião geral é de que Fulano ou Sicrano é cínico e mentiroso?

No sábado, mais uma enxurrada de cartas sobre o ocorrido, a maioria horrorizada, claro, com as palavras utilizadas pela Folha. Aparentemente ninguém vislumbrou um processo, mas um leitor mineiro indicou o início de uma movimentação de abaixo-assinados, sem especificar com qual propósito. Nesse dia e no seguinte, o editorial silenciou-se sobre o assunto, espero eu que constrangido pelo soneto duvidoso e pela péssima emenda.

Procurei verificar se no domingo, dia 22, Carlos Eduardo Lins da Silva escreveria algo a respeito, no intuito de redimir a triste atuação do jornal no episódio com uma autocrítica que fosse e, quem sabe, até um pedido de desculpas. Infelizmente, o ombudsman não pôde dar maior importância, justificando seu trabalho como tangente às opiniões por serem "como religião, time de futebol, convicção ideológica: cada um tem a sua e nenhuma é melhor que outra". Reconheceu, porém, que pela movimentação de cartas dos leitores sobre o assunto, não poderia deixar de sublinhar que a "resposta da Redação a duas delas na sexta foge do padrão de cordialidade que julgo essencial o jornal manter com seus leitores". Certamente, o jornal não se deu o trabalho de elevar o nível do debate e, até mesmo, de ter a nobre atitude que muitos de seus espezinhadores não tiveram. Preferiu partir para uma agressão pública, que certamente trará máculas.

A boa escola jornalística ensina uma lição que muitas vezes passa despercebida, apesar de básica: a sacralização da palavra. O texto deve ser idolatrado e cultivado com o mesmo cuidado que desperta alguém ou algo a que amamos muito. Essa parece ter sido a principal falha da Folha no episódio. Seja em editoriais ou em reportagens, falar o que se pensa não pode ser nunca pretexto para ultrapassar o limite do bom senso. Cravar a tal da "ditabranda", no entanto, tornou-se menor diante da resposta atravessada da sexta. Para estabelecer um diálogo saudável com quem quer que seja - ainda mais se público e com leitores constantes, como pareceu o caso - o que se precisa é de humildade, coisa que, infelizmente, não está na escola de jornalismo. Essa é a vida que ensina mesmo.