Cartas falsas no jornal para influenciar as eleições

Nelson Varón Cadena | 06/10/2008 11:44

Pelo menos um pecado o "Correio da Manhã", o jornal que combateu todas as ditaduras, ícone da resistência da imprensa aos regimes de arbítrio, cometeu em tempos de eleições. Em 09 de outubro de 1921 publicava o fac-símile de uma carta assinada pelo candidato à Presidência da República Arthur Bernardes, com graves ofensas ao Marechal Hermes da Fonseca, a quem chamava de "sargentão sem compostura", qualificando o jantar organizado pela oficialidade, na sua homenagem, de "uma orgia"; então sugeria aos militares: "esse canalha precisa de uma reprimenda para entrar na disciplina". A carta que intrigava Bernardes com os militares era falsa.

No dia seguinte o jornal publicava uma outra missiva, também atribuída ao candidato mineiro, desta vez insultando Nilo Peçanha, "o moleque capaz de tudo", também candidato à Presidência da República. As cartas supostamente escritas por Bernardes deflagraram uma grave crise, repercutidas por outros jornais e pelo traço ferino dos chargistas das revistas semanais e mensais. Arthur Bernardes apressou-se em negar a sua autoria. O Clube Militar atestou a falsificação, mas a imprensa não estava muito preocupada com isso, a estas alturas engajada na disputa eleitoral. E assim as cartas falsas alimentaram o debate, até o sufrágio dos eleitores em março de 1922, a abertura das urnas e a recontagem dos votos, exigência da oposição, até a confirmação da vitória de Bernardes.

Trama anunciada
Naquele tempo os jornais eram cabos eleitorais influentes, atingiam a parcela da população autorizada a votar: a elite brasileira. Além disso, não tinham compromisso com a informação, alguns deles publicavam somente a relação de deputados eleitos pelos partidos amigos, omitindo do leitor outros nomes sufragados. Foi nesse contexto que o Correio da Manhã se dispôs a publicar as cartas que o Jornal do Commercio recusara em 20/09/21. Na data o jornal denunciava: "Ensaiam-se, porém, agora na sombra, outras armas... É o caso, espalhado à surdina, de umas cartas manuscritas que o seu possuidor assoalha serem do próprio punho do Sr. Arthur Bernardes... Essas cartas... oferecidas à venda nesse caráter, puderam ser escritas em papel timbrado do gabinete do Presidente de Minas e, consta, imitam muito bem a letra do mesmo".

Nem mesmo a advertência do JC, uma denuncia pública, foi considerada por Mário Rodrigues (redator político) e Raimundo Silva (diretor do jornal) que na ausência de Edmundo Bittencourt, proprietário do Correio da Manhã, tomaram a decisão de reproduzir as cartas três semanas após a publicação da nota referida. Mais do que isso , firmaram posição com o artigo intitulado " Injurioso e Ultrajante". Na seqüência dos acontecimentos o jornal acusaria Bernardes de corrupção e suborno. Meses depois quando os falsários Jacinto Guimarães e Oldemar Lacerda confessaram o crime, muitas perguntas ainda pairavam no ar, algumas delas não respondidas até hoje: Quem pagou pelas cartas e quanto já que Lacerda se seu ao luxo de passar uma longa temporada na Europa ?

O Presidente da República, que governou sob Estado de Sitio, vingou-se do jornal. Primeiro prendeu Edmundo e Paulo Bittencourt, seus proprietários. E em 31 de agosto de 1924 fechou o "Correio da Manhã", acusado de imprimir nas suas oficinas um folheto clandestino com propostas dos tenentes rebeldes do levante dos 18 do Forte, ocorrido em cinco de julho/22. Deixava de circular durante oito meses e vinte dias, retomando suas atividades em maio de 1925, sob a direção provisória de Moniz Sodré. Pagara o preço do estopim que ele mesmo ascendera.