Em dois meses, campanha de assinaturas viabiliza lançamento de jornal online em Curitiba

Marta Teixeira | 18/01/2019 15:05

"Quando uma porta se fecha, abre-se uma janela". Como todo dito popular, a frase pode até ser batida, mas nem por isso é menos verdadeira, e traduz exatamente o que está acontecendo na carreira do jornalista Rogerio Galindo. O fim do ciclo do autor do blog Caixa Zero no jornal Gazeta do Povo, no início de novembro, tornou-se o início de um projeto promissor. 


Crédito:Vinicius Mafra
Mauricio Ramos, Rogério Galindo (centro) e Vir Moraes Ramos


Na última segunda-feira (14), Galindo e quatro sócios lançaram o Plural (www.plural.jor.br), jornal online focado principalmente no noticiário local de Curitiba. A aposta é na oferta de conteúdos aprofundados sob perspectivas diferentes, inicialmente, nas áreas de política, cidades e cultura.


"Queremos explicar as coisas com tempo, com calma. Nesse sentido vai ter um certo ar de revista, mais do que desse jornalismo alucinado de querer dar as coisas no segundo que elas acontecem", explica o jornalista ao Portal IMPRENSA. 


Estão com ele nessa empreitada sua mulher, a também jornalista Rosiane Correia de Freitas, o publicitário Mauricio Ramos e sua esposa Virgínia Moraes Ramos, da Social Ideias, e o cartunista Benett. O projeto foi viabilizado graças a uma campanha de assinaturas na plataforma de financiamento coletivo Catarse. 


Com opções a partir dos R$ 5, antes mesmo de estar no ar, o jornal já tinha garantido 700 assinantes e com alguns chegando a assinar por R$ 200, diz Galindo. O modelo de assinatura foi o ponto de partida para lançar o projeto, que já caminha para viabilizar outras formas de monetização. 


Do início da captação, em dezembro, até o lançamento, as assinaturas atingiram quatro das cinco metas estabelecidas pelo grupo, que tem perspectivas confiantes quanto ao futuro. A criação de uma parceria consistente com um público que reconhece a importância do jornalismo para a sociedade está na base da confiança do grupo no sucesso.


"Existe a noção crescente de que é preciso pagar por informação bem apurada, bem escrita. Nossa ideia é conversar com essas pessoas que já perceberam isso, conseguir apoio de uma comunidade que tem a crença de que jornalismo é uma base fundamental da democracia, e conseguir apoio delas, tanto como assinantes como quanto apoiadores, patrocinadores. Achar que é só publicar notícia e esperar que as pessoas vão te seguir, como o flautista de Hamelin, é falência certa", destaca Galindo. 


Atualmente, o acesso ao site é totalmente aberto. A equipe inclui um time de colunistas e cronistas. Entre eles, a juíza Fernanda Orsomarzo, Luís Henrique Pellanda e Fagner Zadra. O quadrinista  Alexandre Beck, e seu personagem Armandinho, e o tradutor e escritor Caetano Galindo, assinando um romance em folhetim, também serão publicados pelo jornal, que terá ainda podcast e vídeo. 


Com o tempo, parte do conteúdo será exclusivo para assinantes (com opções de planos mensais, semestrais e anuais). Os assinantes receberão conteúdos exclusivos via WhatsApp e, em breve, o jornal também terá um aplicativo. "Ainda somos pequenos, mas estamos crescendo numa velocidade bem boa", ressalta Galindo. 


Leia a seguir, a íntegra da entrevista do jornalista ao Portal IMPRENSA, explicando detalhes do projeto. 


A ideia do jornal surgiu em novembro e em apenas dois meses, praticamente, o projeto se tornou realidade. Essa rapidez os surpreendeu?
Foi tudo muito rápido mesmo. A minha demissão, depois de quase duas décadas na Gazeta do Povo, causou uma certa comoção, e a gente achou que quanto antes conseguisse colocar o novo jornal no ar, mais teríamos o apoio dessas pessoas que estavam sentido a necessidade de um novo veículo, de uma alternativa. Então resolvemos que seria tudo muito rápido. E incrivelmente as pessoas colaboraram. Eu brinco que foi como pescar na piracema: o clima era tal que as pessoas pulavam para dentro do barco sem a gente nem fazer esforço.
 
A viabilização inicial foi feita exclusivamente com o que obtiveram no crowdfunding ou houve outras fontes de recursos?
A gente optou pelo Catarse, mas foi na modalidade assinaturas, que eles abriram recentemente. Ou seja, não é uma “vaquinha”, é uma assinatura mesmo, um valor que a pessoa paga todo mês para ter acesso ao jornal. Conseguimos 700 assinantes antes de entrar no ar. O valor é variável, começa em R$ 5, mas teve quem decidisse assinar por R$ 200, por achar que o jornal era importante. Foi nossa primeira receita e foi bem importante. Agora estamos começando a vender anúncios, temos outras ideias de captação de recursos. Ainda somos pequenos, mas estamos crescendo numa velocidade bem boa.
 
Quanto conseguiram captar no financiamento coletivo?
As assinaturas do Catarse já atingiram a nossa quarta meta. É tudo por metas. Se conseguíssemos R$ 5 mil, prometíamos colocar o blog no ar. Com R$ 7 mil, entravam colunistas etc. Já passamos a meta 4, de R$ 12 mil. Tínhamos previsto só até a meta 5, com R$ 15 mil. Mas felizmente vamos precisar criar mais coisas.
 
Muito se fala sobre as dificuldades no setor de comunicação como negócio, mas tiveram confiança para iniciar esse projeto. Acredita que o pior momento da crise no mercado de mídia já passou?  Por que vale a pena ser otimista?
Olha, é tudo muito incerto. Para quem apostar no modelo convencional, a coisa fica difícil mesmo. O jornal de onde saí enfrenta déficits milionários a cada ano. A gente aposta num modelo bem diferente, colaborativo. Isso vai ficar mais claro á medida que a gente for revelando as ideias de financiamento que temos. Mas acho que as pessoas sempre vão precisar de jornalismo. E existe a noção crescente de que é preciso pagar por informação bem apurada, bem escrita. Nossa ideia é conversar com essas pessoas que já perceberam isso, conseguir apoio de uma comunidade que tem a crença de que jornalismo é uma base fundamental da democracia, e conseguir apoio delas, tanto como assinantes como quanto apoiadores, patrocinadores. Achar que é só publicar notícia e esperar que as pessoas vão te seguir, como o flautista de Hamelin, é falência certa.
 
Editorialmente, qual será a linha do jornal: grandes reportagens, interatividade, foco em hardnews... ?
Vamos apostar principalmente em cobrir a cidade. Fazer bom jornalismo local. Temos só três editorias: política, cidades e cultura. Vamos ter reportagens aprofundadas (pelo menos uma por editoria/dia) e vários outros modos de olhar para esses temas. Teremos blogs para notinhas curtas, podcasts, vídeos, colunas, charges. Não temos interesse em cobrir tudo 24h, em sermos os primeiros a dar. Queremos explicar as coisas com tempo, com calma. Nesse sentido vai ter um certo ar de revista, mais do que desse jornalismo alucinado de querer dar as coisas no segundo que elas acontecem.
 
Quantas pessoas fazem parte da equipe do Plural (jornalistas, colunistas, colaboradores etc...) e como funciona o vínculo com eles ?
Somos cinco sócios. Temos umas duas dezenas de colunistas, cronistas e blogueiros, que recebem por texto. E os repórteres, por enquanto, são todos contratados por frila, assim como os fotógrafos. Mas isso deve mudar assim que tivermos como pagar salários regularmente. Não queremos dar um passo maior do que a perna.
 
Em linhas gerais, qual o modelo de negócios que vão adotar?
Assinaturas são o melhor caminho, sempre. É o leitor financiando o seu veículo. Queremos chegar a cinco mil, pelo menos, em um médio prazo. Depois tem outras formas de financiamento. Anúncios e patrocínios são um começo. Mas vai vir novidade por aí.
 
Tem estimativa de a partir de quando será necessário ser assinante para ter acesso ao conteúdo?
Essa é uma discussão interna ainda em andamento. Por enquanto é totalmente aberto. Logo vamos pedir para as pessoas fazerem um cadastro gratuito para terem acesso ao material. O fechamento viria depois. E mesmo quando fechado, em modelo de paywall, prevemos formas de os leitores poderem decidir alguns conteúdos que ficarão abertos, ou de darem senhas para amigos poderem ler alguma matéria em específico etc. Nunca vai ser 100% só para assinantes.
 
Considerando a questão de monetização, acha que paywall e publicidade digital são suficientes para sustentar um jornal digital?
Não. Temos que inventar uma roda nova. E com o carro andando. Mas essa proximidade com a comunidade, esse fato de o jornal estar surgindo de uma vontade do leitor, nos dá muito mais chances de fazer essas experimentações. Nosso leitor realmente está do nosso lado, não é conversa de marqueteiro. A gente recebeu quase uma convocação pra fazer isso, e as pessoas estão nos empurrando para fazer o jornal que é o sonho delas e o nosso. Se a gente não fizer besteira, vai dar certo.
 
São poucos dias de vida do jornal, mas que análise já pode fazer do retorno obtido?
Uma correria doida. A audiência começou bem. As assinaturas cresceram. Nosso leitor está dizendo que estamos afinados com o que ele desejava de nós desde o começo. As pessoas estão empolgadas com um projeto de jornalismo como há muitos anos não se via em Curitiba. E isso me deixa encantado. 


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